Pesquisadores tentam acelerar o processo evolutivo para salvar uma espécie de marsupial da Austrália

Luana Mendonça
31/08/2018

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Quem acompanha meus textos sabe que eu venho mostrando vários trabalhos sobre espécies ou ambientes ameaçados, principalmente pela ação humana. E hoje mostrarei mais um caso, porém o foco aqui é outro, é como cientistas estão tentando evitar a extinção de uma espécie endêmica da Austrália.

Bom, comecemos pelo começo, a figura acima mostra uma ilustração de representantes da espécie Dasyurus hallucatus, um pequeno marsupial (indivíduos que possuem marsúpio, uma bolsa onde os filhotes terminam seu desenvolvimento) endêmico (que só existe naquele local) da Austrália. Ele é conhecido como quoll-setentrional, tem o tamanho de um esquilo, é carnívoro e tem distribuição restrita ao norte do território australiano.

Nos anos 80, agricultores introduziam um sapo (Rhinella marina) para controlar um besouro comedor de cana-de-açúcar e obviamente ele se espalhou pelo território, muito além dos setores agrícolas onde foram inicialmente soltos. Acontece que o sapo em questão produz toxinas e o pequeno quoll confundiu ele com suas presas e, essa simples introdução do sapo levou a diminuição de 75% da população do quoll.

Estudando as populações do quoll, Ella Kelly e Ben Phillips (pesquisadores da Universidade de Melbourne) descobriram que alguns indivíduos de uma população em Queensland desenvolveram aversão ao sapo ao longo dos anos, o que significa que esses indivíduos reconheciam o sapo como ameaça e não mais tentavam comê-lo.

Os pesquisadores então pensaram que, se essa aversão pudesse ser também adquirida por quolls de regiões onde o sapo ainda não chegou, tornaria as populações mais resistentes e poderia evitar que a espécie fosse mais dizimada.

Para testar essa ideia, os pesquisadores criaram alguns animais da espécie em cativeiro e cruzaram os animais de Queensland que tinham adquirido aversão pelo sapo com animais de regiões onde o sapo ainda não tinha chegado. Os pesquisadores então expuseram os filhotes ao sapo para verificar se a aversão ao mesmo tinha sido ‘passada adiante’ e surpreendentemente, a maioria dos filhotes não tocaram as pernas do sapo oferecidas.

Com esses resultados, os pesquisadores perceberam que a condição de aversão ao sapo poderia ter um componente genético, poderia ser passado adiante através da reprodução e muito provavelmente poderia ser uma característica dominante. Diante de resultados promissores, Ella Kelly e Ben Phillipss se juntaram a Chris Jolly e decidiram testar se esses indivíduos com aversão ao sapo poderiam passar adiante essa característica no ambiente natural. Eles soltaram 54 quolls em uma ilha infestada pelos sapos. Dentre esses animais soltos pelos pesquisadores tinham linhagens de regiões que nunca interagiram com o sapo, linhagens de Queensland que tinham aversão ao sapo e os filhotes híbridos dessas duas linhagens.

Praticamente um ano depois, os pesquisadores voltaram para o local para verificar a sobrevivência dos animais soltos. Os mesmos mencionam que encontraram boas e más notícias. A má notícia é que sobreviveram menos indivíduos que os pesquisadores imaginaram que sobreviveriam, apenas 16 animais. A boa notícia é que dentre os sobreviventes tinham os híbridos fruto da reprodução em cativeiro que provavelmente receberam a característica de aversão ao sapo dos seus pais.

Os pesquisadores agora estão fazendo análises genética dos sobreviventes e também buscando autorização do governo para soltar indivíduos que possuem aversão ao sapo em regiões ainda não infestadas para proteger as populações do quoll dessas regiões.

O sucesso desse experimento sem precedência pode não apenas salvar uma espécie ameaçada de extinção, mas também ser aplicado em outras espécies ameaçadas da Austrália como o diabo da tasmânia e corais da grande barreira. Poderia ser também aplicado em diversas outras espécies, também criticamente ameaçadas pela presença de espécies introduzidas ao redor do mundo.

[1] Crédito da imagem: John Gould (Wikimedia Commons), Public domain. https://commons.wikimedia.org/wiki/Dasyurus_hallucatus#/media/File:Dasyurus_hallucatus_-_Gould.jpg.

[2] A Reese. Evolution experiment aims to save Australian marsupial. Nature News in Focus 559, 451-452 (2018).

Como citar este artigo: Luana Mendonça. Pesquisadores tentam acelerar o processo evolutivo para salvar uma espécie de marsupial da Austrália. Saense. http://saense.com.br/2018/08/pesquisadores-tentam-acelerar-o-processo-evolutivo-para-salvar-uma-especie-de-marsupial-da-australia/. Publicado em 31 de agosto (2018).

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Luana Mendonça

Doutoranda em Zoologia na Universidade Federal do Paraná. Escreve sobre Zoologia e Ecologia no Saense.

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