Por que alguns animais são bons pais, mas outros são ruins?

Matheus Macedo-Lima
27/04/2017

Fêmea de Peromyscus maniculatus amamentando filhotes. [1]
A natureza é linda. “Mas como achar a natureza linda sabendo que alguns animais abandonam seus filhotes assim que eles nascem?! Que coisa horrível!”. Bem… minha resposta seria algo como “quem somos nós para julgar um processo que foi aperfeiçoado pela evolução durante centenas de milhares de anos?” A evolução por seleção natural nos ensina que devemos sempre formular hipóteses sobre como características garantem benefícios às espécies.

Após formular, devemos testar essas hipóteses.

Existem duas espécies evolutivamente bem próximas de camundongos selvagens estadunidenses, Peromyscus polionotus e Peromyscus maniculatus. A primeira é monogâmica e cuida bem dos filhotes, enquanto a segunda é promíscua (múltiplos parceiros) e com baixo cuidado parental. Pelo fato de serem tão próximas (mesmo gênero) e com comportamentos tão distintos, essas espécies são um “prato cheio” para o estudo do comportamento parental. Um grupo de cientistas da Universidade de Harvard reconheceu isso e estudou o comportamento e a genética dessas espécies, publicando seus resultados na revista Nature [2].

Primeiramente, os pesquisadores analisaram detalhadamente os comportamentos dos animais após terem filhotes. Bons pais-camundongos constroem ninhos bonitos, lambem, protegem e organizam os filhotes no ninho. Medindo esses comportamentos, confirmou-se que ambos machos e fêmeas de P. polionotus são ótimos pais em comparação com P. maniculatus. Foi possível observar algumas diferenças entre os sexos também. Por exemplo, fêmeas nas duas espécies organizam os filhotes no ninho mais eficientemente do que os machos.

Em seguida, os pesquisadores abordaram a primeira pergunta: será que esses comportamentos são aprendidos ou herdados? Para responder essa pergunta os cientistas simplesmente trocaram filhotes entre os ninhos das duas espécies, esperaram-nos crescer e reproduzir, e quantificaram os comportamentos desses indivíduos quando eles tinham filhotes. A resposta foi clara: filhotes de P. polionotus continuaram sendo bons pais, mesmo sendo criados pela outra espécie, enquanto os filhotes de P. maniculatus continuaram sendo pais ruins. Ou seja, o cuidado parental nessas espécies é herdado e tem um componente genético.

Para identificar quais genes estariam envolvidos nesses comportamentos, os pesquisadores deixaram animais das duas espécies cruzarem, gerando híbridos, e então intercruzaram os híbridos. Assim, conseguiu-se organismos com uma grande “mistureba” entre o DNA das duas espécies. O comportamento parental apresentado por esses indivíduos foi também uma bagunça! Alguns eram ótimos pais, outros péssimos pais e outros eram “sabores” intermediários, o que indica que se conseguiu um gradiente comportamental.

Analisando detalhadamente o DNA desses indivíduos e relacionando os genes com os comportamentos parentais, os cientistas identificaram algumas áreas dos cromossomos que variavam em sintonia com os comportamentos. O mais impressionante: genes diferentes entre machos e fêmeas podem afetar um mesmo comportamento! Isso significa que uma mutação em um determinado gene pode afetar comportamentos parentais em apenas um sexo, o que pode explicar por que em algumas espécies um dos sexos cuida melhor dos filhotes (geralmente fêmeas).

Em resumo, esse estudo sugere que o cuidado parental tem um forte componente genético e este, por sua vez, é composto por diferentes genes entre machos e fêmeas. Esse achado inspira novas possibilidades de estudo de comportamentos complexos e sua evolução, uma vez que agora sabemos que genes podem ter efeitos comportamentais específicos, dependendo do sexo.

Quem diria que camundongos selvagens contribuiriam tanto para o nosso conhecimento sobre a natureza, não é? A natureza é linda mesmo…

[1] Crédito da imagem: Don Loarie (Flickr) / Creative Commons (CC BY 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/loarie/32376907642/.

[2] A Bendesky et al. The genetic basis of parental care evolution in monogamous mice. Nature 544, 434 (2017).

Como citar este artigo: Matheus Macedo-Lima. Por que alguns animais são bons pais, mas outros são ruins? Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/04/por-que-alguns-animais-sao-bons-pais-mas-outros-sao-ruins/. Publicado em 27 de abril (2017).

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Matheus Macedo-Lima

Doutorando em Neuroscience and Behavior na University of Massachusetts Amherst (USA). Escreve sobre Neurociência no Saense.

4 comentários sobre “Por que alguns animais são bons pais, mas outros são ruins?”

  1. Olha olha, vamos fazer uma terapia genica para ver se alguns pais humanos cuidam melhor dos seus filhos? Kkk
    Bincadeiras a parte, excelente trabalho e ótimo texto!
    Parabéns!

    1. É bem possível que sim. Ainda não sabemos muito sobre a genética, mas há evidências evolutivas (e empíricas) de que o cuidado parental foi selecionado mais fortemente em fêmeas de primatas. Em machos, por outro lado a evolução tem favorecido a competição por recursos (incluindo fêmeas).

      Resta torcer para que a sociedade humana moderna favoreça a igualdade!

      Obrigado pelo comentário!

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