O impacto do câncer entre crianças e adolescentes no mundo

Carlos Anselmo Lima
20/04/2017

“The Longest Journey”, pintura criada para “Rally on the Runway” para levantar fundos para a pesquisa sobre o câncer na infância. [1]
Embora de ocorrência rara, crianças e adolescentes são acometidos por câncer. Quando ele acontece, causa grande transtorno físico e psicológico no seio familiar, com implicação na sociedade. Frequentemente, a causa do desenvolvimento dos tumores malignos na infância permanece obscura, desde mutações genéticas que ocorrem cedo na vida, até mesmo intrauterinamente; ou mesmo, em menor parcela, através de alterações herdadas.

Essas neoplasias representam, nos países desenvolvidos, menos de 1% dos diagnósticos de câncer conferidos a cada ano, chegado a cerca de 2 % nos países em desenvolvimento, mas representam uma grande carga da mortalidade nessas faixas etárias. O ponto positivo é que os tratamentos atuais produzem bom efeito na taxa de cura, atingindo 80% de sobrevida de cinco anos. É preciso, no entanto, que os meios de tratamento modernos estejam disponíveis para todas as regiões do globo e que as condições de saúde e de diagnóstico precoce das populações se tornem equitativas.

Para entender o tamanho do problema, pesquisadores da Agencia Internacional para a Pesquisa do Cancer (IARC) em colaboração com a Associação Internacional de Registros de Câncer coordenaram um estudo de incidência de câncer em indivíduos de 0 a 19 anos [2] com a participação de 153 Registros de Câncer de 62 países, inclusive o Registro de Câncer de Base Populacional de Aracaju. Diferente de outros estudos semelhantes realizados no passado [3,4] pela primeira vez, a faixa etária de 15 a 19 anos foi inserida.

O estudo incluiu todos os casos novos de câncer diagnosticados em indivíduos da faixa etária no período determinado para o estudo. Em seguida, após trabalho laborioso de verificação da qualidade dos dados, permanecendo os registros com qualidade adequada para a análise satisfatória, procederam-se os cálculos das taxas de incidência, ajustadas por idade, pela população mundial. Os dados foram então distribuídos por 19 áreas geográficas e distribuídos por sexo, faixa etária e tipo de câncer.

Os resultados foram obtidos a partir da análise de 385.509 casos, sendo 284.649 na faixa etária dos 0-14 anos e 100.860 na dos 15-19 anos. A análise dos dados revelou taxa de incidência, padronizada pela população mundial de 140,6/1.000.000 de indivíduos na primeira faixa etária, onde os principais tipos de câncer foram as leucemias, os tumores do sistema nervoso central e os linfomas (46,4, 28,2 e 15,2/1.000.000 respectivamente); e de 185,3/1.000.000 de indivíduos na segunda, tendo como principais tipos os linfomas e o chamado grupo dos tumores epiteliais e melanoma (41,8 e 39,5/1.000.000 respectivamente).

Quanto ao sexo, os meninos apresentaram números um pouco maiores. Na faixa etária de 0-14 anos foram 156.721 casos para eles (151,4/1.000.000) e 127.917 para elas (129,4/1.000.000); dos 15-19 anos, o número foi de 169.531 para eles (163,2/1.000.000) e 141.695 para elas (143,6/1.000.000).

Considerando a faixa etária 0-14 anos, houve aumento da incidência desde 1980 de 124,0/1.000.000 para 140.6/1.000.000. Os dados de incidência apresentaram variações geográficas, por tipo de câncer, sexo idade e grupos étnicos e raciais.

A importância desse estudo consiste na identificação dos padrões de incidência global do câncer em indivíduos de menos de 20 anos, fornecendo atualização para os dados publicados anteriormente. Dessa forma, é possível fazer comparações da ocorrência de câncer entre as diferentes regiões do globo. Sem dúvida, a partir desses dados, estudos subsequentes advirão, como aqueles de identificação de causas e também para a definição de políticas de saúde para, cada vez mais, melhorar o acesso aos tratamentos verdadeiramente eficazes.

[1] Crédito da imagem: Sarah Barr / Creative Commons (CC BY-SA 4.0). URL: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=47921500.

[2] E Steliarova-Foucher et al. International incidence of childhood cancer, 2001–10: a population-based registry study. Lancet Oncol 10.1016/S1470-2045(17)30186-9 (2017).

[3] LAG Ries et al. Cancer incidence and survival among children and adolescents: United States SEER Program 1975-1995. Cancer Incid Surviv among Child Adolesc United States SEER Progr 1975-1995 (1999). URL: https://www.cabdirect.org/cabdirect/abstract/20083240999.

[4] E Steliarova-Foucher et al. Quality, comparability and methods of analysis of data on childhood cancer in Europe (1978–1997): Report from the Automated Childhood Cancer Information System project. Eur J Cancer 42, 1915 (2006).

Como citar este artigo: Carlos Anselmo Lima. O impacto do câncer entre crianças e adolescentes no mundo. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/04/o-impacto-do-cancer-entre-criancas-e-adolescentes-no-mundo/. Publicado em 20 de abril (2017).

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Carlos Anselmo Lima

Carlos Anselmo Lima

Doutor em Ciências da Saúde. Cirurgião cancerologista do Hospital de Urgências de Sergipe e do Hospital Universitário / Universidade Federal de Sergipe. Coordenador do Registro de Câncer de Base Populacional de Aracaju. Escreve sobre Câncer no Saense.

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