Adolescentes que ingerem álcool e energético podem se tornar adultos viciados em drogas

Matheus Macedo-Lima
26/10/2016

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Whisky e energético é uma mistura típica de festas e baladas no Brasil. Um, é um depressor; o outro, estimulante. “Confundir” o cérebro dessa maneira pode trazer consequências graves. Por exemplo, a cafeína mascara os efeitos depressivos do álcool, o que significa que o indivíduo pode não conseguir perceber que chegou ao seu “limite” alcoólico. Por conta disso, beber álcool e energético aumenta em 3 vezes o risco de embriaguez numa noite e em 4 vezes o risco de querer dirigir ao sair de um bar [2]. Para aumentar a lista de problemas, um estudo recente concluiu que essa mistura durante a adolescência pode causar mudanças duradouras no cérebro que se comparam com o que acontece com a ingestão de cocaína [3].

Os pesquisadores utilizaram camundongos para comparar os efeitos de altos níveis de álcool, de cafeína ou de uma combinação dos dois durante a adolescência. Grupos de animais foram expostos a esses tratamentos e testados ainda na adolescência ou na fase adulta. Os resultados mostram que a exposição à mistura (álcool + cafeína) causa efeitos únicos quando comparados aos outros tratamentos.

A mistura fez com que os animais se locomovessem muito mais após o tratamento, efeito similar ao observado em humanos que ingerem a combinação. Interessantemente, fêmeas são mais sensíveis a esse efeito. Essa diferença na sensibilidade a drogas de abuso (como a cocaína) é também encontrada em fêmeas de humanos e de outros animais, devido, em grande parte, ao efeito dos hormônios sexuais no processo de dependência [4].

Vício por drogas de abuso aumenta a expressão da proteína ΔFosB no núcleo accumbens (parte do “centro do prazer” do cérebro). O estudo mostra que a mistura de álcool e cafeína causou a elevação da expressão desta proteína aos mesmos níveis da cocaína, fato não observado nos outros grupos. Além disso, camundongos expostos à mistura durante a adolescência eram menos sensíveis à cocaína quando adultos. Normalmente, essa falta de sensibilidade é observada em estágios avançados de dependência por drogas, em que o cérebro “exige” doses maiores para satisfazer o vício. Para corroborar essa hipótese, os pesquisadores mostraram que animais expostos à mistura quando adolescentes ingeriam maiores quantidades de água contendo sacarina (adoçante) quando adultos. Isso indica que os animais eram mais propensos a buscar recompensas, o que também é comparável à predisposição ao abuso de drogas.

O Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos proíbe, desde 2009, a comercialização de bebidas alcoólicas cafeinadas e investe em campanhas para desencorajar a mistura “artesanal”. No Brasil estas bebidas ainda são bastante populares.

O estudo descrito aqui sugere que a mistura de álcool e energético pode afetar o desenvolvimento do cérebro durante a adolescência – principalmente em fêmeas – tornando camundongos mais susceptíveis ao abuso de drogas quando adultos. Unindo esses dados aos efeitos observados em adultos, dá para concluir que essa mistura pode estragar a festa. Portanto, se for beber, é importante estar apto para reconhecer os seus limites.

[1] Crédito da imagem: Dave Pitt (Flickr) / Creative Commons (CC BY-NC-ND 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/davethepitt/6315399322/.

[2] DL Thombs et al. Event-level analyses of energy drink consumption and alcohol intoxication in bar patrons. Addict Behav 35, 325 (2010).

[3] MT Robins et al. Unique behavioral and neurochemical effects induced by repeated adolescent consumption of caffeine-mixed alcohol in C57BL/6 mice. PLoS One 11, e0158189 (2016).

[4] SA Bobzean et al. Sex differences in the neurobiology of drug addiction. Exp Neurol 259, 64 (2014).

Como citar este artigo: Matheus Macedo-Lima. Adolescentes que ingerem álcool e energético podem se tornar adultos viciados em drogas. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2016/10/adolescentes-que-ingerem-alcool-e-energetico-podem-se-tornar-adultos-viciados-em-drogas/. Publicado em 26 de outubro (2016).

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Matheus Macedo-Lima

Doutorando em Neuroscience and Behavior na University of Massachusetts Amherst (USA). Escreve sobre Neurociência no Saense.

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