Disparidades no tratamento das leucemias em crianças: a sobrevivência como ferramenta de análise

Carlos Anselmo Lima
14/05/2017

Rosy Periwinkle (Catharanthus roseus) ou vinca rosea, nativa de Madagascar e muito encontrada na India; da flor, a vincristina e a vimblastina são agentes quimioterápicos usados no tratamento das leucemias de crianças. [1]
Por certo você já ouviu falar sobre leucemia! No entanto, o verdadeiro significado dessa doença nem sempre é bem compreendido. Trata-se de um tipo de câncer; ou melhor um grupo de doenças malignas que frequentemente começa na medula óssea (localizada no interior dos ossos e local de origem das células do sangue). Sim, é um tipo de câncer do sangue, caracterizado por anormalidades nos glóbulos brancos que se tornam numerosos e produzem diversos sintomas e sinais maléficos ao organismo, e pode conduzir inexoravelmente à morte. A causa é geralmente desconhecida, embora fatores herdados ou ambientais possam ser suspeitados, entre eles o tabagismo, radiações, benzeno, síndrome de Down, etc. [2].

O tratamento deve ser de pronto. Como envolve principalmente combinação de vários agentes quimioterápicos, radioterapia e transplante de medula óssea por longo período, diversos efeitos colaterais advirão, tornando-o doloroso e muito dispendioso.

Depois de tudo isso, virá a pergunta se o tratamento será eficaz. Depende da idade do paciente. Os melhores resultados são relatados em crianças de menos de 15 anos. A literatura relata trabalhos com taxas de cura de até 85% nas áreas mais desenvolvidas do globo. Como foi verificado pelo estudo de incidência por Steliarova-Fouchet et al. [3], as leucemias são os tipos de câncer mais frequentes nessa faixa etária.

A avaliação da possibilidade de cura é melhor medida pela análise da sobrevida. Essa, por sua vez, significa a probabilidade do paciente continuar vivo no tempo futuro após o diagnóstico da doença.

Pesquisadores do Cancer Survival Group da London School of Hygiene and Tropical Medicine (LSHTM) desenvolveram um estudo (CONCORD-3) [4] de análise de sobrevida das leucemias em crianças de menos de 15 anos, em associação com outros pesquisadores do mundo inteiro, componentes do CONCORD Working Group. O objetivo da pesquisa foi examinar a tendência mundial de sobrevida por alguns tipos de leucemias mais frequentes e verificar se havia disparidade entre as diversas regiões do mundo.

A metodologia da pesquisa foi definida para incluir dados dos Registros de Câncer mundiais de boa qualidade, os quais participaram de estudo prévio, o CONCORD-2 (O Registro de Câncer de Aracaju participou da pesquisa). A análise dos dados foi realizada naquela universidade de Londres. Embora com financiamento externo, os provedores não tomaram parte na coleta, nem na análise dos dados.

A análise foi realizada a partir dos dados de 89.828 crianças portadoras de leucemia de 53 países e fornece a maior e mais completa análise de sobrevida da leucemia infantil de base populacional; o estudo analisou as tendências de um período de 15 anos e englobou todas as regiões com diferentes padrões de desenvolvimento pessoal e econômico.

Os resultados mostram que a sobrevida para os tipos mais frequentes de leucemia, a linfoblástica aguda e a mieloide aguda melhorou na maioria dos países, inclusive nos de baixa renda. Entretanto, algumas diferenças ainda puderam ser vistas, como taxas mais altas em áreas mais desenvolvidas, com tendência a disparidades, principalmente econômicas, mais também, por diferentes resultados a depender da idade do indivíduo. As crianças das faixas de 0-4 e 5-9 anos de idade apresentaram as melhores taxas de sobrevida e as de menos de um ano, as piores; não houve diferença quanto ao sexo.

Como análise final, verificou-se que as diferenças globais de sobrevida das leucemias infantis diminuíram ao longo do tempo, mas ainda permaneceram altas para as leucemias agudas.

A análise dos resultados tem um papel muito importante para que os desenvolvedores de políticas de saúde empreendam ações eficazes para diminuir as diferenças de sobrevida desse tipo de câncer que muito acomete nossas crianças.

[1] Crédito da imagem: Ulhaspa (Wikimedia Commons) / Creative Commons (CC BY 3.0). URL: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Rosy_periwinkle.jpg?uselang=pt-br.

[2] LG Spector et al. Genetic and Nongenetic Risk Factors for Childhood Cancer. Pediatr Clin North Am 62, 11 (2015).

[3] E Steliarova-Foucher et al. International incidence of childhood cancer, 2001–10: a population-based registry study. Lancet Oncol 10.1016/S1470-2045(17)30186-9 (2017).

[4] A Bonaventure et al. Worldwide comparison of survival from childhood leukaemia for 1995-2009, by subtype, age, and sex (CONCORD-2): a population-based study of individual data for 89 828 children from 198 registries in 53 countries. Lancet Haematol 4, 202 (2017).

Como citar este artigo: Carlos Anselmo Lima. Disparidades no tratamento das leucemias em crianças: a sobrevivência como ferramenta de análise. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/05/disparidades-no-tratamento-das-leucemias-em-criancas-a-sobrevivencia-como-ferramenta-de-analise/. Publicado em 14 de maio (2017).

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Carlos Anselmo Lima

Doutor em Ciências da Saúde. Cirurgião cancerologista do Hospital de Urgências de Sergipe e do Hospital Universitário / Universidade Federal de Sergipe. Coordenador do Registro de Câncer de Base Populacional de Aracaju. Escreve sobre Câncer no Saense.

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