Na batalha (quase) nenhuma formiga é deixada para trás!!

Luana Mendonça
20/03/2018

Formigas africanas proporcionam ajuda seletiva e tratamento para companheiras de ninho! [1]
Para iniciar, gostaria de dizer que estou muito feliz, pois este texto comemora 1 ano que eu contribuo com o Saense (http://www.saense.com.br/author/luanamendonca/), que eu considero uma excelente iniciativa de divulgação da ciência e da qual tenho orgulho de participar!

Ok, agora vamos falar de formiga. Eu particularmente tenho ‘certa fobia’ quando estou perto de uma quantidade razoável de formigas, mas fico no meu canto e elas ficam no canto delas (todos os cantos do mundo). Tirando minha fobia, sou bem observadora, principalmente dos animais (não humanos) e já reparei que muitas formigas que estão um pouco machucadas conseguem se erguer e caminhar, mas eu sempre pensei que essas formigas não teriam muita chance, afinal perderam partes do corpo e talvez elas nem consigam voltar para o ninho. Porém, será que elas conseguem? E se conseguem são capazes de curar os ferimentos?

A resposta para minhas indagações ‘formigatórias’ parece ter sido descoberta, pois pesquisadores da Alemanha perceberam que algumas formigas eram aparentemente selecionadas e carregadas para o ninho por companheiras [1]. Obviamente, já havia sido levantada a hipótese de que as formigas estariam carregando suas companheiras para serem predadas (canibalismo), pois não seria vantajoso ajudar uns poucos indivíduos já que as colônias possuem milhares.

Mas os pesquisadores alemães tinham outra hipótese, pois para eles, as formigas carregadas estariam sendo resgatadas para serem tratadas dentro da colônia. Os autores observaram as formigas da espécie Megaponera analis, nativa da África e especializada em caça (de cupins principalmente). A caça nessa espécie é feita por 200 a 600 indivíduos que saem do ninho para forragear (procurar comida) por no máximo 50 metros. Nesse grupo de forrageio há divisão do trabalho: enquanto as maiores abrem o solo as menores matam e carregam as presas. O processo de caça dura de 5 a 10 min e, ao final, algumas formigas acabam sendo feridas pelos cupins soldados e, esses ferimentos geralmente envolvem a perda de membros (patas). Antes das formigas saudáveis voltarem para o ninho, elas fazem uma busca pelas formigas que perderam algumas patas, e essas, segundo os autores, pedem ajuda emitindo substâncias químicas que são percebidas por suas companheiras. Os pesquisadores também observaram que formigas com 5 ou mais patas perdidas não eram resgatadas e que algumas formigas com poucos ferimentos ‘faziam cena’ para chamar a atenção do resgate. As formigas não resgatadas que tentaram voltar para o ninho morreram em mais de 30% dos casos. Os autores também fizeram um modelo preditivo e constataram que o resgate das formigas feridas mantém aproximadamente 30% da colônia.

Os mesmos autores também fizeram um experimento com essas formigas [2] e perceberam que o sistema de resgate realizado por elas é multifacetado, focado na reabilitação a longo-prazo dos indivíduos machucados e envolve não apenas o resgate e transporte dos feridos até a colônia, evitando o risco de predação, mas também o tratamento diferenciado desses indivíduos, reduzindo a mortalidade. Os experimentos também mostraram que a triagem dos feridos é seletiva e que os mais seriamente machucados são ignorados, passivamente, segundo os autores, e que as formigas levemente machucadas modificam seu comportamento com a aproximação das companheiras de ninho em uma tentativa de chamar a atenção para o resgate.

Esse tipo de comportamento relacionado ao resgate e tratamento de feridos em batalha só tinha sido observado em humanos e parece ser uma estratégia evolutiva crucial para a manutenção das colônias de Megaponera analis. Resta saber se é um comportamento exclusivo dessa espécie ou se outras (não apenas formigas) também resgatam e tratam seus feridos!

[1] Crédito da imagem: ET Frank et al. Saving the injured: rescue behavior in the termite-hunting and Megaponera analis. Sci Adv 10.1126/sciadv.1602187 (2017) / Creative Commons (CC-BY-NC).

[2] ET Frank et al. Wound treatment and selective help in a termite-hunting ant. Proc R Soc B 10.1098/rspb.2017.2457 (2018).

Como citar este artigo: Luana Mendonça. Na batalha (quase) nenhuma formiga é deixada para trás!! Saense. http://www.saense.com.br/2018/03/na-batalha-quase-nenhuma-formiga-e-deixada-para-tras/. Publicado em 20 de março (2018).

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Luana Mendonça

Doutoranda em Zoologia na Universidade Federal do Paraná. Escreve sobre Zoologia e Ecologia no Saense.

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