Seleção de áreas para preservação: novas perspectivas para a Mata Atlântica brasileira a partir do estudo de anfíbios

Luana Mendonça
18/07/2017

[1]
Preservação e conservação dos habitats terrestres e aquáticos vem se tornando tão urgente quanto místico. Parece até que você está dizendo um palavrão quando fala de conservar a fauna e flora para algumas pessoas! Enfim, gostem ou não, esse é o tema desse texto.

O lance é que o Brasil é um dos maiores detentores de biodiversidade (VIDA) do mundo. Um país enorme com diversos biomas, ecossistemas e habitats que hospedam incontáveis espécies. Incontáveis mesmo, pois se supõe que na Amazônia exista uma imensidão de novas espécies para a ciência. Toda essa fauna e flora, maioria desconhecida, pode simplesmente deixar de existir sem que tenhamos a oportunidade de tirar uma foto e publicar no Instagram (péssima brincadeira).

Obviamente que a vida na terra é flutuante, espécies surgem, espécies se extinguem, fato! Porém, nós, seres humanos, estamos provocando mudanças (péssimas) no nosso planeta, talvez irreversíveis, que está adiantando o processo de extinção de inúmeras espécies (incluindo a nossa).

Mas vamos falar de soluções… A melhor solução seria preservar tudo, não tocar mais em nada e restaurar o máximo possível, mas nós todos sabemos que isso é praticamente impossível… Precisamos da natureza, vivemos dentro dela, passeamos por ela, nos alimentamos do que vem dela, e por aí vai. Então a opção é selecionar algumas áreas, preservá-las e restaurá-las. Mas aí vem a grande questão: Como selecionar áreas para preservação? Provavelmente cada pessoa escolheria áreas diferentes por motivos diferentes, então como resolver essa questão?

Vejam, pesquisadores e diversas fundações e ONGs tentam resolver essa questão e proteger áreas em vários locais do Brasil. Mas qual o método que usaram para escolher essas áreas? Será que elas têm tamanho suficiente? E o mais importante, será que as áreas escolhidas são as mais prioritárias para preservação? São muitas as perguntas e todas elas caem no mesmo barreira que é o custo. Quanto custa proteger uma área? Quanto custa reflorestar? Para quê investir em uma área que ‘não será utilizada’?

Talvez uma resposta esteja no trabalho realizado por pesquisadores brasileiros e espanhóis publicado no mês passado [2]. Eles fizeram o que é chamado de modelagem, que é um método que tenta prever o que aconteceria ou como algo aconteceria utilizando os dados disponíveis atualmente. O que os pesquisadores fizeram foi o seguinte: utilizando os anfíbios como foco para a preservação (o Brasil possui a maior diversidade de anfíbios do mundo e boa parte das espécies do grupo são endêmicas, ou seja, exclusivas da Mata Atlântica brasileira), eles resgataram os dados disponíveis do número de espécies da Mata Atlântica (Diversidade taxonômica), os dados das funções que essas espécies desempenham no ecossistema (Diversidade funcional) e os dados da história filogenética dessas espécies (Diversidade filogenética, história evolutiva das espécies).

Todos os dados acima foram utilizados em conjunto (algo inédito nesse tipo de estudo preditivo) para mostrar quais os locais em que esses níveis de diversidade são maiores e indicar os locais prioritários para a conservação dos anfíbios na Mata Atlântica (lembrando que esse bioma foi o mais degradado na história do Brasil). Além de indicar os locais prioritários para conservar, os autores também fizeram a valoração dessas áreas (valoração dos serviços ecossistêmicos) utilizando o valor por quilômetro quadrado base de pouco mais de 13 mil dólares (valor referente ao que é geralmente obtido por donos de terras da Mata Atlântica no Brasil).

O resultado principal obtido pelo estudo pode ser visto na figura e tabela abaixo. O mapa na figura mostra três modelos de preservação para os anfíbios nos remanescentes de Mata Atlântica: o primeiro modelo, marcado em vermelho, mostra a área mais prioritária, quase urgente para a conservação do grupo; o segundo modelo, em laranja, mostra uma área muito prioritária, que também engloba a área do modelo 1; o terceiro modelo mostra uma área maior ainda de prioridade média. Obviamente esses modelos também indicam os locais onde os valores de diversidade (taxonômica, funcional e filogenética) foram maiores. A tabela mostra o tamanho efetivo da área dos modelos e os valores que seriam necessários para preservar cada uma das áreas.

[2]
[2]
Conseguimos perceber que a área mais prioritária para conservação não apenas é a menor, mas a com menor custo para preservar, e, o que os autores discutem é que o custo para preservar e reflorestar a área do modelo 1 é 0,02% do produto interno bruto brasileiro e a 24% do que os grandes agricultores da Mata Atlântica lucram por ano. Outro fato importantíssimo que pode ser observado no mapa é que praticamente todas as áreas prioritárias para preservação dos anfíbios (modelos 1, 2 e 3) estão fora das áreas protegidas no Brasil (em preto no mapa). Isso significa que esses animais, diversos e maioria endêmicos não estão sendo preservados e, junto com essa diversidade, também estão os serviços que esses animais prestam para a natureza, como polinização, devolução de nutrientes para o solo, controle de pragas, dentre outros.

Por fim, os autores deixam como recado a necessidade urgente da preservação dos remanescentes de Mata Atlântica no Brasil, e, para os anfíbios, essa necessidade é urgente. Se pensarmos em vários outros animais que vivem nos mesmos locais que os anfíbios, poderemos perceber que essa urgência é praticamente um clamor. Obviamente, a preservação está completamente atrelada às políticas públicas e só elas podem aumentar as áreas preservadas e criar novas áreas para preservação. Outra alternativa mencionada pelos autores seria incentivar, financeiramente, proprietários de terras dentro das áreas prioritárias a criar áreas particulares de preservação, e para os autores, o dinheiro utilizado para o incentivo deveria vir dos grandes agricultores que estão lucrando dentro da Mata Atlântica.

Meu desejo é que esse trabalho seja divulgado em todos os meios possíveis e que estudos similares utilizando outros grupos e outros biomas brasileiros mostrem outras urgências para a preservação da vida no nosso país. Enquanto isso vamos fazer nossa parte, mesmo que mínima, cuidem da natureza ao seu redor, respeitem todas as formas de vida, consumam apenas o necessário, cuidem do seu lixo, manifestem-se a favor da preservação, etc etc.

[1] Crédito da imagem: Adaptação de Luana Mendonça a partir da imagem de Shealah Craighead (Public domain, Wikimedia Commons). URL: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Donald_Trump_displays_the_signed_Executive_Order_promoting_Agriculture_and_Rural_Prosperity.jpg.

[2] FS Campos et al. Cost-effective conservation of amphibian ecology and evolution. Science Advances 3, e1602929 (2017).

Como citar este artigo: Luana Mendonça. Seleção de áreas para preservação: novas perspectivas para a Mata Atlântica brasileira a partir do estudo de anfíbios. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/07/selecao-de-areas-para-preservacao-novas-perspectivas-para-a-mata-atlantica-brasileira-a-partir-do-estudo-de-anfibios/. Publicado em 18 de julho (2017).

Artigos de Luana Mendonça     Home

Publicado por

Luana Mendonça

Luana Mendonça

Doutoranda em Zoologia na Universidade Federal do Paraná. Escreve sobre Zoologia e Ecologia no Saense.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *