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22/10/2026

O que está acontecendo com a nossa comida?
Foto: Flávio Dutra/JU

Quem tem o costume de acompanhar notícias e novidades do mundo da alimentação já deve ter reparado matérias sobre produtos lançados pela indústria que podem confundir o consumidor na hora da compra. É o caso do composto lácteo em pó, mistura láctea condensada, bebida láctea fermentada e, agora mais recentemente, wafer recheado com cobertura sabor chocolate e do preparado lácteo análogo ao queijo. Muitas vezes, esses produtos ainda apresentam a mesma identidade visual dos produtos “originais” e estão dispostos ao lado deles nas gôndolas, causando ainda mais confusão nas pessoas. São produtos similares mas que, diferentemente dos originais, possuem composição pior e podem se configurar como produtos ultraprocessados. Todos eles possuem a característica de serem mais atrativos economicamente, pois têm ingredientes de menor qualidade em sua fabricação e um sabor semelhante ao do produto “primário”.

Vamos pegar o exemplo do composto lácteo em pó. O que o diferencia do leite em pó? A resposta é tão simples quanto a pergunta: a sua lista de ingredientes! Quando em dúvida sobre qual produto escolher, opte sempre por aquele que possui a lista de ingredientes menor e com a composição que você consiga identificar o que é, sem nomes complexos ou termos que tenham saído de laboratórios.

Dessa forma, a dica dada pelo jornalista estadunidense Michael Pollan, em seu livro “Em defesa da comida”, continua atual: evite tudo que sua avó não identificaria como comida.

O leite em pó, geralmente, possui uma lista de ingredientes enxuta, com o leite devendo ser o primeiro da lista e, quando fortificado, as vitaminas e minerais que completam a lista. Já o composto lácteo em pó, que por regra deve possuir pelo menos 51% de sua composição em forma de leite, é constituído também por vitaminas, minerais, maltodextrina (um tipo de açúcar), fibras, soro do leite e mais outros aditivos. Os fabricantes podem até tentar argumentar que o composto lácteo é mais completo justamente por incluir esses outros ingredientes, mas, se o consumidor é levado ao engano pela embalagem e pela comunicação visual, talvez esse argumento não seja válido.

Apesar de todos os cuidados que possamos ter como consumidores, sempre haverá uma parte de nosso consumo em que não teremos muitas condições de prestar atenção: aqueles ingredientes utilizados pelos restaurantes que frequentamos e/ou de onde pedimos comida por delivery. Claro que existem restaurantes que primam pela qualidade dos insumos utilizados em suas preparações, mas tomemos cuidado com aquelas promoções absurdamente baratas de lanches, pizzas e outros tipos de comida no geral: elas podem estar sendo feitas com queijo que não é queijo, com leite que não é leite ou com leite condensado que não é leite condensado. Justamente por estarem utilizando esses ingredientes é que conseguem chegar a um preço tão competitivo. Ao vislumbrar um preço muito barato de comida, principalmente nesses aplicativos de entregas, lembrem-se que não existe almoço grátis nem almoço barato demais. Alguém sempre está pagando a conta, e tomem cuidado para que esse alguém não seja a sua saúde. 

Dessa forma, o melhor a se fazer é evitar ao máximo produtos ultraprocessados na nossa alimentação do dia a dia, como recomenda o Guia Alimentar para a População Brasileira. Sendo assim, deixamos para ocasiões esporádicas esse consumo, podendo cair em alguma promoção imperdível do restaurante no aplicativo de entregas de comida ou então em algum evento com preparações que utilizem ingredientes duvidosos em um final de semana com os amigos.

Em todos os outros momentos possíveis, a dica para não ser enganado e comprar um produto pensando ser outro é ler atentamente as listas de ingredientes. Às vezes, rolam promoções honestas, sim, mas estejam sempre atentos. Duvidem do produto barato com a promessa de toneladas de benefícios e nutrientes. É muito grande a chance de ele ser um ultraprocessado com cara de fofo.

Por essas e por outras que, no contexto atual, alimentar-se pode ser desafiador. Não basta sentir fome para comer. Ao que tudo indica, vamos precisar cada vez mais exercitar nosso senso crítico e também nossa capacidade de interpretação de texto dos rótulos para não cairmos em armadilhas alimentares. De modo algum minha intenção aqui é “tocar o terror”; não, deixo isso para quem gosta de dizer que carboidrato é perigoso. Meu objetivo é que os produtos similares não sejam difundidos como saudáveis e que as pessoas não sejam enganadas. O poder de compra dos brasileiros não pode ser justificativa para a criação de produtos nada saudáveis, cada vez mais cheios de ingredientes de baixa qualidade, e que tentam enganar o consumidor. Todas as pessoas merecem saber o que estão comendo e as consequências daquilo que comem. Temos o direito de não ser levados ao erro, o direito de comer e comprar comida de verdade. Precisamos defender o nosso direito à alimentação digna, saudável e em quantidade suficiente em todas as etapas das nossas vidas. [1], [2]

[1] Texto de Fabiana Tanabe

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/jornal/o-que-esta-acontecendo-com-a-nossa-comida/

Como citar esta notícia: UFRGS. O que está acontecendo com a nossa comida? Texto de Fabiana Tanabe. Saense. https://saense.com.br/2026/10/o-que-esta-acontecendo-com-a-nossa-comida/. Publicado em 22 de outubro (2026).

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