Será que a mamografia está com os dias contados?

Ana Maia
21/11/2016

Laço rosa, que é símbolo da campanha mundial de conscientização do câncer de mama, que ocorre no mês de outubro. [1]
Laço rosa, que é símbolo da campanha mundial de conscientização do câncer de mama, que ocorre no mês de outubro. [1]
A mamografia é um exame amplamente usado para rastreamento do câncer de mama no mundo todo. O câncer de mama é a principal causa de mortes de mulheres por câncer, além de ser de ocorrência frequente. Aproximadamente, um a cada quatro novos cânceres em mulheres é de mama [2].

Contudo, a mamografia tem dois inconvenientes grandes: i) usa radiação ionizante e, portanto, ao mesmo tempo que é aliado na busca pelo câncer, pode acabar por aumentar o risco de surgimento de tumores malignos; ii) é um exame doloroso, pois é feito com compressão forte das mamas. Além destes inconvenientes, as imagens de mamografia não permitem clara distinção entre tumores benignos e malignos, ocasionando muitos falsos-positivos.

Assim, muitos esforços são empenhados em pesquisas que buscam o desenvolvimento de técnicas que possam substituir a mamografia no rastreamento populacional para câncer de mama e que permita clareza da malignidade do tumor. Nesta direção, as técnicas mais modernas de ultrassonografia com contraste parecem promissoras [2, 3]. Estas técnicas usam um contraste com microbolhas que é injetado na corrente sanguínea e que permite avaliação da vascularização. Como a região tumoral possui vascularização intensa e com padrão distinto da vascularização regular, é possível localizar o câncer por meio de técnicas de ultrassom que conseguem detectar as microbolhas e fornecem imagens com muito boa resolução. Estas técnicas já estão em estágio de uso clínico para alguns órgãos, como os testículos. Contudo, em órgãos maiores, o tempo de obtenção da imagem gera artefatos de movimento da imagem, além de maior dificuldade de detecção do contraste em profundidades maiores.

Um estudo muito recente de um grupo holandês [3] aponta um novo caminho que pode viabilizar o uso das imagens de ultrassonografia com contraste para as mamas. A nova técnica, denominada de Dynamic Contrast Specific Ultrasound Tomography (DCS-UST), consiste em medir os harmônicos produzidos pela vibração das microbolhas devido à aplicação do ultrassom. Estas vibrações podem ter a frequência do ultrassom, primeiro harmônico, ou múltiplos desta frequência, como o segundo harmônico que tem o dobro da frequência. O que os pesquisadores descobriram, para o agente de contraste estudado, é que o segundo harmônico sofre um atraso que é proporcional à quantidade de microbolhas que o som encontra no seu percurso. Assim, pela medida do atraso do segundo harmônico, é possível detectar e quantificar o contraste e, assim, analisar a vascularização da região. A grande vantagem desta técnica é que a alteração medida, no caso o atraso no segundo harmônico, não ocorre para os harmônicos gerados pelos tecidos mamários, sendo menos susceptível a distorções nas imagens. Esta técnica tem sido testada para medidas de propagações em linha reta e é, portanto, útil para órgãos maiores que possam ser acessados por dois lados, como as mamas. Contudo, os estudos ainda são muito preliminares e a aplicabilidade da técnica precisa ser melhor comprovada em estudos pré-clínicos.

Embora os resultados sejam promissores, parece que ainda conviveremos, pelo menos, mais uma década com os “apertos” da mamografia. E não há dúvidas que a detecção precoce é fundamental para um bom prognóstico e que a mamografia, cada vez mais aperfeiçoada, tem contribuído para a redução da mortalidade associada a este tipo de câncer. Assim, ao mesmo tempo que sonhamos com dias sem mamografia, não podemos ainda abrir mão deste grande aliado. [4]

[1] Crédito da imagem:  MesserWoland (Wikimedia Commons) / Creative Commons. URL: https://en.wikipedia.org/wiki/Pink_ribbon#/media/File:Pink_ribbon.svg.

[2] X Ma et al. Diagnostic Value of Contrast-Enhanced Sonography for Differentiation of Breast Lesions: A Meta-analysis. J Ultrasound Med 35, 2095 (2016).

[3] L Demi et al. Towards Dynamic Contrast Specific Ultrasound Tomography. Scientific Reports 6, 34458 (2016).

[4] Artigo relacionado: Ana Maia. Detecção mais eficiente de câncer de mama. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2015/11/deteccao-mais-eficiente-de-cancer-de-mama/. Publicado em 16 de novembro (2016).

Como citar este artigo: Ana Maia. Será que a mamografia está com os dias contados? Saense. URL: http://www.saense.com.br/2016/11/sera-que-a-mamografia-esta-com-os-dias-contados/. Publicado em 21 de novembro (2016).

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Doutora em Tecnologia Nuclear. Professora da Universidade Federal de Sergipe. Escreve sobre Física Médica e Tecnologia Nuclear no Saense.

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