UFRGS
26/04/2022

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Um artigo publicado na Lancet Diabetes and Endocrinology, uma das revistas científicas mais importantes da área médica, avaliou casos de mortes de pessoas abaixo de 25 anos em decorrência de diabetes. A partir do Estudo de Carga Global de Doenças (GBD – sigla em inglês para Global Burden of Diseases, Injuries and Risk Factors, estudo de mortalidade e incapacidade causadas por 369 doenças e 87 fatores de risco) entre 1990 e 2019, pesquisadores vinculados a diversas instituições, incluindo a UFRGS, investigaram dados de 204 países e territórios com população superior a um milhão de habitantes. Os cientistas concluíram que o acesso gratuito ou facilitado à insulina pode evitar a maior parte dos óbitos por diabetes, já que as regiões com maiores índices de mortalidade pela doença possuem baixos índices de desenvolvimento. 

O estudo incluiu óbitos por diabetes tipo 1 e tipo 2. A diferença entre os dois tipos é que, no primeiro caso, o sistema de defesa destrói células capazes de produzir insulina, fazendo com que o açúcar presente no sangue não seja transformado em energia. No segundo tipo, o organismo não usa a insulina de maneira eficiente ou há pouca produção do hormônio, aumentando o nível de açúcar circulando no sangue. 

A partir das análises, constataram-se cerca de 16.300 mortes por diabetes 1 e 2 somadas no mundo no ano de 2019, com 73% sendo diabetes tipo 1 e 27% diabetes tipo 2. Os resultados intrigaram os pesquisadores devido ao fato de que a maior parte dos falecimentos poderiam ser facilmente evitados caso houvesse acesso gratuito ou facilitado à insulina – invenção cuja descoberta completou 100 anos em 2021 – e oferta de cuidados básicos em saúde. 

Em relação às variações por região, os cientistas observaram que quanto menor o índice sociodemográfico do país maior a mortalidade por diabetes na população jovem: 97% dos casos são de países de baixa e baixa-média renda. Os países com os piores resultados são: Indonésia, Papua Nova Guiné e Brunei (sudeste da Ásia), Moçambique e Zimbábue (sul da África), Haiti (América Central) e Venezuela e Paraguai (América do Sul). 

Também há países que melhoraram seus índices nos últimos 30 anos: entre as nações de baixa renda, a Etiópia reduziu os casos em 52%; Camboja (baixa-média renda), em 51%; e Cuba (média renda) reduziu em 64%. Em comparação com países de alta renda, os países citados possuem quase quatro vezes mais mortes de jovens por diabetes. 

Importância de sistemas públicos de saúde 

No Brasil, observou-se uma diminuição de 74,5% nas mortes por complicações agudas – categoria que inclui a diabetes – em pessoas com menos de 40 anos de 1991 a 2010 após a implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), com a disponibilização gratuita de insulina e crescimento da Atenção Primária em Saúde. Para Ewerton Cousin, doutor em Epidemiologia pela UFRGS e um dos autores do trabalho, o padrão brasileiro deve ser utilizado como referência por países de baixa e baixa-média renda. 

“A insulina foi patenteada para ser distribuída no mundo todo de maneira igual. Mas não são todos os países que têm condições de bancar o custo para todos os seus cidadãos”, comenta Ewerton. “Temos que levar em conta qual o custo do governo ou se cada um tem que pagar do próprio bolso, como nos Estados Unidos, que é um país muito rico cujo governo quer baixar o custo da insulina para cada cidadão, para que as pessoas consigam ter acesso”, completa.  

A professora da Faculdade de Medicina da UFRGS e coautora Maria Inês Schmidt defende que também são necessárias melhorias no sistema de mortalidade nos países de péssimos indicadores, já que a falta de informações no obituário é recorrente. Há problemas que vão desde a inexistência de dados sobre o tipo exato da diabetes (1 ou 2) até a falta de informações para caracterizar o óbito, atrapalhando a qualidade de dados. 

Bruce Duncan, também professor da Faculdade de Medicina da UFRGS e coautor do trabalho, ainda diz que não há dados o suficiente para cada país e cada doença atualizados por ano e que há lacunas em algumas informações. “Muitas vezes o paciente morre numa situação onde o médico que o atendia durante a vida não está presente [no preenchimento do obituário]”, comenta o professor. Como o médico que preencheu o obituário não sabe o tipo de diabetes do paciente, acaba registrando a informação incompleta. 

Diagnóstico na juventude 

Maria alega que de 30% a 50% das crianças com diabetes tipo 1 só são diagnosticadas quando entram em coma e pelo fato de os sintomas piorarem rapidamente. As características iniciais do diabetes tipo 1 são sentir sede excessiva e vontade de urinar com mais frequência. Em poucos dias, o quadro pode evoluir para cetoacidose diabética, uma complicação aguda grave. 

No caso do diabetes tipo 2, o diagnóstico é ainda mais difícil de ser feito, devido à falta de sintomas. “Existe uma regra geral que diz que 50% dos pacientes com diabetes tipo 2 não sabem que estão doentes”, comenta a professora. “Nos países com melhores recursos financeiros, esses números melhoram”, acrescenta. 

Para evitar complicações da doença, a professora diz que o diagnóstico precoce é fundamental. Ela sugere que, no caso da diabetes tipo 1, é necessário que pais e profissionais das escolas saibam identificar os sintomas iniciais da doença. No caso do diabetes tipo 2, cujos sintomas são mais leves, a prevenção se dá pela combinação de atividade física no dia a dia e alimentação saudável e balanceada. 

Receios do impacto da covid 

Por ser um estudo que utilizou um recorte até 2019, os dados acabaram não incluindo a influência da pandemia de covid-19 na pesquisa. Ewerton conta algumas ideias para estudos futuros, mencionando os seguintes questionamentos: 

“Qual foi o efeito da covid?, Aumentou a incidência de diabetes?, Teve efeito na cadeia de distribuição da insulina?, Como foi o impacto para as pessoas que tiveram menos acesso ao atendimento, ao cuidado básico?” 

Ewerton Cousin 

A ideia é analisar como os países de baixa renda se comportaram nesse período e examinar como foi o impacto na cadeia de produção e distribuição da insulina – já que há países que dependem de importação do remédio. Outro aspecto que chama a atenção dos pesquisadores é que estudos recentes têm mostrado uma relação entre covid-19 e diabetes. Bruce ressalta que o risco de diabetes aumenta em 40% para pessoas que contraíram covid-19, complementando que o mundo não está capacitado para lidar com o aumento na incidência da doença. Se o estudo publicado na Lancet mostrou a dificuldade de tratamento de pacientes que já possuíam a doença, agora existem novos casos derivados da pandemia, fazendo com que a pesquisa futura sobre o assunto seja praticamente inevitável, completa Maria Inês. [2] 

[1] Foto: Vinícius Marinho/Fiocruz

[2] Texto de Gabhriel Giordani

Como citar esta notícia: UFRGS. Estudo global evidencia mortes evitáveis de pessoas com diabetes abaixo de 25 anos por diagnósticos e tratamentos inadequados. Texto de Gabhriel Giordani. Saense. https://saense.com.br/2022/04/estudo-global-evidencia-mortes-evitaveis-de-pessoas-com-diabetes-abaixo-de-25-anos-por-diagnosticos-e-tratamentos-inadequados/. Publicado em 26 de abril (2022).

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