Vamos escrever estórias de terror?

Hendrik Macedo
04/12/2017

Silhueta de uma mão. [1]
“Afastei lentamente minha cabeça da cortina do chuveiro e vi o reflexo do rosto de um homem alto que parecia estar olhando no espelho no meu quarto. Eu ainda não podia ver seu rosto, mas eu podia ver seu reflexo no espelho. Ele se moveu em minha direção no espelho, e ele era o homem mais alto que eu já tinha visto. Sua pele era pálida, e ele tinha uma barba longa. “Por favor, não tenha medo, só estou procurando por ela”, ele disse apontando para o espelho. Eu acenei com a cabeça, congelada, porque algo me tocou. Eu lembro que ele olhou para mim e gritou em agonia. Ele não disse nada, mas ele olhou para mim com aquela expressão não natural. “Ah”, ele disse, sua voz sem qualquer emoção. “Ela deve estar dentro de você. Não importa. Eu só vou ter que extraí-la de você”. Ele estendeu a mão e pressionou a chave de fenda de plástico na soquete do meu olho esquerdo. Ele agarrou meu olho esquerdo e …”

Se bem escritas, histórias de terror aguçam o imaginário do leitor e são capazes de prender sua atenção por horas à fio. O trecho anterior, por exemplo, possui grande potencial; pessoalmente, fiquei curioso pela sequência da estória. Espero que a máquina termine de escrevê-la o mais rápido possível. Sim, a estória foi escrita por uma máquina, por uma Inteligência Artificial que reside no Twitter chamada de Shelley, e que foi concebida pelo Scalable Group, um time de pesquisadores do Media Lab do MIT, EUA [2].

Shelley é um sistema de aprendizado profundo treinado com mais de 140 mil estórias de terror disponíveis na categoria r/nosleep do portal Reddit [3]. A cada hora, @shelley_ai tuita o início de uma nova estória de terror e todos são convidados à retuitar com a próxima parte da estória. Isso é o que acontece nos trechos sublinhados da estória anterior. A seguir, Shelley continua a estória desse ponto de partida e o processo se repete até que a estória tenha um fim, com homens e máquinas colaborando para criação de um texto bastante imprevisível, original. Mais especificamente, Shelley é uma combinação entre uma rede neuronal recorrente (Recurrent Neural Network – RNN) de multicamadas e um algoritmo de aprendizado online que aprende com o feedback do público; ou seja, os trechos que o público escreve para complementar as estórias são utilizados para enriquecer ainda mais a base de conhecimento da máquina. Uma RNN é um framework adequado para geração automática de textos em linguagem natural por viabilizar a modelagem da distribuição de probabilidade condicional de prever a próxima unidade de sequenciamento (uma palavra ou um caractere, por exemplo) a partir de toda a sequência já conhecida/gerada até aquele ponto [4, 5]. Falei sobre um tipo especial de RNN, a Long-Short Term Memory (LSTM), no artigo “Do you speak English? No. Yo hablo español.”, que trata da tradução automática de textos entre línguas diferentes.

Em agosto deste ano de 2017, uma RNN já havia sido utilizada por um engenheiro de software, amante da série de livros “A Song of Ice and Fire” (George R.R. Martin), para escrever o próximo livro da série, intitulado “The Winds of Winter”. Os cinco primeiros capítulos do livro, completamente escritos pela máquina, estão disponíveis aos curiosos [6].

As arquiteturas profundas de redes neuronais estão de fato viabilizando um movimento bastante curioso e, sob certa ótica, assustador: a automatização da produção de Literatura (e Arte) e, em consequência, estendendo o domínio da expressão criativa. Novas músicas, pinturas ou livros, como vimos, estão sendo criados com o clique de um botão; mas não por humanos diretamente, por máquinas! A questão então é: quem é o dono da propriedade intelectual da obra criada? A máquina ou o seu programador? O criador ou a criatura? A discussão é ainda mais complexa porque para poder ter esse rompante criativo, como já vimos, durante a fase de treinamento, a máquina depende de inúmeros exemplos pré-existentes da dimensão em questão, que eventualmente já possuem direitos autorais bem estabelecidos. E agora? O problema é real e já tem gente tentando resolver [7]. Bem-vindos ao “novo mundo” e boa leitura!

[1] Crédito da imagem: Free-Photos (Pixabay) / Creative Commons CC0. https://pixabay.com/pt/mão-silhueta-forma-horror-984170/.

[2] P Yanardag et al. SHELLEY, Human-AI collaborated horror stories. http://www.shelley.ai.

[3] Reddit. https://www.reddit.com/r/nosleep/.

[4] M Roemmele. Writing Stories with Help from Recurrent Neural Networks. In Proc of thirtieth AAAI Conference on Artificial Intelligence 4311 (2016).

[5] A Graves. Generating sequences with recurrent neural networks. arXiv:1308.0850v5 (2013).

[6] Z Thoutt. https://github.com/zackthoutt/got-book-6/tree/master/generated-book-v1.

[7] JM Deltorn. Deep creations: Intellectual Property and the Automata. Frontiers in Digital Humanities 4, 3 (2017).

Como citar este artigo: Hendrik Macedo. Vamos escrever estórias de terror? Saense. http://www.saense.com.br/2017/12/vamos-escrever-estorias-de-terror/. Publicado em 04 de dezembro (2017).

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Hendrik Macedo

Doutor em Ciência da Computação. Professor da Universidade Federal de Sergipe. Escreve sobre Inteligência Artificial no Saense.

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