A equidade definindo carreiras em ciências exatas e tecnologia

Claudio Macedo
26/10/2017

Igualdade (equality) e equidade (equity). [1]
Estudo sobre as aspirações de carreira de estudantes negros e latino-americanos em cursos de graduação em ciências exatas e tecnologia (C&T) em universidades dos EUA, descobriu que esses estudantes possuem um sentimento muito bem estabelecido de equidade, que supera a motivação por sucesso financeiro [2]. Os autores do estudo, utilizaram o termo equidade para significar um sentimento ético de profunda preocupação dos alunos pela justiça social e pelo bem-estar de pessoas que sofrem os efeitos das desigualdades sociais.

A pesquisa foi realizada coletando dados de 38 estudantes universitários negros e latino-americanos em C&T através de entrevistas estruturadas e histórias de vida. Os resultados indicaram três pontos relevantes: (1) os estudantes que participaram da pesquisa são semelhantes aos outros estudantes de C&T com respeito ao interesse nos aspectos tradicionais da ciência; (2) eles demonstram colocar uma ênfase significativa na justiça social e abordar a desigualdade em seu trabalho; e (3) esses alunos demonstram se sentir desconectados de outros estudantes nos seus campos de estudo em C&T.

Nos EUA, a disparidade na representação de indivíduos negros e latino-americanos no mercado de trabalho nas áreas de C&T é alarmante. No ano de 2016, por exemplo, a população empregada naquele país tinha 16,4% de latino-americanos e 11,7% de negros, enquanto nas áreas de C&T os empregados eram 6,8% latino-americanos e 8,6% negros. Particularmente, chama a atenção o fato que no Vale do Silício apenas 1 em 14 técnicos são negros ou latino-americanos.

No trabalho [2], os autores destacam que um grande número de jovens negros e latino-americanos abandonam a área de C&T durante a graduação universitária. Muitos alunos negros e latino-americanos ficam exaustos, desanimados e inseguros sobre seu lugar em C&T, evidenciando um conflito entre seus valores e as demandas de uma carreira competitiva em C&T. Os estudantes dessas minorias, que persistem na área de C&T, querem tornar o mundo um lugar melhor.

O entendimento dos pesquisadores é que as instituições universitárias devem revisar os currículos para posicionar a C&T como um caminho para servir a humanidade e não simplesmente um caminho individualista para o sucesso socioeconômico em um mercado competitivo. É preciso que a formação em C&T ofereça possibilidade de carreiras mais amplas, incluindo carreiras que integrem questões de justiça social, empatia e equidade. Essas diretrizes devem ser exploradas como um meio para manter e aumentar a satisfação e o envolvimento dos alunos, já que alguns estudantes que participaram da pesquisa expressaram frustração com a falta de valores humanitários em seus campos de estudo em C&T. É possível que ao enfatizar a ética e a equidade durante a formação em C&T as instituições venham a aumentar o acesso e o sucesso dos alunos negros e latino-americanos na área C&T.

A desproporção étnica/racial entre o mercado de trabalho geral e a área de C&T observada nos EUA possivelmente deve se estender por outros lugares do mundo. É provável que grupos étnicos/raciais minoritários em outras sociedades tenham aspirações de justiça social que entram em conflito com a ênfase na competitividade e no sucesso individual da formação e da atuação profissional da área de ciências e tecnologia. Por outro lado, existem inúmeros estudos que indicam que maior diversidade de pensamentos, talentos e de pessoas leva a aumento da inovação e maiores avanços científicos e tecnológicos, assim, disparidades raciais desse tipo são contraproducentes para a sociedade. Portanto, sobram evidências que a comunidade responsável pela formação em C&T deve se preocupar com a forma como a área posiciona nos currículos o papel de valores como equidade, empatia e altruísmo, pois são estes os princípios relativamente mais importantes para os grupos minoritários. [3]

[1] Crédito da imagem: Leigh Blackall (Flickr) / Creative Commons (CC BY 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/leighblackall/30727349115.

[2] E McGee and Bentley. The Equity Ethic: Black and Latinx College Students Reengineering Their STEM Careers toward Justice. American Journal of Education 10.1086/693954 (2017).

[3] Artigo relacionado: A persistência da discriminação racial.

Como citar este artigo: Claudio Macedo. A equidade definindo carreiras em ciências exatas e tecnologia. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/10/a-equidade-definindo-carreiras-em-ciencias-exatas-e-tecnologia/. Publicado em 26 de outubro (2017).

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Claudio Macedo

Doutor em Física. Divulgador de Ciência. Professor da Universidade Federal de Sergipe (1976-2016). Escreve sobre Temas Variados da Ciência no Saense.

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