Seu gato é temperamental? A genética explica!

Tábata Bergonci
30/06/2017

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Centenas de anos antes dos gatos dominarem a internet, eles começaram o que muitos acreditam ser um plano de dominação mundial. Teoria da conspiração? Não sabemos, mas a verdade é que gatos têm sido importantes nas sociedades humanas há muito tempo. Sua relação com os homens começa quando estes foram percebidos como bons caçadores de ratos, evitando doenças e perdas econômicas nas sociedades antigas. Depois, passaram a ser considerados também bons companheiros.

O gato doméstico está presente em todos os continentes, menos na Antártica, e seu sucesso evolucionário é inquestionável. Pouco se sabe sobre o processo de domesticação desses felinos e como sua dispersão pelo planeta ocorreu. Gatos selvagens (Felis silvestris) também estavam distribuídos por todo o globo terrestre no velho mundo. A taxonomia os dividia em cinco subespécies, sendo que apenas uma foi domesticada, Felis silvestris lybica, que habitava o norte da África e o sudoeste asiático [2].

Gatos selvagens são solitários, caçadores territorialistas e não possuem hierarquia social estruturada, características que não os tornam bons candidatos a domesticação. Mesmo assim, evidências zooarqueológicas mostram que o relacionamento entre gatos e humanos existia muito antes de humanos exercerem influências substanciais no melhoramento da espécie. Por exemplo, foi encontrado na Ásia um esqueleto completo de um gato ao lado de um esqueleto humano, datados de 7500 anos antes da era Cristã.

Ao longo dos séculos, felinos que mantinham relação mais próxima da domesticada cruzaram com as subespécies selvagens. Essa troca genética regular pode ter contribuído para o baixo nível de diferenciação observado entre os genomas do gato selvagem moderno e do domesticado [3]. Assim, o processo de domesticação dos gatos não alterou profundamente a morfologia, fisiologia, ecologia e comportamento da espécie, em contraste com o que é observado, por exemplo, em cachorros (pense na diferença dos nossos amigos caninos e de seus parentes mais próximos, os lobos).

Em um novo estudo publicado na revista Nature Ecology & Evolution esse mês, pesquisadores analisaram sequencias genômicas de gatos modernos e antigos da Europa, norte e leste africano e sudoeste asiático, datados de 9000 anos atrás até os dias atuais. Análises de DNA mitocondrial revelaram que os gatos domésticos vieram de duas origens diferentes: egípcia e do sudoeste asiático.

No Egito Antigo, gatos eram adorados e mumificados como os humanos. Essa tradição se espalhou para a cultura Greco-Romana e por todo o mediterrâneo. A dispersão dos gatos do Egito para a Europa ocorreu rapidamente porque, além dos motivos religiosos, estes também eram úteis em navios infestados de roedores. O sucesso do gato egípcio no passado estava atrelado ao comportamento, sendo estes mais sociáveis e mansos que os gatos selvagens encontrados na Europa.

Durante a Idade Média, tanto gatos de origens egípcias quanto asiáticas passaram a serem utilizados em navios. A população de gatos então chega ao norte europeu trazida pelos vikings e, mais tarde, passa a ser encontrada nas Américas e Oceania. Hoje, a espécie Felis catus, nosso gato doméstico, existe em mais de 70 raças melhoradas pelos humanos. O estudo publicado confirma o que já se suspeitava:  gatos domésticos ainda cruzam com gatos selvagens na Europa. Por causa disso, intensivos programas de conservação têm sido implementados para preservar a integridade genética dos gatos selvagens europeus. Então, se seu gato tem hábitos que você julga nada domésticos, saiba que seu DNA explica bastante o porquê de nossos amigos felinos parecerem tão selvagens, às vezes.

[1] Crédito da imagem: Renars (Flickr) / Creative Commons (CC BY 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/renarl/3400468165/.

[2] DW Engels. Classical cats: The Rise and Fall of the Sacred Cat. Routledge (2001).

[3] MJ Motague et al. Comparative analysis of the domestic cat genome reveals genetic signatures underlying feline biology and domestication. PNAS 111, 17230 (2014).

[4] C Ottoni et al. The paleogenetics of cat dispersal in the ancient world.  Nature Ecology & Evolution 1, 0139 (2017).

Como citar este artigo: Tábata Bergonci. Seu gato é temperamental? A genética explica! Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/06/seu-gato-e-temperamental-a-genetica-explica/. Publicado em 30 de junho (2017).

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Tábata Bergonci

Doutora em Genética e Melhoramento de Plantas. Pós-doutoranda na Universidade Federal de São Paulo. Escreve sobre Genética no Saense.

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