Matheus Macedo-Lima
15/03/2017

A terapia gênica vem se tornando realidade através da utilização de vetores virais e enzimas de edição do DNA. [1]
Num passado não muito distante imaginava-se que qualquer doença com causa genética seria incurável. Porém, para a ciência atual, o termo “incurável” está caindo em desuso.

O primeiro caso em que se substituiu “genes defeituosos” por “bons genes” em um paciente humano ocorreu em 1990. A mutação era no gene que fabricava a enzima adenosina desaminase. A paciente, uma garota de 4 anos chamada Ashanti DeSilva. O sintoma, imunodeficiência generalizada grave, também chamada “síndrome do bebê da bolha” por demandar o isolamento total da criança que é hipersensível a patógenos. Para o tratamento algumas células brancas do sangue de Ashanti foram extraídas e injetadas com um vírus para “forçar” a expressão do gene funcional, após a qual as células alteradas foram injetadas na paciente. A terapia foi um sucesso e hoje Ashanti, adulta, é um ícone do potencial da terapia gênica em humanos.

Desde então a ciência vem procurando doenças nas quais a indução da expressão de alguns genes pode restaurar o fenótipo saudável. Um relato extraordinário veio recentemente de um grupo de pesquisadores da Harvard Medical School no Massachusetts. Eles conseguiram prevenir o desenvolvimento de surdez em camundongos portadores de uma doença genética grave que causa surdez, perda de equilíbrio e cegueira, chamada síndrome de Usher [2].

Nessa doença as células ciliadas da cóclea no ouvido, as células do vestíbulo e as células da retina no olho degeneram ou se desenvolvem desorganizadas. Dependendo do gene em que a mutação ocorre, crianças podem nascer surdas e cegas ou adquirir progressivamente essas condições, além de apresentarem dificuldades de se equilibrar e aprender a caminhar.

No estudo, os cientistas estudaram um modelo da síndrome de Usher severa em camundongos, induzida por uma mutação no gene que produz a proteína harmonina. Esses animais desenvolvem disfunções auditiva e de equilíbrio severas. Utilizando microscopia eletrônica, os cientistas mostram que nos primeiros dias de vida, as células ciliadas da cóclea nos animais já apresentam função reduzida in vitro e se encontram desorganizadas. Por outro lado, os cientistas ressaltam que a mera existência dessas células nos mutantes possibilita uma janela terapêutica.

Com esse conhecimento, os autores do estudo desenvolveram em laboratório um vírus bastante eficiente para induzir a expressão da harmonina nas células do ouvido. Eles injetaram esse vírus nos camundongos recém-nascidos e mediram a função das células ciliadas e a sensibilidade dos animais a sons. O resultado foi impressionante. As células ciliadas não só apresentavam boa função in vitro, como os animais apresentavam sensibilidade auditiva próxima do normal. Eles conseguiam ouvir sons com intensidade próxima à de um sussurro! Além disso, o equilíbrio dos animais foi restaurado a níveis indistinguíveis dos animais-controle.

Apesar da raridade da síndrome de Usher em humanos, esse estudo é importante pois cerca de 50% dos casos de surdez são genéticos, hereditários e causados por mutações simples. Além disso, a surdez é a doença sensorial mais prevalente em recém-nascidos [3]. Descobrindo-se em que gene a mutação se encontra, pode-se fabricar um vírus que induz a expressão do gene funcional – o que também se aplica para diversas outras doenças que não afetam o sistema auditivo. Porém, vamos com calma. A eficiência e segurança do vírus desenvolvido nesse estudo ainda têm de ser comprovadas em humanos.

O futuro é promissor e está chegando rápido no campo da terapia gênica. Quem diria que um dia humanos se tornariam organismos geneticamente modificados para curar doenças!

[1] Crédito da imagem: Adaptação de Matheus Macedo-Lima a partir de duas imagens: [NIAID-NIH (Flickr) / Creative Commons (CC BY 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/niaid/14329622976/] & [johnthan (Pixabay) / Creative Commons CC0. URL: https://pixabay.com/en/dna-science-biology-research-718905/].

[2] B Pan et al. Gene therapy restores auditory and vestibular function in a mouse model of Usher syndrome type 1c. Nat Biotechnol 35, 264 (2017).

[3] RJH Smith et al. Deafness and Hereditary Hearing Loss Overview. University of Washington (2014).

Como citar este artigo: Matheus Macedo-Lima. Terapia gênica para a surdez. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/03/terapia-genica-para-a-surdez/. Publicado em 15 de março (2017).

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