Exercício como terapia complementar para o cérebro de sobreviventes de câncer

Matheus Macedo-Lima
28/09/2017

[1]
É bem estabelecido cientificamente que exercício físico moderado faz bem ao cérebro. Em roedores há maior produção de neurônios novos e melhora no aprendizado [2]; em humanos o exercício aumenta a capacidade de memorização [2]; (também escrito a respeito no Saense aqui). Ainda assim, uma pesquisa do Ministério do Esporte estima que cerca de 46% dos brasileiros são sedentários [4]. Isso é muita gente!

Existem muitas situações em nossas vidas em que o nosso cérebro começa a falhar. Idade avançada, trauma, doenças psiquiátricas ou medicamentos são exemplos dessas situações. Apesar de recomendada por médicos em alguns casos, a prática de exercícios ainda não parece ser considerada uma terapia complementar.

Em pacientes em tratamento de câncer, por exemplo, a função cerebral é claramente afetada pela quimioterapia. Isso é especialmente evidente em casos de tratamentos para redução da função de hormônios (estrógenos) em sobreviventes de câncer de mama [5]. Felizmente, um novo estudo sugere que há um tratamento complementar relativamente fácil e barato para o cérebro nessas pacientes. Com certeza você adivinhou corretamente: exercício moderado [6].

Os pesquisadores recrutaram sobreviventes de câncer de mama e as distribuíram aleatoriamente em dois grupos (exercício e controle). No grupo de exercício, as mulheres receberam medidores de atividade (Fitbit e actímetro) e durante 3 meses receberam instruções e constante motivação (telefonemas motivacionais e e-mails com informações sobre dieta e saúde; “terrorismo” amigável, em outras palavras) para encorajar o aumento da atividade aeróbica (caminhada, corrida, dança etc). O grupo controle apenas recebeu os e-mails sobre saúde, sem a parte do terrorismo. Diversos testes de capacidade cognitiva foram aplicados antes e após os tratamentos. O legal é que após o fim do estudo o grupo controle também recebeu a intervenção para realizar exercícios.

Os resultados mostram que as mulheres no grupo de exercício apresentaram um significante aumento na capacidade cerebral, especialmente no quesito de velocidade de processamento de informações. O efeito se tornou ainda mais evidente quando os cientistas analisaram separadamente as mulheres que passaram recentemente pela descoberta e tratamento do câncer (menos de 2 anos). Interessantemente, outros fatores como quimioterapia e tratamento hormonal não afetaram os efeitos do exercício, o que sugere que a intervenção é eficiente, independentemente dessas situações.

Esse estudo sugere que exercício moderado pode ser uma terapia complementar para a disfunção cognitiva advinda da descoberta e tratamento do câncer, principalmente durante os primeiros anos após a descoberta. Como as medicações não pareceram interferir nos resultados, esse efeito pode ser real em outros tipos de câncer (ou situações de declínio cognitivo). Portanto, recomendar – e cobrar – exercícios físicos pode ser de interesse médico para a melhora da qualidade de vida de pacientes, especialmente após a descoberta de um câncer.

[1] Crédito da imagem: USAG- Humphreys (Flickr) / Creative Commons (CC BY 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/usaghumphreys/8115523897/.

[2] H Van Praag et al. Exercise enhances learning and hippocampal neurogenesis in aged mice. J. Neurosci 25, 8680 (2005).

[3] EV van Dongen et al. Physical Exercise Performed Four Hours after Learning Improves Memory Retention and Increases Hippocampal Pattern Similarity during Retrieval. Curr Biol 26, 1722 (2016).

[4] A prática de esporte no Brasil. URL: http://www.esporte.gov.br/diesporte/2.html. Acesso em 26 de setembro (2017).

[5] JS Wefel et al. Acute and late onset cognitive dysfunction associated with chemotherapy in women with breast cancer. Cancer 116, 3348 (2010).

[6] SJ Hartman et al. Randomized controlled trial of increasing physical activity on objectively measured and self-reported cognitive functioning among breast cancer survivors: The memory & motion study. Cancer 10.1002/cncr.30987 (2017).

Como citar este artigo: Matheus Macedo-Lima. Exercício como terapia complementar para o cérebro de sobreviventes de câncer. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/09/exercicio-como-terapia-complementar-para-o-cerebro-de-sobreviventes-de-cancer/. Publicado em 28 de setembro (2017).

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Matheus Macedo-Lima

Matheus Macedo-Lima

Doutorando em Neuroscience and Behavior na University of Massachusetts Amherst (USA).
Escreve sobre Neurociência no Saense.

One thought on “Exercício como terapia complementar para o cérebro de sobreviventes de câncer”

  1. Fantástico! Faço da minha vida as palavras do texto.
    Já fazia atividade física antes do diagnostico de cancer de mama e QT, depois aumentei as horas dedicadas ao treino. Caminhada e corrida, musculação, pilates e yoga. Tenho disposição para o trabalho e voltei ao peso de muitos e muitos anos atrás… Atividade física para sempre. Como disseram os antigos gregos: mente sã corpo são! Valeu!!

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