A inteligência do palavrão

Claudio Macedo
14/02/2017

[1]
Pesquisadores testaram a hipótese de que o uso frequente de palavrões é devido à falta de vocabulário do falante, isto é, o indivíduo que usa muitos palavrões é iletrado. No trabalho, os autores testaram também uma hipótese alternativa: que fluência é fluência; independentemente do assunto, ter um maior vocabulário facilita o acesso a qualquer palavra no momento da fala [2].

A pesquisa envolveu 218 estudantes universitários voluntários que foram testados quanto à fluência verbal geral e à fluência em palavrões. Consistentemente, as pontuações obtidas pelos participantes de ambos os testes foram positivamente correlacionadas: maior pontuação no teste de fluência verbal geral, também maior pontuação no teste de fluência em palavrões; menor pontuação no teste de fluência verbal geral, também menor pontuação no teste de fluência em palavrões.

A fluência verbal geral foi testada pedindo que o voluntário listasse o máximo de palavras começando com uma determinada letra do alfabeto em 1 minuto. O teste foi repetido com o uso de diferentes letras. Pessoas com maiores habilidades de linguagem geralmente pensam em mais exemplos no tempo alocado. O teste de fluência em palavrões foi análogo. O voluntário teve que listar o máximo de palavrões diferentes que pode pensar em 1 minuto.

O que a pesquisa mostra é que há muito mais significado no uso de palavrões do que simplesmente causar ofensas, ou uma falta de vocabulário. A linguagem é um conjunto sofisticado de ferramentas, e palavrão é uma parte dela. Muitas das palavras finais de pilotos mortos em acidentes aéreos capturadas no gravador de voo (caixa preta) são palavrões. Isso enfatiza um ponto crucial, que palavrão deve ser importante, dada a sua proeminência em questões de vida e morte [3].

O fato é que o tamanho de seu vocabulário de palavrões está ligado ao seu vocabulário geral, e o palavrão está inextricavelmente ligado à expressão de sentimentos e emoções.

[1] Crédito da imagem: Threeboy from Richmond, Canada (Jay & Trey Cartoon Swearing) [CC BY 2.0], via Wikimedia Commons. URL: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Jay_%26_Trey_Cartoon_Swearing.jpg.

[2] KL Jay and TB Jay. Taboo word fluency and knowledge of slurs and general pejoratives: deconstructing the poverty-of-vocabulary myth. Language Sciences 52, 251 (2015).

[3] R Stephens. Think swearing isn’t big or clever? Think again. The Conversation. URL: https://theconversation.com/think-swearing-isnt-big-or-clever-think-again-71043. Publicado em 01 de fevereiro (2017).

Como citar este artigo: Claudio Macedo. A inteligência do palavrão. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/02/a-inteligencia-do-palavrao/. Publicado em 14 de fevereiro (2017).

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Claudio Macedo

Doutor em Física. Divulgador de Ciência. Professor da Universidade Federal de Sergipe (1976-2016).
Escreve sobre Temas Variados da Ciência no Saense.

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