A sabedoria das multidões funciona com os dados de avaliações repetidas por uma única pessoa?

Claudio Macedo
02/01/2018

[1]
A sabedoria das multidões é um princípio que estabelece que estimativas precisas podem ser obtidas combinando os julgamentos de diferentes indivíduos. Este princípio tem sido aplicado com sucesso para melhorar, por exemplo, previsões econômicas, julgamentos médicos e previsões meteorológicas. Acontece que existem muitas situações em que é inviável coletar os julgamentos de diferentes pessoas, assim, tem sido proposto que um princípio semelhante se aplique a julgamentos repetidos da mesma pessoa [2]. Pesquisadores holandeses, em trabalho recente [2], descobriram que a média de um grande número de julgamentos da mesma pessoa é apenas melhor do que a média de dois julgamentos de pessoas diferentes.

O princípio da sabedoria das multidões surgiu a partir de um artigo do pesquisador britânico Francis Galton no periódico científico Nature em 1907 [3]. Nesse artigo, Galton descreveu uma competição de avaliação de peso de gado em um evento na Inglaterra, em que utilizando 800 bilhetes com estimativas dos participantes, ele descobriu que o julgamento médio das avaliações foi de 1.197 libras, enquanto o valor verdadeiro do peso do animal era 1.198 libras. Desde então, resultados semelhantes já foram observados em uma ampla gama de experimentos, tornando o assunto um sucesso, inclusive foi recentemente tema de um livro muito popular escrito por James Surowiecki [4].

O trabalho dos holandeses [2] utilizou os dados de três eventos promocionais organizados pela rede de cassinos Holland Casino. Durante as últimas semanas de 2013, 2014 e 2015, qualquer pessoa que visitou um dos casinos da rede pôde estimar o número de objetos em um recipiente de plástico transparente localizado na entrada do cassino. Tanto o recipiente como o número exato de objetos eram os mesmos em todos os locais. Havia 12.564 objetos no recipiente em 2013, 23.363 em 2014 e 22.186 em 2015. Um prêmio de € 100.000 foi compartilhado igualmente por aqueles cuja estimativa foi mais próxima do valor real. Em 2013, o prêmio em dinheiro foi concedido a 16 pessoas, e em 2014 e 2015, o valor total foi ganho por uma pessoa. Todos os vencedores apresentaram exatamente o número certo de objetos. A média das avaliações de todos os participantes (369.260 estimativas de 163.719 jogadores diferentes em 2013, 388.352 estimativas de 154.790 jogadores em 2014 e 407.622 estimativas de 162.275 jogadores em 2015) superestimou o valor verdadeiro em 86% em 2015 e foi 19% e 32% abaixo do valor verdadeiro em 2013 e 2014, respectivamente. Neste caso, o “erro” do resultado com a sabedoria das multidões foi muito maior do que o caso do peso de gado, certamente por tratar-se de uma competição de adivinhação aberta; a avaliação de peso de boi foi feita por “entendidos” do assunto.

Nos eventos dos cassinos, muitos jogadores apresentaram múltiplas estimativas (aproximadamente 60.000 participantes apresentaram mais de uma estimativa em cada evento), assim os pesquisadores puderam comparar valores médios de avaliações repetidas do participante com valores médios de dois ou mais participantes, tudo de forma aleatória.

O estudo concluiu que a eficácia da agregação de diferentes avaliações da pessoa é consideravelmente menor do que a agregação das avaliações entre pessoas. A diferença de eficácia é uma consequência da existência de erros sistemáticos em nível individual, o chamado viés idiossincrático (que é a tendência de cada um de nós agir de acordo com a maneira própria de ver, de sentir e de reagir). O efeito desses erros pode ser eliminado combinando estimativas de várias pessoas, não combinando várias estimativas de uma única pessoa [2].

Em resumo, para uma boa tomada de decisão, a média das avaliações de várias pessoas continua sendo a melhor abordagem, ou seja, “mais de duas cabeças são melhores do que uma”.

[1] Crédito da imagem: DasWortgewand (Pixabay)/ Creative Commons CC0. https://pixabay.com/en/crowd-men-women-casserole-2152653/.

[2] D van Dolder, MJ van den Assem. The wisdom of the inner crowd in three large natural experiments. Nature Human Behaviour 10.1038/s41562-017-0247-6 (2017).

[3] F Galton. Vox populi. Nature 75, 450 (1907).

[4] J Surowiecki. A sabedoria das multidões (The Wisdom of Crowds). Record (2006).

Como citar este artigo: Claudio Macedo. A sabedoria das multidões funciona com os dados de avaliações repetidas por uma única pessoa?. Saense. http://www.saense.com.br/2018/01/a-sabedoria-das-multidoes-funciona-com-os-dados-de-avaliacoes-repetidas-por-uma-unica-pessoa/. Publicado em 02 de janeiro (2018).

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Claudio Macedo

Doutor em Física. Divulgador de Ciência. Professor da Universidade Federal de Sergipe (1976-2016). Escreve sobre Temas Variados da Ciência no Saense.

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