Jornal da USP
15/04/2026

Vestígios arqueológicos encontrados no sítio Namorotukunan, no noroeste do atual Quênia, indicam que os primeiros parentes e ancestrais humanos mantiveram o desenvolvimento e uso de ferramentas de pedra por cerca de 300 mil anos, enquanto passavam por mudanças climáticas severas. Estudos anteriores sugeriam que instrumentos do período Paleolítico eram desenvolvidos de forma não sistemática, usados esporadicamente e, em seguida, descartados. Publicada em um artigo na Nature Communications, a descoberta é a evidência mais antiga da tecnologia dentro da Formação Koobi Fora, uma das formações geológicas mais importantes para o estudo da evolução humana.
Ainda é incerto qual seriam os hominídeos em questão. A hipótese é de que um grupo precoce de Homo ou Australopithecus tinha uma compreensão aguçada das propriedades das rochas usadas na fabricação dos artefatos. Mesmo que outros tipos de rochas estivessem disponíveis, a preferência dos grandes primatas era por matérias-primas de granulação fina. Lâminas, por exemplo, eram feitas com calcedônia, rocha rara e ideal para itens afiados — o que revela a seletividade por trás da escolha. O padrão de lascamento das pedras, como indicado pelos ângulos, e onde golpeavam também é um indicador da habilidade técnica desses ancestrais.
Os instrumentos foram recuperados de sedimentos que datam de 2,75 a 2,44 milhões de anos. Para chegar às descobertas, foram quase dez anos de escavações na região, que contaram com a ajuda de uma equipe de pesquisadores internacionais — entre eles Dan Palcu, geocientista e pesquisador do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. “Mais de 30 pessoas estão envolvidas e participaram dos esforços para tentar resolver esse enigma que foi por muito tempo o sítio de Namorotukunan”, conta Palcu em entrevista ao Jornal da USP. Ele foi chamado para integrar o projeto no sexto ano de escavação, quando a equipe encontrou dificuldades para entender o contexto geológico do sítio de Namorotukunan.
A tecnologia olduvaiense é a indústria lítica mais remota da qual se tem conhecimento. Como sítios arqueológicos olduvaienses com mais de 2,6 milhões de anos são raros, os artefatos encontrados oferecem aos pesquisadores uma perspectiva quase única quanto à estabilidade tecnológica dos primatas e seus ancestrais.
Mais perguntas que respostas
Os achados de Namorotukunan levantam novas perguntas sobre os primeiros hominídeos. No entendimento anterior de paleoantropólogos, a confecção intencional de ferramentas de pedra — e sua subsequente evolução com técnicas mais complexas — surgiu com a aparição do Homo habilis e do Homo erectus, entre 2,4 e 1,8 milhões de anos atrás, respectivamente. No entanto, já que os artefatos recuperados ultrapassam esse período de tempo e indicam seletividade na escolha das rochas usadas para as ferramentas; Palcu acredita ser preciso repensar alguns aspectos da evolução humana.
“A nossa pesquisa quebra paradigmas já bem estabelecidos”, afirma ele. Segundo o pesquisador, era aceito que o uso de ferramentas de forma constante e o cérebro cada vez maior de hominídeos, como o Homo erectus, estavam relacionados. E a evolução cognitiva que acompanhou essa transformação teria resultado em instrumentos mais complexos. “Mas o Homo erectus, que é descrito como o hominídeo que usava ferramentas de pedra, e até mesmo o Homo habilis, são muito mais novos comparados a essas ferramentas [de Namorotukunan]”.
Agora os artefatos pintam um cenário diferente. Como explica Palcu: “Seres muito diferentes, bem peludos e baixinhos, com um cérebro de um terço do volume do Homo erectus, provavelmente estavam usando essas ferramentas e passando o conhecimento de uma geração para outra”. Ferramentas da tecnologia olduvaiense, a indústria lítica mais remota da qual se tem conhecimento, são frequentemente associadas ao Homo habilis, que as usava para obter e processar alimentos. A presença de marcas de abate nos ossos de animais encontrados em Namorotukunan reforça o papel dessas ferramentas na busca de alimento dos hominídeos.
