UFRGS
29/07/2022

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Pacientes com doenças psiquiátricas graves costumam apresentar sinais de envelhecimento acelerado, aumento de doenças cardiovasculares e mais diagnósticos de doenças autoimunes. Entender o que explica isso foi o desafio enfrentado por pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFRGS, que identificaram alterações de marcadores inflamatórios (proteínas que indicam se há algum processo inflamatório no organismo) em pacientes diagnosticados com transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O estudo pode contribuir para a investigação de novas estratégias terapêuticas que tenham esses marcadores como alvos, como o uso de anti-inflamatórios e imunomoduladores. “Existem vários marcadores inflamatórios e de estresse oxidativo, e a gente queria saber exatamente quais deles são alterados no TEPT”, revela Ives Passos, professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e integrante do estudo. 

No artigo intitulado “Inflammatory and oxidative stress markers in post-traumatic stress disorder: a systematic review and meta-analysis”, foi feita uma metanálise – método em que se faz uma revisão da literatura para identificar os trabalhos a serem incluídos na pesquisa – e, a partir disso, o material reunido é estudado para se ter uma evidência científica mais robusta. Após avaliar 54 estudos com quase 9 mil pacientes com TEPT, os pesquisadores não constataram alterações nos marcadores de estresse oxidativo, isto é, que indicam se há um desbalanço no combate aos radicais livres.

No entanto, os cientistas identificaram que essas pessoas apresentam alterações em três marcadores inflamatórios: o TNF alfa (fator de necrose tumoral-α), a interleucina 6 e a proteína C reativa. De acordo com o professor, esses são os três grandes maestros da resposta inflamatória, ou seja, possivelmente algum deles estará alterado no caso de doenças autoimunes e inflamatórias. O TNF alfa, por exemplo, é frequentemente alterado no lúpus, doença com maior incidência no paciente com TEPT e na qual costuma ocorrer alteração de outros marcadores, como a proteína C reativa. Então, possivelmente, esses três marcadores estarão alterados nas doenças inflamatórias.

“Nós víamos que os pacientes com transtorno de estresse pós-traumático envelheciam de maneira acelerada, eles tinham mais doenças cardiovasculares, infartos, AVCs e mais doenças autoimunes. A gente não sabia por quê, e agora está claro: porque eles têm esse aumento de marcadores inflamatórios, que justifica uma maior incidência desses desfechos clínicos.” 

Ives Passos

De acordo com o docente, os pacientes com TEPT podem aparentar ter até 10 anos a mais do que a real idade deles, tanto na aparência quanto biologicamente. É um fenômeno chamado de envelhecimento acelerado, no qual as pessoas podem até morrer mais cedo em comparação à população em geral, o que ocorre sobretudo em pacientes com casos mais graves e/ou não tratados de transtornos psiquiátricos.

Em 2011, quando Ives começou a residência em Psiquiatria no Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), já existia um grupo de pesquisa que estudava marcadores biológicos, incluindo os marcadores inflamatórios de estresse oxidativo no campo dos transtornos de humor. “Naquela época nós já tínhamos a suspeita de que esses marcadores poderiam estar alterados em algumas doenças psiquiátricas. E posteriormente, um dos artigos do meu doutorado já estava avaliando marcadores inflamatórios do transtorno de estresse pós-traumático e também no transtorno bipolar, que são duas doenças psiquiátricas que podem ficar mais graves”, explica o professor. 

Foco no tratamento e próximos passos

Conforme o Relatório Mundial de Saúde Mental, disponibilizado em junho deste ano pela Organização Mundial da Saúde, antes da pandemia, em 2019, cerca de 970 milhões de pessoas no mundo viviam com algum transtorno mental – marco que pode ter se acentuado ainda mais nos últimos anos. Atualmente, os pacientes diagnosticados com transtorno de estresse pós-traumático são tratados com psicoterapia e medicações antidepressivas. 

A expectativa, a partir deste novo estudo, é que sejam elaborados novos tratamentos, incluindo anti-inflamatórios e imunomoduladores para reduzir o surgimento desses eventos cardiovasculares e o envelhecimento acelerado. Segundo Ives, acredita-se que, enquanto os medicamentos antidepressivos melhoram os sintomas ansiosos decorrentes do TEPT, essas novas estratégias podem agir nas outras doenças observadas pelos marcadores. Além disso, se sabe que pacientes com o transtorno podem apresentar perda de algumas funções cognitivas com o passar do tempo – situação que também pode ser influenciada pelos processos inflamatórios – e, segundo Ives, esse pode ser um ponto abordado nas próximas pesquisas. [2]

[1] Foto: Gustavo Diehl/JU .

[2] Texto de Geovana Benites.

Como citar esta notícia: UFRGS. Pesquisadores detectam alterações inflamatórias associadas ao transtorno de estresse pós-traumático. Texto de Geovana Benites. Saense. https://saense.com.br/2022/07/pesquisadores-detectam-alteracoes-inflamatorias-associadas-ao-transtorno-de-estresse-pos-traumatico/. Publicado em 29 de julho (2022).

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