UFRGS
17/07/2020

Plasma em bolsa satélite, após coleta por aférese. Foto: Divulgação/HCPA

Em março de 2020, Fábio Klamt é internado em decorrência da covid-19. O professor do Departamento de Bioquímica da UFRGS narra a sua recuperação em uma página de Rede Social. Pós-doutor pela Division of Therapeutic Proteins da Food and Drug Administration (FDA) nos EUA, mantém as relações de amizade construídas entre 2004 e 2006. É um comentário de um desses colegas na sua rede social que desperta em Klamt a saga em busca da conscientização e da pesquisa em torno do uso de plasma convalescente no tratamento do novo coronavírus. De lá para cá, Klamt manteve conversas com pesquisadores da UFRGS, com a imprensa e com a FDA para colaborar e incentivar pesquisas que usem o plasma positivo no Brasil. 

Em paralelo, o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA/UFRGS) iniciou uma corrida contra o tempo para que fossem autorizados junto ao Conselho Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) estudos sobre o tratamento da covid-19 utilizando plasma de pessoas imunizadas. De março até agora se passaram quatro meses. No final de junho, uma eternidade dada a urgência em se encontrar uma alternativa viável e segura para tratar o novo coronavírus, o Hospital de Clínicas recebe carta branca e anuncia o início da pesquisa que visa utilizar o plasma de pessoas que já contraíram o vírus e estão recuperadas como método de tratamento a pacientes em estado grave.

Leo Sekine, professor do Programa de Pós-Graduação em Medicina: Ciências Médicas da UFRGS e chefe do Serviço de Hemoterapia no HCPA, diz que o tratamento da covid-19 utilizando plasma de pessoas imunizadas é simples e pode ser amplamente utilizado em hospitais de todo o mundo. “O processo de coleta de doadores de plasma é conhecido de longa data, utilizado em outras epidemias como em SARS, MERS e Ebola , com resultados aparentemente favoráveis”. Veja mais explicações sobre essas epidemias em https://www.ufrgs.br/ciencia/o-salto-genetico-que-transformou-o-novo-coronavirus-em-um-especialista-em-infectar-humanos/.

O objetivo da pesquisa é verificar, principalmente, se a intervenção com o plasma pode acelerar a recuperação dos pacientes graves, em um primeiro momento, e o impacto na sobrevida, num segundo momento. “Esses pacientes podem ter algum tipo de benefício em termos de redução no risco de mortalidade com a utilização do plasma”, explica Sekine.

Em 3 de junho, a revista científica internacional JAMA publicou um artigo que analisou os “Efeitos da terapia com plasma convalescente no tempo de melhora clínica em pacientes graves e com risco de vida pela covid-19” (tradução nossa). Esse ensaio clínico randomizado mostrou que um subgrupo, composto por 103 pacientes em estado grave, tiveram um tempo de recuperação mais curto se comparados aos que não utilizaram o plasma convalescente como tratamento.

“Esse benefício era da ordem de cerca de 40% a mais de recuperação. A nossa pesquisa segue uma linha parecida com a apresentada neste estudo da JAMA: verificar a redução ou um encurtamento do tempo de melhora clínica entre os pacientes graves e, ainda, os impactos em sobrevida global”, salienta o professor Sekine.

Com poucas alternativas concretas e eficazes para tratar a covid-19, o uso de plasma sanguíneo de um paciente recuperado abre uma janela promissora no combate aos estragos provocados pelo vírus no organismo humano. Pesquisa semelhante está sendo desenvolvida na Unicamp, e o protocolo será aplicado no Hospital de Clínicas, em Campinas (SP). “O plasma convalescente surge como uma alternativa de implementação razoável e fácil, uma vez que a terapia com plasma é utilizada em larga escala em todo o mundo para fins diferentes. Agora, abrimos uma janela eficaz e facilmente acessível para a maioria dos hospitais em território nacional”, diz Sekine.

A coleta e o tratamento

Imagine uma legião de soldados do bem sendo injetados no seu corpo. Esse é o papel da transfusão do plasma de pessoas que já passaram e se recuperaram da covid-19 no organismo de pacientes em estado grave. A pesquisa do Hospital de Clínicas inicia com a coleta desse plasma. Até o momento, diversas pessoas se inscreveram voluntariamente para doar o material. A maioria delas reside na Região Metropolitana de Porto Alegre.

A coleta do plasma é feita através de um tipo especial de doação de sangue: a coleta por aférese . Um equipamento, diferente daquele usado para a doação de sangue convencional, recebe um kit descartável e de uso único. O sangue do doador passa pelo equipamento que faz, por meio do kit, a separação do sangue em diferentes frações. “A parte que nos interessa é o plasma. Então, somente ele será coletado do doador. Os demais elementos sanguíneos retornam”, explica Sekine.

O plasma, agora retido para doação, é colocado em uma bolsa satélite e será preparado para o congelamento. A partir disso, esse líquido ficará preservado até a necessidade de uso pelo paciente. A coleta do plasma leva em torno de 40 a 60 minutos, é seguro e com baixa incidência de efeitos adversos. O procedimento é semelhante ao que o HCPA realiza mensalmente com cerca de 150 a 200 doadores de plaquetas.

