Por que você está vermelho? A cor do nosso rosto e a evolução da visão

Matheus Macedo-Lima
21/06/2017

O vermelho na face de fêmeas de macacos Rhesus indica fertilidade. Nossa visão pode ter evoluído para captar esse tipo de sinal. [1]
Já percebeu o quão fantástico é o olho humano? Uma pessoa comum consegue diferenciar cerca de um milhão de cores e tonalidades diferentes. Sem falar no quão complexa é a musculatura dos olhos para a regulação da entrada de luz pela pupila, para a leitura ou para acompanhar uma partida de tênis-de-mesa.

No nosso olho, a luz é percebida por dois tipos principais de células na retina – cones e bastonetes. Os cones são especializados em identificar a frequência da luz, que determina as cores. Os bastonetes não são tão bons em diferenciar cores, mas são bastante sensíveis à luz, o que nos permite enxergar em baixa luminosidade.

O que determina a quantidade de cores que conseguimos enxergar é a diversidade de cones existentes na retina. Num humano comum, existem três tipos de cones (visão tricromática): um mais sensível ao azul, e outros dois sensíveis ao verde-amarelo-vermelho. Combinei-os assim porque a sensibilidade desses cones é bastante redundante. Em outras palavras, eles respondem às mesmas cores com intensidades semelhantes, exceto quando há bastante verde ou bastante vermelho.

Curiosidade 1: um dos tipos mais comuns de daltonismo envolve a baixa funcionalidade de um desses dois cones redundantes. Por isso, diferenciar tons de verde-amarelo-vermelho vira um desafio.

Curiosidade 2: em outros animais, os números e as propriedades dos cones podem ser diferentes. Há animais com apenas dois cones (visão dicromática; seu cãozinho se enquadra aqui). Há alguns pássaros, peixes e até alguns poucos humanos com quatro cones (tetracromática), que podem enxergar até tons de ultravioleta. “E o meu gatinho?” Ele possui três cones, como nós, mas possui menor quantidade deles na retina, o que reduz a precisão da visão em cores. Lembre-se, seu gato evoluiu para ser noturno. A visão dele é muito melhor que a sua no escuro.

Mas não parece meio “burro” termos cones redundantes? Isso limita a quantidade de cores que conseguimos enxergar (apesar de sermos ótimos no quesito verde-vermelho). Por isso, cientistas têm tentado entender porque (ou como) os olhos de alguns primatas se tornaram tão especializados nessas cores.

Um grupo de pesquisadores resolveu explorar a seguinte hipótese: será que a visão desses primatas, tão especializada no espectro verde-vermelho, evoluiu para identificar com precisão as cores de partes do corpo [2]? Essa ideia surgiu da observação de que primatas com partes “peladas” no corpo (como humanos, babuínos e macacos Rhesus) possuem três cones, dois deles com detecção redundante. Como essas partes do corpo podem mudar de cor (por mudanças na irrigação sanguínea ou doenças), pode ser que nossos olhos tenham evoluído para identificar essas alterações.

Eles testaram essa hipótese da seguinte maneira: fêmeas de macacos Rhesus adquirem uma cor mais avermelhada na pele da face quando estão férteis e sabe-se que os machos observam esse fator. Os cientistas decidiram testar se humanos (de ambos os sexos) também conseguem perceber a diferença entre faces de macacas quando estão férteis ou inférteis. Os cientistas manipularam as cores das imagens para simular os tipos de visão presentes em outros animais ou em indivíduos daltônicos (Figura), dividiram os participantes nos diferentes grupos e os expuseram a uma bateria de treinos e testes com 32 pares de faces. Um detalhe importante é que os participantes só foram instruídos que deveriam decidir qual das faces era fértil, e nada mais.

Os resultados confirmaram a hipótese do estudo. Os participantes testados com as imagens com esquema de cores semelhante ao da visão de primatas e humanos tiveram um desempenho muito superior aos demais e conseguiram aprender por instinto que a vermelhidão da face das macacas era o que garantia uma resposta correta.

Isso sugere que a visão tricromática redundante de primatas pode ter evoluído para identificar “sinais sociais” no corpo. Mesmo observando uma outra espécie, humanos são instintivamente sintonizados para detectar esses sinais.

Será que esse tipo de habilidade é útil na nossa sociedade? Considere o quão fácil é perceber quando alguém está com raiva ou envergonhado (geralmente com o rosto ou orelhas vermelhas). Ou talvez quando alguém está pálido por conta de alguma doença… faz sentido, não é?

PS:

Por conta da complexidade dos olhos, alguns desafiadores da Teoria da Evolução adoram sugerir que nada tão “perfeito” poderia ter sido criado por obra do acaso. Sobre esse assunto, Charles Darwin admite n’A Origem das Espécies (por sinal, votada a obra acadêmica mais influente da humanidade [3]), que imaginar a evolução do olho parece “absurdo no mais altíssimo grau”. Porém, Darwin delibera que se utilizarmos a razão e observarmos a variedade dos tipos de olhos existentes na natureza e os quão apropriados para as condições de vida dos indivíduos que os possuem, entre outros fatores, podemos concluir que:

A dificuldade de acreditar que um olho perfeito e complexo pudera ser formado por seleção natural, apesar de impossível de imaginar, não pode ser considerada como uma discordância da Teoria” (tradução livre de [4]).

[1] Crédito da imagem: Dana Le (Flickr) / Creative Commons (CC BY 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/danale9/5388386235/.

[2] C Hiramatsu et al. Experimental evidence that primate trichromacy is well suited for detecting primate social colour signals. Proc R Soc B 284, 20162458 (2017).

[3] Academic Book Week. On the Origin of Species by Charles Darwin voted as most influential. URL: https://acbookweek.com/20abcworld/.

[4] C Darwin. The Origin of Species. John Murray (1872).

Como citar este artigo: Matheus Macedo-Lima. Por que você está vermelho? A cor do nosso rosto e a evolução da visão. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/06/por-que-voce-esta-vermelho-a-cor-do-nosso-rosto-e-a-evolucao-da-visao/. Publicado em 21 de junho (2017).

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Matheus Macedo-Lima

Doutorando em Neuroscience and Behavior na University of Massachusetts Amherst (USA). Escreve sobre Neurociência no Saense.

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