A equipe chegou às conclusões combinando métodos geológicos: análise de cinzas vulcânicas, assinaturas químicas das rochas e variações magnéticas registradas nos sedimentos. “No final, depois de dez anos, conseguimos juntar evidências muito mais abundantes do que um estudo padrão. A gente consegue colocar em um gráfico a evolução da temperatura, mas, mais importante, a evolução do regime de chuva, das precipitações e da vegetação”, diz Palcu. No total, foram mais de 1.300 artefatos escavados e todos irão para o Museu Nacional do Quênia.
Palcu também destaca que o trabalho não teria sido possível sem a ajuda da comunidade tradicional Daasanach, em Ileret, uma vila no condado de Marsabit, no norte do Quênia. Ele conta que foram eles os responsáveis por guiar os pesquisadores pelo sítio arqueológico.
Filhos de uma crise climática
A análise do contexto geológico de Namorotukunan permitiu que pesquisadores reconstruíssem o ambiente em que viviam esses hominídeos, entre o final do Plioceno e o início do Pleistoceno, há aproximadamente 2,75 milhões de anos. Os pesquisadores observaram que, nesse período, a Bacia de Turkana, onde está localizado o sítio arqueológico, passou de uma planície úmida e fértil para um local árido e instável. Para Palcu, as mudanças climáticas tornam a constância tecnológica ainda mais impressionante.
“A gente vê que o momento em que se encontra grande volume de ferramentas é imediatamente quando começa a ter uma crise climática”, observa. As mudanças forçaram os hominídeos ao improviso, principalmente em relação à comida e ao abrigo. “De uma certa forma, isso significa que, se esse é o início do uso constante da tecnologia, a nossa humanidade é a ‘criação’ de uma crise climática. Se tratava de um grupo com pouca capacidade cognitiva, mas que se juntaram e passaram o conhecimento de um para o outro para sobreviver. E eu acho que isso é uma lição para nós”, conclui Palcu.
“Somos filhos de uma crise climática. Agora entramos em outra — e ninguém sabe que humanidade vai emergir. Acredito que, como tantas vezes aconteceu ao longo da nossa história evolutiva, sairemos transformados e, espero, mais preparados para cuidar deste mundo que molda quem somos” – Dan Palcu
Não se sabe ao certo a qual grupo de hominídeos esses artefatos pertencem, por tratar-se da “zona cinzenta” da pré-história, isto é, período em que registros arqueológicos são escassos, os fósseis de primatas encontrados são fragmentos limitados e mal preservados — o que explica a insegurança de paleoantropólogos em classificá-los. Os pesquisadores têm suas hipóteses: se as ferramentas não foram feitas por um Homo primitivo, o outro candidato mais provável seria o Australopithecus.
Uma das especulações de Palcu é o A. afarensis, do gênero Australopithecus. Ainda assim, ele percebe certa relutância da comunidade acadêmica com a hipótese. “Acredito que os Australopithecus foram injustiçados por décadas. Existe um viés antropocêntrico — um ‘preconceito’ acadêmico — que reluta em aceitar que a tecnologia possa ter surgido fora da nossa linhagem direta”, afirma ele. “Se aceitarmos isso, a história da inteligência tecnológica torna-se muito mais antiga.”
A expectativa é que a resposta seja definida em breve. Em 2025, a equipe encontrou a parte inferior de um crânio, que, diferentemente de outros achados, está bem preservado. Agora, com a colaboração do Instituto Max Planck, na Alemanha, eles trabalham para determinar a espécie exata: “Estamos com os dedos cruzados, pois este achado deve finalmente revelar quem eram os verdadeiros artesãos dessas ferramentas no leste de Turkana”.
O artigo Early Oldowan technology thrived during Pliocene environmental change in the Turkana Basin, Kenya pode ser acessado neste link.
Mais informações: dan.palcu@gmail.com, com Dan Palcu [1], [2]
[1] Texto de Amanda Nascimento
[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/ferramentas-de-pedra-revelam-desconhecida-estabilidade-tecnologica-de-nossos-ancestrais/
Como citar este texto: Jornal da USP. Ferramentas de pedra revelam desconhecida estabilidade tecnológica de nossos ancestrais. Texto de Amanda Nascimento. Saense. https://saense.com.br/2026/04/ferramentas-de-pedra-revelam-desconhecida-estabilidade-tecnologica-de-nossos-ancestrais/. Publicado em 15 de abril (2026).