ESO
27/07/2026

Observações levadas a cabo com o Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul (ESO) revelaram evidências da existência dum objeto semelhante a um satélite no sistema CD-35 2722. Contrariamente aos satélites do nosso Sistema Solar, o objeto recém descoberto não orbita um planeta, o que levanta questões sobre como o designar, mas roda, sim, em torno de uma anã castanha, um objeto maior do que um planeta, que orbita a estrela CD-35 2722. A ser confirmada, esta poderá ser a primeira «lua» descoberta fora do nosso Sistema Solar.
Kevin Hoy, um estudante do ESO no Chile e autor principal do estudo publicado hoje na revista Nature, descreve o sistema que passou meses a analisar como “super estranho” em comparação com o nosso. O objeto maior e mais massivo deste jovem sistema é a estrela CD-35 2722, que tem cerca de metade da massa do Sol. Em órbita desta estrela encontra-se uma anã castanha, um objeto demasiado massivo para ser um planeta, mas demasiado pequeno para ser uma estrela. O objeto recém descoberto orbita, por sua vez, a anã castanha.
“Este sistema é um pouco difícil de definir utilizando termos comuns do nosso Sistema Solar, como “planeta” e “satélite”“, afirma Hoy, também afiliado à Universidade Diego Portales e ao Núcleo Milénio sobre Exoplanetas Jovens e suas Luas (YEMS), no Chile. O novo objeto, a que a equipa chamou de exossatélite, tem, pelo menos, a mesma massa que Júpiter, enquanto a anã castanha tem mais de 30 vezes a massa de Júpiter. “O exossatélite é claramente massivo o suficiente para ser um planeta, mas não orbita uma estrela, embora orbite um objeto que, por sua vez, orbita uma estrela. O facto de se achar no terceiro nível neste sistema leva-nos a querer identificá-lo como uma lua, mesmo que não se pareça em nada com as pequenas luas rochosas que vemos no nosso Sistema Solar.”
Este exossatélite ou “exolua”, um satélite natural fora do nosso Sistema Solar [1], é difícil de classificar, dadas as diferenças entre este sistema e o nosso. Alice Zurlo, diretora do YEMS e colaboradora no estudo, explica: “O satélite que parece termos identificado trata-se de um corpo gasoso gigante que orbita um companheiro de massa elevada, que por sua vez tem várias vezes a massa de Júpiter.”
“No Sistema Solar, existe uma delimitação clara entre os planetas e o Sol, pelo que definir elementos como satélites é simples. No CD-35 2722, onde as fronteiras entre estrelas, planetas e satélites se tornam difusas, torna-se mais complicado descrever o sistema“, acrescenta Alice Zurlo, que também é astrofísica na Universidade Diego Portales.
Independentemente do nome que se lhe dê, há anos que os astrónomos tentam detectar satélites fora do nosso Sistema Solar, mas ainda não foi descoberto nenhum com toda a certeza. Assim, apesar dos mais de seis mil exoplanetas descobertos até à data, temos apenas alguns candidatos a exossatélites identificados até agora mas cujas evidências que os apoiam são limitadas. Há alguns meses, uma equipa liderada por Quentin Kral divulgou observações realizadas com o Interferómetro do Very Large Telescope do ESO do sistema estelar HD 206893, que revelavam indícios de um satélite, mas esta detecção não é definitiva.
Para as observações de CD-35 2722, Hoy, Zurlo e a sua equipa usaram o instrumento CRIRES+ montado no VLT do ESO, recorrendo ao método que foi utilizado para descobrir o primeiro exoplaneta em torno de uma estrela semelhante ao Sol. Assim, com o método das velocidades radiais detectaram-se na anã castanha pequenas oscilações causadas pelo objeto que a orbita, no que a equipa considera ser uma forte evidência da existência desta “lua”. “Por mais exótico que seja, este sistema é verdadeiramente único e representa um importante avanço: a primeira detecção plausível de um exossatélite“, afirma Zurlo.
Para além do entusiasmo de descobrir novos tipos de objetos, a detecção de satélites noutros sistemas planetários pode ajudar-nos a compreender melhor quão diversas podem ser a sua formação e evolução. Com um espelho de 39 metros e instrumentação avançada, o futuro Extremely Large Telescope (ELT) do ESO permitirá aos astrónomos detectar exoluas mais pequenas. As descobertas que irão ser feitas com o auxílio do ELT levar-nos-ão com toda a certeza a reconsiderar mais ainda o modo como são atualmente classificados objetos planetários em sistemas diferentes do nosso. [2], [3], [4]
[1] Um satélite define-se como um objeto que orbita outro objeto e pode ser natural (como a nossa própria Lua) ou artificial (como uma nave espacial). Um exossatélite é um satélite situado fora do nosso Sistema Solar. Considera-se geralmente que uma exolua é um satélite natural que orbita um planeta ou outro objeto fora do Sistema Solar, embora não exista uma definição oficialmente aceite para o termo “exolua”.
[2] Este trabalho de investigação foi descrito num artigo científico intitulado “Planetary-Mass Exosatellite Detected Around a Star’s Substellar Companion” publicado na revista Nature (doi:10.1038/s41586-026-10751-w).
[3] Este texto foi traduzido por Margarida Serote
[4] Publicação original: https://www.eso.org/public/portugal/news/eso2610/
Como citar este texto: ESO. Detecção de nova exolua desafia definições cósmicas. Tradução de Margarida Serote. Saense. https://saense.com.br/2026/07/deteccao-de-nova-exolua-desafia-definicoes-cosmicas/. Publicado em 27 de julho (2026).