Reduções de nutrientes a longo prazo levam à recuperação sem precedentes na Baía de Chesapeake, Estados Unidos

Luana Mendonça
19/06/2018

Foto tirada em 1936 por Jim Pickerell mostrando organismos mortos por causa da poluição em uma região perto da ponte na Baía de Chesapeake, USA.

As regiões costeiras vêm recebendo a maior parte do impacto da ocupação humana, desde a redução de áreas verdes até o despejo de esgoto e resíduos industriais. O resultado de centenas de anos de degradação e uso, em muitos locais de costa, são áreas sem nenhuma vegetação nativa, erosão, poluição costeira, diminuição da fauna e flora local e, caso as pessoas não tenham percebido, diminuição da qualidade de vida.

Obviamente todo mundo que mora em uma região costeira percebe (ou deveria) praticamente todos os impactos da nossa ocupação. Sabemos disso quando vamos a uma região de manguezal que tem um cheiro absurdamente horrível por causa do esgoto doméstico sem tratamento que é descarregado lá; sabemos disso quando chove um pouco mais e a cidade inteira alaga porque os bueiros e canais de escoamento estão entupidos com lixo; sabemos também quando vamos em um local que costumava ter mata e animais e agora parece um deserto; sabemos de tudo isso também através dos inúmeros estudos realizados sobre o impacto humano no mundo. Mas mesmo sabendo de tudo isso, não estamos fazendo quase nada para melhorar a situação da natureza e sua biodiversidade (que inclui o homem).

Porém, hoje vou compartilhar com vocês uma boa notícia, que é a recuperação de uma área altamente poluída nos Estados Unidos (ver imagem acima). O estudo realizado por Lefcheck e colaboradores [2] conta a história da Baía de Chesapeake. A baía, que tem mais de 18 Km de linha de costa e uma diversidade de hábitats associados, teve um grande aumento no número de habitantes em pouco espaço de tempo e, em 1950, a população já era de 18 milhões. O impacto do aumento populacional foi imediato e, entre 1950 e 1970 dezenas de milhares de hectares da vegetação aquática submersa (um habitat ecologicamente e economicamente valioso) já tinha sido perdida. A modificação dos hábitats da baía gerou um prejuízo não apenas ambiental, mas também econômico, então a população local, o estado, o governo e agências científicas uniram forças para identificar quais os poluentes que estavam causando a perda da vegetação. Com os resultados encontrados, medidas para redução dos nutrientes foram estabelecidas e programas de monitoramento a longo prazo criados. Todos esses esforços garantiram uma recuperação de 17 mil hectares de vegetação na baía.

Os autores também utilizaram os dados dos 30 anos de monitoramento da baía para construir modelos que relacionassem os efeitos ao longo do tempo dos impactos humanos sobre a vegetação aquática submersa na região, relacionando com os estressores, no caso a poluição por nutrientes. Os resultados mostraram, como era esperado, que o aumento de nutrientes reduz a cobertura da vegetação e, dentre os nutrientes, nitrogênio e fósforo parecem exercer a maior influência para essa diminuição da vegetação. Os autores também ligaram os nutrientes que estariam sendo acrescentados ao ambiente aos fertilizantes utilizados principalmente na agricultura. Esses resultados mostram o efeito em cascata, iniciando pelo aumento da população humana, a fragmentação da vegetação terrestre nativa para utilização na agricultura, o uso de fertilizantes químicos para aumentar a produção, o direcionamento do resíduo desses fertilizantes para o ambiente costeiro adjacente e finalmente a perda da diversidade local, nesse caso representada pela vegetação aquática submersa.

Entretanto, o estudo também mostrou através dos modelos criados que a redução dos nutrientes e a conservação da biodiversidade local são estratégias eficazes para ajudar na recuperação de sistemas degradados em uma escala regional.

Vale ressaltar que os ecossistemas costeiros possuem inúmeras funções, muitas delas ligadas a economia humana, como por exemplo a utilização desses ecossistemas como hábitat ou berçário de espécies importantes comercialmente. Desse modo, a preservação desses ambientes deveria ser crucial, não apenas porque não temos o direito de destruir tudo e prejudicar as outras espécies animais como também para preservar a nossa própria espécie. Por fim, o relato do que vem acontecendo com a Baía de Chesapeake servem de exemplo para programas de gestão ambiental em todo o mundo!

[1] Crédito da imagem: Jim Pickerell [Public domain], via Wikimedia Commons. https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=17091838.

[2] JS Lefcheck et al. Long-term nutrient reductions lead to the unprecedented recovery of a temperate coastal region. PNAS 10.1073/pnas.1715798115 (2018).

Como citar este artigo: Luana Mendonça. Reduções de nutrientes a longo prazo levam à recuperação sem precedentes na Baía de Chesapeake, Estados Unidos. Saense. http://saense.com.br/2018/06/reducoes-de-nutrientes-a-longo-prazo-levam-a-recuperacao-sem-precedentes-na-baia-de-chesapeake-estados-unidos/. Publicado em 19 de junho (2018).

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Luana Mendonça

Doutoranda em Zoologia na Universidade Federal do Paraná. Escreve sobre Zoologia e Ecologia no Saense.

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