ESO
02/03/2026

Os astrónomos capturaram a região central da Via Láctea numa imagem nova que revela uma complexa rede de filamentos de gás cósmico com um detalhe sem precedentes. Obtido com o auxílio do Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), este conjunto de dados permitirá aos astrónomos investigar estrelas situadas na região mais extrema da nossa Galáxia: perto do buraco negro supermassivo que se esconde no seu centro.
“É um lugar de extremos, invisível aos nossos olhos, mas agora revelado com detalhes extraordinários“, diz Ashley Barnes, astrónomo do Observatório Europeu do Sul (ESO), na Alemanha, que faz parte da equipa que obteve os novos dados. As observações fornecem uma visão única do gás frio — a matéria-prima a partir da qual as estrelas se formam — dentro da chamada Zona Molecular Central (ZMC) da nossa Galáxia. Trata-se da primeira vez que o gás frio é explorado com tal detalhe em toda esta região.
A região apresentada na nova imagem tem uma extensão de mais de 650 anos-luz e é o local onde existem nuvens densas de gás e poeira que envolvem o buraco negro supermassivo que se situa no centro da nossa Galáxia. “Trata-se do único núcleo galáctico suficientemente próximo da Terra para podermos estudá-lo com muito detalhe“, afirma Barnes. O conjunto de dados revela a ZMC como nunca antes vista, desde estruturas de gás com dimensões de dezenas de anos-luz até pequenas nuvens de gás situadas em torno de estrelas individuais.
O gás que o ACES (ALMA CMZ Exploration Survey – Rastreio de Exploração da ZMC do ALMA) explora especificamente é o gás molecular frio. O rastreio revela a química complexa da ZMC, detectando dezenas de moléculas diferentes, desde as mais simples, como monóxido de silício, até às mais complexas, como metanol, acetona ou etanol.
O gás molecular frio flui ao longo de filamentos que alimentam aglomerados de matéria a partir dos quais as estrelas podem crescer. Nas periferias da Via Láctea, sabemos como esse processo ocorre, mas na região central os eventos são muito mais extremos. “A ZMC alberga algumas das estrelas mais massivas conhecidas na nossa Galáxia, muitas das quais vivem depressa e morrem jovens, terminando as suas vidas sob a forma de poderosas explosões de supernova ou mesmo hipernova“, explica o líder do ACES, Steve Longmore, professor de astrofísica na Liverpool John Moores University, no Reino Unido. Com o ACES, os astrónomos esperam compreender melhor como é que estes fenómenos influenciam o nascimento das estrelas e se as nossas teorias de formação estelar permanecem válidas em ambientes extremos.
“Estudar como as estrelas nascem na ZMC ajuda-nos também a obter uma ideia mais clara de como as galáxias cresceram e evoluíram”, acrescenta Longmore. “Pensamos que esta região partilha muitas das características das galáxias do Universo primitivo, onde as estrelas se formavam em ambientes caóticos e extremos.”
Para recolher este novo conjunto de dados, os astrónomos utilizaram o ALMA, operado pelo ESO e pelos seus parceiros internacionais no deserto chileno do Atacama. Na verdade, trata-se da primeira vez que uma área tão grande foi observada com esta infraestrutura, o que faz desta imagem a maior imagem alguma vez obtida pelo ALMA. No céu, o mosaico — obtido através da junção de muitas observações individuais, um pouco como se de peças de um puzzle se tratassem — tem o comprimento equivalente a três Luas Cheias colocadas lado a lado.
“Quando programámos e preparámos este rastreio já estávamos à espera de um elevado nível de detalhe, no entanto ficámos genuinamente surpreendidos com a complexidade e riqueza reveladas no mosaico final“, afirma Katharina Immer, astrónoma do ALMA no ESO, que também faz parte do projeto. Os dados do ACES foram apresentados em cinco artigos científicos que serão publicados na revista da especialidade Monthly Notices of the Royal Astronomical Society, com um sexto também praticamente aceite para publicação na mesma revista.
“A próxima atualização da sensibilidade da banda larga do ALMA, assim como o futuro Extremely Large Telescope do ESO, permitir-nos-ão observar em breve esta região com ainda mais profundidade, resolvendo estruturas mais finas, traçando uma química mais complexa e explorando a interação entre as estrelas, o gás e os buracos negros com uma clareza sem precedentes“, afirma Barnes. “Em muitos aspetos, isto é apenas o começo.” [1], [2], [3]
[1] Este trabalho de investigação foi descrito numa série de artigos científicos que apresentam os dados ACES, publicados na revista da especialidade Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. Os dados propriamente ditos estarão disponíveis no Portal Científico do ALMA em: https://almascience.org/alma-data/lp/aces
[2] Este texto foi traduzido por Margarida Serote
[3] Publicação original: https://www.eso.org/public/portugal/news/eso2603/
Como citar este texto: ESO. Maior imagem do seu tipo mostra química complexa no coração da Via Láctea. Tradução de Margarida Serote. Saense. https://saense.com.br/2026/03/maior-imagem-do-seu-tipo-mostra-quimica-complexa-no-coracao-da-via-lactea/. Publicado em 02 de março (2026).