O DNA não tem superpoderes… E a teoria da evolução não explica a origem da vida! (Desconstruindo conhecimento, parte 2)

Tábata Bergonci
22/02/2017

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É difícil pensar em evolução sem ligá-la instintivamente ao DNA. Afinal, ele é a molécula da hereditariedade, que permite que toda a informação vital seja armazenada e passada para as demais gerações. São mudanças nas sequências de DNA que podem dar origem a novas espécies através da seleção natural. Tamanha importância nos faz extrapolar a importância do DNA e da teoria evolutiva para explicarmos a origem da vida. Mas essa extrapolação tem pelo menos dois erros: o primeiro excede o significado da teoria da evolução e o segundo, novamente, atribui ao DNA créditos que ele não merece.

Primeiramente, a teoria da evolução não explica a origem da vida. A vida começou antes da evolução dos organismos e alguns de seus componentes fundamentais (como proteínas, energia e células) emergiram muito antes do DNA se tornar a molécula da hereditariedade. Portanto, é necessário separar a origem da vida da manutenção dela. Em segundo lugar, as células e metabolismo surgiram graças às propriedades de auto-organização dos sistemas complexos. O surgimento do DNA acelerou a evolução e colaborou com os complexos já existentes, ajudando a formar novos. Podemos concluir que a capacidade de auto-organização dos componentes biológicos é o principal componente explicativo para a vida.

A montagem de proteínas pode exemplificar a importância da auto-organização em sistemas biológicos. O DNA codifica a sequência de aminoácidos que forma proteínas, mas estas precisam assumir uma estrutura tridimensional para exercerem sua função celular. A montagem correta de uma proteína depende de múltiplos fatores, como temperatura, íons, pH e energia. A vida depende de inúmeras variáveis e o DNA é apenas uma peça no quebra-cabeça. Tivemos uma prova disso quando o genoma humano foi sequenciado. O sequenciamento que prometia esclarecer o sentido da vida e solucionar grandes problemas da medicina resultou em frustração. Descobrimos que saber toda a sequência de DNA de um organismo não nos faz avançar cientificamente por si só, é necessário saber o que essas sequências fazem. De fato, o determinismo genético (que diz que os genes determinam todos os fenótipos) começou a dar espaço à biologia de sistemas a partir desse ponto.

A mais recente teoria que tenta explicar a manutenção da vida em um mundo pré-DNA pode ser chamada de teoria do “mundo de peptídeo-RNA”, substituindo a teoria do “mundo de RNA” [2]. A evidência que corrobora essa teoria envolve a enzima aminoacil-tRNA sintetase, responsável por anexar o aminoácido correto ao RNA transportador, o qual transporta os aminoácidos no processo de síntese proteica. Essa enzima existe em duas formas que desempenham a mesma função, porém, possuem estruturas muito diferentes. A exceção está nos aminoácidos que compõem o centro catalítico (local aonde os compostos se ligam na enzima para que a reação ocorra) dessas enzimas, que podem ser derivados de fitas opostas da mesma molécula de RNA. Em outras palavras, as duas proteínas que permitem ao RNA construir todas as proteínas são derivadas de fitas opostas de uma única molécula primitiva de RNA [2].

Essa teoria liga intimamente a replicação ao metabolismo nos primórdios da origem da vida. O RNA montou proteínas primitivas e estas guiaram o aumento do metabolismo. A teoria do mundo de peptídeo-RNA substitui o mundo de RNA, que é uma teoria de replicação, por uma teoria de metabolismo, onde o RNA aumenta um metabolismo que o precede.

[1] Crédito da imagem: allispossible (Flickr) / Creative Commons (CC BY 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/wheatfields/2074121298/.

[2] MM Waldrop. Did life really start out in an RNA world? Science 246, 1248 (1989).

Como citar este artigo: Tábata Bergonci. O DNA não tem superpoderes… E a teoria da evolução não explica a origem da vida! (Desconstruindo conhecimento, parte 2). Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/02/o-dna-nao-tem-superpoderes-e-a-teoria-da-evolucao-nao-explica-a-origem-da-vida-desconstruindo-conhecimento-parte-2/. Publicado em 22 de fevereiro (2017).

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Tábata Bergonci

Doutora em Genética e Melhoramento de Plantas. Pós-doutoranda na Universidade Federal de São Paulo. Escreve sobre Genética no Saense.

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