Ômega-3 nanoencapsulado para a indústria de alimentos

Pesquisa para Inovação
29/05/2018

Salmão. [1]
A empresa Funcional Mikron, de Valinhos (SP), desenvolveu um processo de produção de ômega-3 para compor cápsulas e ingredientes para a indústria alimentícia. O ômega-3 é uma gordura poli-insaturada encontrada em peixes e crustáceos e consumida como um suplemento alimentar para combater altos índices de triglicérides e colesterol ou mesmo para evitar as demências senis.

O projeto teve apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas da FAPESP (PIPE). Utilizando nanotecnologia, uma área em que os produtos são elaborados em medidas equivalentes a um milímetro dividido por um milhão, a empresa conseguiu desenvolver um composto contendo fitoesteróis, substância produzida com óleos vegetais que também contribui para combater o colesterol alto. Com o ômega-3 nanoencapsulado com o fitoesterol, a absorção do produto no organismo é mais eficiente e apresenta melhores resultados para a saúde humana, segundo a empresa.

“Utilizamos óleo de peixe encapsulado em micro ou nanoestruturas envoltas em fitoesteróis. São nanoesferas, com tamanhos entre 100 nanômetros e 400 nanômetros, que conseguem ser mais bem absorvidas pelo intestino e chegar à corrente sanguínea em maior volume e em menor tempo”, explica o biomédico Eduardo Caritá, sócio e diretor de tecnologia e inovação da empresa.

Em teste realizado em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com 30 voluntários, nanopartículas de vitaminas do complexo B nanoencapsuladas em fitoesteróis mostraram 25,7% a mais de absorção quando comparadas com as vitaminas em cápsulas comuns, o que significa maior biodisponibilidade do produto no organismo.

Caritá explica que a nanoesfera feita de fitoesterol e ômega-3 compete com o colesterol LDL, que é uma lipoproteína de baixa densidade fabricada pelo fígado depois da ingestão de alimentos. A ingestão excessiva de colesterol leva a uma alta produção de VLDL, que é uma lipoproteína de densidade muito baixa. Como o LDL, o VLDL também é chamado de colesterol ruim porque provoca inflamações nas paredes das artérias e pode levar ao infarto.

O fitoesterol, gordura de origem vegetal com estrutura molecular muito similar ao colesterol, é absorvido preferencialmente em detrimento do colesterol exógeno (produzido após a alimentação) que é expelido pelas fezes. Ao absorver o ômega-3 – que possui como elementos ativos os ácidos graxos eicosapentaenoico (EPA) e o docosahexaenoico (DHA) – , o organismo acaba por reduzir todos os processos inflamatórios presentes no corpo, inclusive o localizado nas artérias pela deposição das placas de ateroma, constituídas de cálcio e gordura, principalmente o VLDL. Tanto o ômega-3 como os fitoesteróis são considerados alimentos funcionais pelo Ministério da Saúde e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Trazem benefícios à saúde de acordo com estudos científicos, atuando como suplementos e não como medicamentos.

O novo sistema de produção poderá levar a Funcional Mikron a ser o primeiro fabricante no país a disponibilizar para a indústria alimentícia um ingrediente em pó de ômega-3. “Produziremos e venderemos para outras empresas esse ingrediente para ser usado em sorvetes, achocolatados, bebidas lácteas, sucos, chás, milk shakes e até pães e bolos”, diz Caritá.

Outro benefício desse processo produtivo que utiliza a nanotecnologia é o maior prazo de validade para o consumo em comparação com os atuais de mercado. Caritá também acrescenta que, com a nova formulação, tanto nas cápsulas como no pó, o ômega-3 deixará de ter o sabor e odor desagradável do óleo de peixe usado como matéria-prima. Os últimos testes sensoriais para comprovar essa característica estão sendo realizados neste semestre.

Fármacos e suplementos

A Funcional Mikron iniciou suas atividades em 2007 como um departamento da empresa Ultrapan, produtora de sucos e bebidas energéticas como o Dr.Up e Power Bull, em Valinhos, SP. Para o Power Bull, a Funcional, que só se tornaria uma empresa em 2017, desenvolveu nanocápsulas de cafeína também para melhor aproveitamento dessa substância no organismo. As duas empresas fazem parte do grupo Káiros, formado por 10 empresas do setor alimentício liderado pela Alibra, com unidades em Campinas (SP) e Marechal Rondon (PR), fabricante de compostos e misturas lácteas e ingredientes para a indústria alimentícia usados na produção de pizzas, sorvetes, molhos e pães. Possui também produtos próprios no varejo, como achocolatados e farinha láctea.

O grupo adquiriu em 2015 a empresa Genkor, fabricante de corantes, espessantes e estabilizantes. Todas essas empresas trabalham juntas e poderão receber as tecnologias desenvolvidas na Funcional Mikron que produz, com a Ultrapan, 102 ingredientes para fármacos ou suplementos como ferro, vitaminas, minerais e cafeína nanoencapsulada. A empresa exporta principalmente os suplementos vitamínicos para países da América Latina.

“Ao serem finalizados os últimos testes com ômega-3 nanoencapsulado, vamos iniciar a produção em Valinhos. Para isso, teremos que fazer um investimento, ainda sem origem definida, para a compra de uma máquina norte-americana que custa cerca de US$ 300 mil.” É um ultra-homogeneizador de alta pressão que vai misturar água, óleo de peixe e fitoesterol. A água empurra o óleo para dentro do fitoesterol formando uma nanoemulsão que será a base dos novos produtos que a Funcional vai lançar no mercado em 2019. [2]

[1] Crédito da imagem: Ted Eytan (Flickr) / Creative Commons (CC BY-SA 2.0).
https://www.flickr.com/photos/taedc/38552516005.

[2] Esta notícia científica foi escrita por Marcos de Oliveira.

Como citar esta notícia de inovação: Pesquisa para Inovação. Ômega-3 nanoencapsulado para a indústria de alimentos. Texto de Marcos de Oliveira. Saense. http://www.saense.com.br/2018/05/omega-3-nanoencapsulado-para-a-industria-de-alimentos/. Publicado em 29 de maio (2018).

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Pesquisa para Inovação é uma publicação da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) com o objetivo de estimular a inovação empresarial e de promover a colaboração entre universidades e empresas, bem como o intercâmbio de informações entre parceiros potenciais.

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