Pronto para ser usado no tratamento de pacientes em estado graves devido à covid-19, o plasma convalescente segue a mesma técnica da transfusão de sangue. “O tratamento é considerado uma transferência de imunidade passiva, em que anticorpos induzidos em pessoas curadas de covid-19 são transferidos a pacientes recém-infectados, inibindo a infecção celular e replicação viral. Desta forma, reduzimos potencialmente a gravidade do quadro, abreviando sua duração e reduzindo a mortalidade”, diz Sekine.

Essa técnica já foi utilizada em outros surtos, tendo resultados positivos. Entretanto, ainda não se encontra uma forte base em literatura quanto a sua eficácia. Por isso, pesquisas com plasma convalescente, como as que a UFRGS e a Unicamp estão desenvolvendo, são fundamentais.

Fábio Klamt, que participa como voluntário na pesquisa EPICOVID19-BR, o maior estudo populacional sobre o coronavírus no Brasil desenvolvido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e que já doou plasma quatro vezes, relata que a hipótese deste trabalho é, justamente, usar o organismo que já se defendeu à infecção provocada pela covid-19 para dar uma ‘segunda chance’ ao paciente em estado grave. “Os anticorpos produzidos pelo meu organismo (imunoglobulinas IgM e IgG) são os responsáveis por inativar o vírus. Eles são capazes de impedir que o microorganismo entre e infecte as células, se divida, se prolifere e aumente, o que acarreta em uma complicação provocada pelo vírus. Essa imunização, por meio de anticorpos doados por transfusão de plasma, é temporária. O plasma chega no paciente infectado como um tratamento, ou seja, uma chance do organismo dele responder à infecção e se recuperar. Não se trata de uma vacina ou da cura para a doença”, salienta ele.

Dentre os principais benefícios do tratamento com plasma convalescente estão a redução do grau de replicação do vírus e, com isso, a diminuição de magnitude de resposta inflamatória, reduzindo gravidade e morbidades associadas à doença.

A primeira doação de plasma feita no Rio Grande do Sul foi de Klamt e retirou Tarcísio Giongo, 63 anos, da UTI. O paciente recebeu a transfusão e saiu do coma induzido e da ventilação mecânica. O professor fez questão de conhecer o paciente. Confira AQUI.

Etapa da pesquisa

A coleta do plasma convalescente deverá se estender para o segundo semestre de 2020, sendo que até o momento 10 doações foram feitas. O próximo passo da pesquisa será relacionar os pacientes. Esses preencherão o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para, em seguida, serem definidos dois grupos: de intervenção e de controle.

O paciente que for alocado para o grupo de intervenção, receberá de 1-2 doses de plasma convalescente. “Este plasma será submetido a todo o regramento legal preconizado pela legislação brasileira que versa sobre o uso de hemocomponentes, conforme prega nota técnica recente que versa sobre o assunto”, explica Sekine.

Os recursos financeiros para a realização da pesquisa vieram por meio de doação. A equipe de pesquisa já foi capacitada, como também feita a compra de insumos e serviços voltados ao estudo.

Estudantes da UFRGS também participarão da pesquisa, por meio da seleção de bolsistas que trabalharão na coleta de dados. Para Sekine, o desenvolvimento de pesquisas desta natureza em universidades públicas federais no Brasil mostra que a academia, assim como instituições de saúde como o HCPA, tem o compromisso visceral de converter pesquisa em benefício para a sociedade. “Em um momento como o presente, não me parece que haja uma forma mais direta e clara de cumprir este ideal do que focar nossos esforços em trabalhos como esse, e em tantos outros que estão em andamento no HCPA e na UFRGS”.

As pessoas com plasma convalescente da covid-19 que tenham interesse em participar da pesquisa podem entrar em contato pelo e-mail: [email protected].

O relato de um paciente de covid-19

Fábio Klamt tem plasma convalescente. É paciente recuperado da covid-19. Os sintomas iniciaram em 13 de março, e foram 11 dias de febre intensa (38,6 graus Celsius) e complicações respiratórias na segunda semana. A partir daí, foi necessário buscar ajuda em hospital. “Acredito que eu fui acometido na primeira leva de coronavírus no país. As complicações levaram a pneumonia nos dois pulmões. O exame de sangue mostrou que eu estava com processo inflamatório e com saturação de oxigênio: abaixo de 90% (o normal é de 98%)”, conta.

Foram seis dias em isolamento na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ele não precisou de ventilação, mas recebeu o atendimento padrão previsto em protocolo. “Meu organismo respondeu prontamente ao tratamento com Azitromicina e Tamiflu. Recebi alta do hospital porque apresentava quadro estável e precisava liberar o leito – hoje um leito de UTI é artigo de luxo no Brasil e no mundo”.

Klamt ficou em casa, de quarentena, longe do filho pequeno, mas com a companhia dos seus pensamentos e da Internet para iniciar o debate em torno do uso de plasma convalescente no tratamento em pacientes graves de covid-19.

“Compartilhei a minha vivência porque considerei educado dizer às pessoas que eu tenho 44 anos, uma capacidade respiratória boa, mas o vírus não escolhe grupo. Não há estereótipo para o vírus”, reflete ele. [1]

[1] Texto de Nicole Trevisol.

Como citar esta notícia científica: UFRGS. Uma chance para a vida: pesquisa da UFRGS analisa tratamento com plasma convalescente. Texto de Nicole Trevisol. Saense. https://saense.com.br/2020/07/uma-chance-para-a-vida-pesquisa-da-ufrgs-analisa-tratamento-com-plasma-convalescente/. Publicado em 17 de julho (2020).

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