UFRGS
25/08/2025

Desenvolvido no Laboratório de Materiais Poliméricos (Lapol) do Núcleo de Sustentabilidade da UFRGS, o estudo de mestrado da pesquisadora Helen Kotekewis introduz uma ideia inovadora: substituir o plástico convencional por um modelo biodegradável. Por ter curto ciclo de vida e difícil reciclagem, o material representa uma grande problemática no Brasil: o país é o quarto maior produtor de lixo plástico do mundo, mas recicla apenas 24,5% desse resíduo.
Helen encontrou em um dos principais problemas do planeta a fonte de inspiração para seu projeto de mestrado. Ainda em suas pesquisas iniciais, ela identificou a indústria de embalagens como principal fonte de poluentes para o meio ambiente devido ao curto prazo entre produção e descarte.
“O objetivo do trabalho é substituir isso [o plástico] por algo biodegradável. E daí não vai ter esse impacto ambiental, já que no final ele vai formar um ciclo”Helen Kotekewis
Destacado pela pesquisadora como uma alternativa para sanar essa questão, o trabalho desenvolveu um tipo de filme biodegradável que consegue substituir o plástico convencional em embalagens flexíveis, especialmente na indústria alimentícia. O setor de alimentos é um dos principais demandantes do material, alcançando cerca de 20% da produção no Brasil.
A partir da mistura de amido (natural, extraído do milho) e álcool polivinílico (PVA, sintético), Helen conseguiu criar um material mais resistente à umidade, biodegradável e com propriedades funcionais que prolongam a vida útil dos alimentos. A blenda – termo utilizado para quando se misturam dois tipos de polímeros – criada por Helen também contém aditivos naturais como lignina (resíduo da indústria de papel, com propriedades antioxidantes e antifúngicas) e ácido málico (proveniente de frutas como a maçã).
Processo e resultados
Ao longo da pesquisa, Helen estudou diferentes formas de produção e combinações de aditivos até chegar à formulação mais eficaz: uma blenda composta por 75% de amido e 25% de PVA, acrescida de lignina e ácido málico. A escolha desses aditivos levou em conta tanto o desempenho técnico do material quanto seu custo e viabilidade prática.
Os aditivos naturais, além de reduzirem significativamente a absorção de umidade – fator essencial para embalagens flexíveis –, também melhoraram as propriedades mecânicas e conferiram efeitos antifúngicos e antioxidantes ao material sem prejudicar sua transparência ou capacidade de se degradar no meio ambiente.
Com a adição de lignina, resíduo da indústria do papel, a pesquisadora observou melhora nas propriedades mecânicas e térmicas, além de redução de até 35% na absorção de umidade e efeitos antifúngicos e antioxidantes – características especialmente relevantes para a conservação de alimentos.
Já o ácido málico, proveniente de frutas como a maçã, contribuiu para uma redução de até 30% na umidade e manteve a transparência dos filmes, favorecendo sua aplicação comercial. Quando combinados, os dois aditivos resultaram em um material com alta resistência à água, sem comprometer a biodegradabilidade nem causar impactos tóxicos ao ambiente.
A partir de técnicas acessíveis, a pesquisa demonstra como a ciência pode transformar resíduos industriais e substâncias naturais em soluções sustentáveis para problemas urgentes da sociedade, como o impacto ambiental causado por plásticos de curto ciclo de vida. O estudo, portanto, avança no desenvolvimento de embalagens ativas e sustentáveis, apontando caminhos reais para reduzir o impacto ambiental do descarte de polímeros de curto ciclo de vida.
Plástico no meio ambiente
O descarte incorreto de plásticos é um problema mundial, e a indústria alimentícia é uma das que mais usa esse tipo de material. Em uma visita rápida a um supermercado, você consegue perceber que, com exceção de algumas embalagens em papel ou alumínio, nossa comida está quase sempre embalada em plásticos que depois vão para o lixo.
“A indústria de embalagens é uma das principais poluentes porque tem um curto prazo entre a produção e o descarte. No Brasil, esse é um dos principais problemas ambientais que a gente tem hoje”Helen Kotekewis
Até cerca de 1970, a quantidade de plástico produzida no mundo era relativamente pequena, mas passou a crescer, desde então, mais rápido que qualquer outro material. No início dos anos 2000, a quantidade de resíduos plásticos aumentou mais em uma única década do que nos 40 anos anteriores.
Alguns materiais têm maior taxa de reciclabilidade e menor índice de downcycling (perda de qualidade com a reciclagem, inviabilizando seu retorno à cadeia de embalagens de alimentos), como o PET (polietileno tereftalato, o plástico tipo 1), enquanto outros, especialmente as embalagens flexíveis e multicamadas (que incorporam diferentes tipos de polímeros na composição) apresentam maior dificuldade para serem reciclados, e não raramente terminam sendo encaminhados ao aterro sanitário.
“A gente sempre ouviu que precisava preservar o meio ambiente, mas agora está tendo consequências mais graves, que a gente vê no dia a dia”Helen Kotekewis
De acordo com Panorama de Resíduos Sólidos no Brasil, cada brasileiro descarta em média 382 quilos de resíduo sólido por ano. Apesar de ter aumentado, a reciclagem ainda tem uma participação pequena nessa destinação: 8% do total dos resíduos. A maior parte chega até a reciclagem pelas mãos de catadores informais – só um terço do que se recicla no Brasil vem dos serviços oficiais de coletas seletivas.
Pensando no futuro
Embora ainda em estágio de pesquisa laboratorial, o estudo deixa uma mensagem clara: é possível produzir materiais mais sustentáveis sem abrir mão da eficiência. O desafio, agora, é transformar inovação em políticas públicas e tecnologia acessível, para que a sustentabilidade deixe de ser exceção e se torne padrão.
No crescente cenário de crise climática e ambiental, a pesquisa de Helen reforça o potencial transformador da ciência aplicada, que une conhecimento técnico, consciência ecológica e inovação. “Não é só sobre terminar uma pesquisa, mas sobre criar soluções reais para o mundo real. O impacto só acontece quando a ciência sai do laboratório e chega até as pessoas”, conclui a cientista. [1], [2]
[1] Texto de Marcelo Rosinski
[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/jornal/estudo-desenvolve-filme-biodegradavel-como-alternativa-ao-plastico-convencional-em-embalagens/
Como citar esta notícia: UFRGS. Estudo desenvolve filme biodegradável como alternativa ao plástico convencional em embalagens. Texto de Marcelo Rosinski. Saense. https://saense.com.br/2025/08/estudo-desenvolve-filme-biodegradavel-como-alternativa-ao-plastico-convencional-em-embalagens/. Publicado em 25 de agosto (2025).