Terapia gênica: CRISPR-Cas9 e a descoberta de um grande efeito colateral

Tábata Bergonci
31/05/2017

[1]
CRISPR-Cas9, a tecnologia de edição de genes mais comentada atualmente pelos cientistas e simpatizantes, acaba de apresentar seu primeiro problema: ela não é perfeita! Como em todas as técnicas na ciência, sempre existe o ponto negativo, mas ainda não havíamos nos deparado com estes na CRISPR-Cas9.

A técnica que, em teoria, edita com extrema precisão apenas o gene de interesse dá esperança para que a terapia gênica possa deletar ou reparar genes problemáticos, também podendo adicionar genes de interesse no genoma. Na China, já existe uma clínica que usa CRISPR-Cas9 em humanos e nos Estados Unidos, a primeira clínica está prevista para começar a funcionar no próximo ano.

Mas mesmo com a precisão para editar partes específicas do DNA, parece que, às vezes, essa técnica acaba alterando outras partes do genoma. Alguns pesquisadores estão trabalhando na detecção dessas mutações não programadas. Eles utilizam algoritmos computacionais que identificam áreas com mais probabilidade de serem afetadas e, então, examinam essas regiões à procura de deleções e inserções. Esses algoritmos conseguem prever muito bem as regiões de genomas em células e tecidos de laboratório, mas não em todo o genoma animal.

Em um novo estudo, cientistas da Universidade de Iowa e da Universidade de Columbia sequenciaram o genoma de um camundongo que havia sido submetido a CRISPR-Cas9 e procuraram todas as mutações [2]. A técnica havia corrigido com sucesso um gene que causa cegueira, mas também havia causado mais de 1500 substituições de nucleotídeos e mais de 100 deleções e inserções grandes no genoma. Nenhuma dessas mutações foram preditas pelo algoritmo. A conclusão? A cada vez que CRISPR-Cas9 for usada, será necessário sequenciar o genoma inteiro para encontrar as mutações não desejadas. Como toda terapia, essa também tem efeito colateral.

Atualmente, muitos laboratórios estão trabalhando na melhoria da técnica, modificando a enzima responsável pelo corte no DNA ou alterando o RNA que guia essa enzima para o gene certo. Por enquanto será necessário cuidado no uso de CRISPR-Cas9 na terapia gênica, já que, dependendo de onde acontecerem, mutações podem causar sérios problemas.

[1] Crédito da imagem: DennisM2 (Flickr) / Creative Commons CC0. URL: https://www.flickr.com/photos/dennism2/32184365654/.

[2] ZN Rogers et al. A quantitative and multiplexed approach to uncover the fitness landscape of tumor suppression in vivo. Nature Methods 10.1038/nmeth.4297 (2017).

Como citar este artigo: Tábata Bergonci. Terapia gênica: CRISPR-Cas9 e a descoberta de um grande efeito colateral. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/05/terapia-genica-crispr-cas9-e-a-descoberta-de-um-grande-efeito-colateral/. Publicado em 31 de maio (2017).

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Tábata Bergonci

Doutora em Genética e Melhoramento de Plantas. Pós-doutoranda na Universidade Federal de São Paulo. Escreve sobre Genética no Saense.

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