Jornal da USP
18/05/2023

Foto: Freepik / Fotomontagem – Jornal da USP

Estudo de pesquisadores da USP pode ajudar na avaliação da gravidade da apneia obstrutiva do sono (AOS), doença em que a respiração da pessoa para e volta diversas vezes enquanto está dormindo. O trabalho sugere uma análise conjunta entre o volume da língua, das vias aéreas e da mandíbula, além do uso da chamada classificação de Mallampati, criada para prever a dificuldade de intubação de um paciente.

A classificação de Mallampati consiste em observar o volume de alguns elementos que compõem a via área: palato mole, fauce, úvula e pilares amigdalianos (veja quadro abaixo). Quanto maior a classificação, que vai de 1 a 4, mais estreita é a via aérea superior e mais difícil é o procedimento de intubação.

Os pesquisadores observaram uma relação entre uma maior classificação de Mallampati e quadros mais graves de apneia obstrutiva do sono. Esses achados já haviam sido observados em outros estudos e foram confirmados pela pesquisa. O dado novo foi o papel do volume da língua e da relação entre o volume da língua e o tamanho da mandíbula para o nível de gravidade da doença.

Os resultados  da pesquisa estão descritos no artigo Tongue size matters: revisiting the Mallampati classification system in patients with obstructive sleep apnea, publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia.

Autossufocamento

A apneia obstrutiva do sono é caracterizada por um colapso da via aérea que leva a um fechamento total ou parcial da via, reduzindo ou impedindo o ar de chegar aos pulmões e, consequentemente, a todos os órgãos do corpo. Essa interrupção do respirar pode acontecer 30, 40 ou até mesmo 100 vezes por hora. “É como se o organismo promovesse um autossufocamento. É como se alguém estivesse esganando você, sendo que esse alguém é você mesmo”, explica o médico pneumologista Rodolfo Augusto Bacelar de Athayde, primeiro autor do artigo.

Ele explica que, a longo prazo, essa frequente queda da oxigenação (hipoxemia noturna) traz consequências sérias à saúde e está associada ao aumento do risco de mortalidade por doença cardiovascular, infarto, arritmia, morte súbita, acidente vascular cerebral, demência, Alzheimer e até depressão, entre outras patologias.

Segundo Rodolfo Athayde, trata-se da doença crônica não transmissível mais frequente do mundo: estima-se que um terço da população adulta apresente a condição. Identificar um número tão grande de pacientes não é fácil e a pesquisa teve o objetivo de contribuir com esse processo.

O trabalho foi realizado no Laboratório do Sono (LIM 63) da Divisão de Pneumologia do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). A orientação foi do professor Pedro Rodrigues Genta.

Participaram do estudo 80 homens. Eles foram submetidos a avaliação clínica, tomografia das vias aéreas e polissonografia (exame não invasivo realizado enquanto o paciente dorme e que mostra a qualidade do sono). Também foram avaliados por meio da classificação de Mallampati: um único examinador avaliou todos os casos, para padronizar a análise. O exame é simples: o paciente fica em frente ao médico, abre a boca e estica a língua até a via aérea superior ser visualizada.

Obesidade e volume da língua

Foi observado que os participantes com maior Índice de Massa Corporal (IMC) tinham uma língua maior. O IMC é calculado dividindo o peso da pessoa (em quilos) pela altura (em metros) ao quadrado.

O pneumologista conta que poucos sabem, mas a língua também é suscetível a aumentar de volume devido à obesidade. “Com ganho de peso corporal, existe uma infiltração de gordura na língua fazendo com que ela aumente de tamanho. Então existe uma relação direta entre ganho de peso e o aumento da língua. Consequentemente, a gente tem uma relação de ambas com o desenvolvimento da apneia obstrutiva do sono”, aponta.

A doença afeta todos os gêneros e faixas etárias, mas é mais frequente em homens depois dos 50 anos. Nas mulheres, o processo de envelhecimento e o período pós-menopausa aumentam as chances de desenvolvimento de apneia devido às mudanças do ciclo hormonal, que podem fragilizar a musculatura das vias aéreas, tornando-a mais propensa ao colapso. No caso de crianças, a doença pode ocorrer tanto por conta de problemas anatômicos da via aérea como por obesidade.

E é exatamente a obesidade, destaca o pneumologista, o fator de risco mais associado à doença, muito mais do que a idade ou o sexo do paciente.

O principal sintoma da apneia obstrutiva do sono é o ronco e a interrupção da respiração enquanto a pessoa dorme. “Todo apneico ronca, mas nem todo ronco é indício de apneia obstrutiva do sono”, alerta o pesquisador.

Há também outros sintomas que podem estar relacionados com a doença, como: sono não reparador, acordar diversas vezes durante a noite, acordar com dor de cabeça, dificuldade de concentração e raciocínio, flutuações de humor e sonolência diurna.

Aplicações da pesquisa

O médico conta que a prevenção é bastante complexa porque a fragilidade das estruturas da via aérea ocorre com a progressão da idade. Os quadros mais leves podem ser tratados com terapia fonoaudiológica para tonificar a musculatura. Para os casos moderados e graves é recomendado o uso, durante o sono, de um dispositivo respiratório chamado CPAP, uma espécie de máscara que impede o fechamento das vias aéreas.

Essa máscara pode abranger somente a região do nariz ou do nariz e da boca. Segundo o pesquisador, alguns dados anteriores mostravam que usar a via do nariz e da boca poderia não ser uma boa opção. Avaliar o tamanho da língua do paciente pode ajudar os médicos na escolha do melhor tratamento, reforçando que a via nasal parece ser a melhor opção, sugere o médico. O estudo ainda contribui para o entendimento da anatomia das vias aéreas no contexto da doença.

Atualmente, o diagnóstico da apneia obstrutiva do sono é feito através do exame de polissonografia. Segundo o pneumologista, há médicos que usam a classificação de Mallampati na prática clínica para avaliar o risco da doença, mas existe uma certa discussão na literatura científica sobre os benefícios de tal prática. De acordo com Rodolfo de Athayde, os resultados deste trabalho reforçam a ideia de que a classificação pode, sim, ser um mecanismo útil na avaliação dos pacientes.

O pneumologista lembra que pessoas que fazem cirurgia bariátrica e têm perda acentuada de peso apresentam melhora da apneia. Mas ainda não se sabe exatamente todos os mecanismos envolvidos. Ele destaca a necessidade de outros estudos que expliquem por que isso ocorre e se, além da língua, há alguma outra estrutura da via aérea que contribua para esse processo.

Mais informações: e-mail rodolfobacelar1@hotmail.com, com Rodolfo Augusto Bacelar de Athayde [1], [2]

[1] Texto de Valéria Dias.

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/tamanho-da-lingua-ajuda-a-identificar-gravidade-da-apneia-obstrutiva-do-sono/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Tamanho da língua ajuda a identificar gravidade da apneia obstrutiva do sono.  Texto de Valéria Dias. Saense. https://saense.com.br/2023/05/tamanho-da-lingua-ajuda-a-identificar-gravidade-da-apneia-obstrutiva-do-sono/. Publicado em 18 de maio (2023).

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