A misteriosa comunicação por cheiro em humanos: o seu nariz te diz muito mais do que você consegue perceber

Matheus Macedo-Lima
07/12/2017

[1]
Humanos comunicam-se de muitas maneiras. Utilizamos a fala e a audição para nos comunicarmos verbalmente; utilizamos mãos para expressar afeição ou agressão; utilizamos a visão para observar gestos e expressões faciais e, mais recentemente na evolução, para a leitura de linguagem escrita… Estou esquecendo algum órgão do sentido? Ah sim, o olfato! Pode não parecer, mas o seu nariz serve para muito mais do que você imagina…

Mesmo quando não usamos perfume, nosso corpo tem cheiro (pode perguntar ao seu cachorro). Assumindo uma prática de higiene saudável, o famoso “CC” (cheiro do corpo) pode ser imperceptível… ou pelo menos conscientemente, pois nosso nariz é capaz de perceber e sinalizar moléculas no CC sem que nós percebamos um cheiro.

Estudos mostram que nós somos capazes de inferir idade, sexo, saúde e até felicidade e medo após inalar CCs alheios! Por exemplo, você sabia que temos um reflexo de cheirar as mãos após um aperto de mão (faça o teste)? Estamos essencialmente cheirando o CC da pessoa que acabamos de encontrar (eca!). Além disso, esses odores causam mudanças fisiológicas, como aumento dos batimentos cardíacos, sudorese e aumento do estado-de-alerta. O incrível é que não precisamos ter consciência de que estamos cheirando CC para esses efeitos acontecerem [2].

Existe um grupo de transtornos que são famosos por causarem problemas de interação social. As desordens do espectro autista (DEA) estão presentes em 1 em cada 100 pessoas (isso é muita gente!) e, por motivos ainda desconhecidos, afetam quatro vezes mais homens do que mulheres. Pessoas com DEA podem ter severas dificuldades na comunicação em várias modalidades. Dificuldades de fala e entendimento de linguagem, problemas em interpretação de gestos e expressões faciais… Mas será que eles também apresentam problemas na reação a odores humanos?

Um estudo recente [3] procurou entender o efeito fisiológico de um certo tipo de odor corporal…

*Música sombria*. O cheiro do medo. *Fim da música sombria*. (Explico já).

Os autores do estudo investigaram duas perguntas principais: 1) Será que humanos do sexo masculino apresentam alguma reação perceptível ao cheiro do medo? 2) Será que homens com DEA apresentam alguma disfunção nessa reação?

Detalhe: eles estudaram homens, porque o autismo é mais prevalente em homens. Portanto eles precisavam de um grupo-controle apropriado.

O “cheiro do medo” foi coletado de uma maneira genial. Os cientistas coletaram suor de aprendizes de uma escola de paraquedismo após uma aula. O odor-controle foi o suor das mesmas pessoas durante uma sessão de exercício. Legal, né?

Agora vamos aos resultados.

Os participantes do grupo-controle do estudo foram sim capazes de detectar o cheiro de medo. Mas apenas subconscientemente. Medindo a eletricidade da pele desses participantes após a apresentação do odor, os cientistas detectaram o aumento desta, mesmo quando os participantes não relatavam a percepção de nenhum aroma. Porém, a história foi bem diferente para os do grupo com DEA. A condutividade da pele permaneceu inalterada após o odor, o que sugere um diferente efeito fisiológico.

Então, os cientistas bolaram um experimento para tentar detectar efeitos comportamentais desse odor. Eles construíram dois manequins idênticos com um mecanismo bem engenhoso para exalar CC através das narinas quando os participantes se aproximavam. Os manequins também eram equipados com alto-falantes, através dos quais eles davam dicas acerca de uma tarefa no computador. A tarefa era bem simples, os participantes tinham que consultar os dois manequins e voltar ao computador para mover o mouse na direção de um alvo que apareceria na tela. Os manequins davam dicas para prever a direção do alvo. Um dos manequins exalava o CC do medo, enquanto o outro, o CC controle. Só que os manequins eram programados para acertarem apenas 70% das vezes. Os pesquisadores avaliaram o tempo de resposta após o aparecimento do alvo.

O efeito foi bem interessante.

Os participantes-controle confiaram mais nos palpites do manequim com CC controle e moviam o mouse mais rapidamente na direção sugerida, o que significa que o cheiro de medo deve ter causado desconfiança. Por outro lado, os participantes com DEA acabaram confiando mais no manequim com cheiro de medo! Isso novamente indica uma deficiência na interpretação fisiológica desse odor.

Portanto, esse estudo mostra que desordens do espectro autista envolvem alterações na interpretação de sinais sociais em praticamente todas as modalidades, incluindo o olfato. Esse estudo também reforça a ideia de que a comunicação olfativa, geralmente negligenciada nas interações humanas, pode ter efeitos comportamentais importantes. Porém, os autores ressaltam que esses efeitos são provavelmente secundários em comparação com a comunicação audiovisual.

Que tal então dar mais crédito ao seu nariz? Sem que você perceba, ele pode te dar informações importantes sobre outras pessoas. Pode ser até a razão pela qual você sente frio na barriga, borboletas no estômago quando interage com alguém ou quem sabe aquela sensação de que o “santo não bateu”!

[1] Crédito da imagem: mmntz (Flickr) / Creative Commons (Public Domain Mark 1.0). https://www.flickr.com/photos/135213460@N06/21473796202/.

[2] KT Lübke and BM Pause. Always follow your nose: The functional significance of social chemosignals in human reproduction and survival. Horm Behav 68, 134 (2015).

[3] Y Endevelt-Shapira et al. Altered responses to social chemosignals in autism spectrum disorder. Nat Neurosci 10.1038/s41593-017-0024-x (2017).

Como citar este artigo: Matheus Macedo-Lima. A misteriosa comunicação por cheiro em humanos: o seu nariz te diz muito mais do que você consegue perceber. Saense. http://www.saense.com.br/2017/12/a-misteriosa-comunicacao-por-cheiro-em-humanos-o-seu-nariz-te-diz-muito-mais-do-que-voce-consegue-perceber/. Publicado em 07 de dezembro (2017).

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Matheus Macedo-Lima

Matheus Macedo-Lima

Doutorando em Neuroscience and Behavior na University of Massachusetts Amherst (USA).
Escreve sobre Neurociência no Saense.

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