UFRGS
29/09/2022

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Assim como se confeccionam roupas sob medida, a tecnologia assistiva – área do conhecimento que engloba produtos, práticas e serviços para melhorar a funcionalidade de pessoas com deficiência, mobilidade reduzida ou limitações físicas – e a fabricação digital permitem fazer próteses mamárias externas, aparelhos auditivos, braços e pernas, assentos, tudo personalizado. Esse trabalho é desenvolvido na UFRGS há cerca de 20 anos e se consolidou após a criação do Programa de Pós-graduação em Design em 2007. Para que o avanço acontecesse, marcos decisivos foram a criação de políticas públicas para garantir os direitos da pessoa com deficiência (Decreto Nº 7.612/2011) e (Lei n.º 13.146/2015), como acesso à educação, saúde, cultura, inclusão social e acessibilidade. Os próprios jogos Paralímpicos de 2016, realizados no Brasil, foram importantes para disseminar a cultura de inclusão na sociedade.

“Nesse contexto, houve importante desenvolvimento da área, com um crescente número de projetos. Infelizmente, a crise econômica impactou o fomento à área, fazendo com que houvesse uma redução no número de projetos desenvolvidos nos últimos anos. Para que haja real aplicabilidade, sempre buscamos validar os desenvolvimentos junto a usuários e, nesse sentido, a pandemia também foi um entrave. Não estamos parados, mas espero que nos próximos anos possamos retomar com força o ritmo das pesquisas”, relata o coordenador do Laboratório de Design e Seleção de Materiais (LDSM) da UFRGS, Fabio Pinto da Silva.

Fabio ainda explica que a nomenclatura ‘tecnologia assistiva’ é de uso recente, enquanto o conhecimento e a prática nessa área já existiam há mais tempo – havia, por exemplo, as expressões ‘ajudas técnicas’ e ‘fabricação digital’, sendo que esta, embora já existisse, veio a ser difundido recentemente.

“Trabalhos nessa área sempre foram importantes e continuam sendo. Eles visam proporcionar autonomia, independência, qualidade de vida e inclusão social a pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida”

Fabio Silva

Raquel Sudbrack, mestranda no Programa de Pós-graduação em Design, diz que sempre gostou de se envolver com projetos que pudessem ajudar as pessoas e que tivessem um propósito social. “Nesse caso, ainda tenho a possibilidade de aprender sobre uma ferramenta como o scanner 3D e, além disso, a oportunidade de aplicar esse conhecimento em parceria com a área da saúde. Foi o que mais me motivou.” A digitalização 3D é realizada com um equipamento – no caso do estudo de Raquel, um escaner portátil – que obtém modelos digitais a partir da captura da superfície dos objetos físicos. “Na minha pesquisa, o equipamento foi usado para escanear a região dos seios de mulheres mastectomizadas, ou seja, de mulheres que fizeram a cirurgia de retirada da mama. Assim, essa região do corpo foi capturada e obtida digitalmente. A partir disso, foram realizadas os modelos de próteses mamárias externas adaptadas a cada mulher que foi escaneada”, conta.

Tecnologia em benefício das mulheres

O câncer de mama é o segundo mais comum entre as mulheres e o que apresenta a maior taxa de mortalidade. A mastectomia, seguida ou não da reconstrução mamária, é uma das estratégias terapêuticas utilizadas em 70% das pacientes. Quando a reconstrução mamária não é realizada, as pacientes podem recorrer à utilização de próteses externas. “A partir do uso de recursos altamente tecnológicos, tais como a digitalização 3D e a nanotecnologia, bem como a utilização de uma adequada seleção de materiais e de um processo de produção personalizado, pretende-se ampliar a sensação de conforto e bem-estar em mulheres pós-mastectomizadas”, destaca a professora do PPG em Design Mariana Pohlmann, à frente de um estudo sobre personalização de próteses mamárias externas iniciado em 2018.

Mariana relata que, no caso dos produtos voltados às mulheres e da pesquisa em andamento, a grande vantagem da utilização de tecnologias 3D (que incluem tanto a digitalização quanto a impressão) é a possibilidade de personalização.

“Diferentemente dos produtos padronizados que estão disponíveis no mercado, ao utilizar tais tecnologias, as mulheres têm a possibilidade de receber um produto feito sob medida”

Mariana Pohlmann

A pesquisadora explica que esse conhecimento pode influenciar de muitas formas a vida das mulheres, porque, se a reconstrução mamária não é realizada (devido a idade, falta de informação, questões financeiras, ao medo de passar por uma nova cirurgia ou à necessidade de fazer radioterapia), as pacientes podem apresentar alterações no controle postural que se refletem no equilíbrio estático e dinâmico (em marcha), com aumento da instabilidade, bem como do desconforto no pescoço e nas costas. “Além das questões físicas, muitas vezes, as pacientes enfrentam uma série de problemas psicológicos, como depressão e ansiedade, devido ao receio da discriminação social. No intuito de minimizar o desconforto e ampliar os benefícios trazidos pela utilização de próteses mamárias externas, a pesquisa apresenta o design como ferramenta central capaz de articular as relações entre forma, material e processo de fabricação”, explica.

Impactos para as pessoas com deficiência

Mesmo sendo difícil estimar o número de pessoas beneficiadas, uma vez que as possibilidades são muitas, dados do IBGE de 2018 apontam que 12,7 milhões de pessoas têm algum tipo de deficiência no Brasil, ou seja, 6,7% da população. Só na Associação Leopoldense de Deficientes (Aldef) há 2,5 mil deficientes cadastrados atualmente e que podem ser impactados pelo conhecimento produzido na Universidade, inclusive para conseguir trabalho.

O presidente da Aldef, Ademar José dos Anjos, constata que a acessibilidade de pessoas com deficiência melhorou nos últimos anos, embora ainda faltem muita sensibilidade e oportunidade no mercado. Por exemplo, empresas estão abertas à contratação, porém não têm adaptações para receberem esses sujeitos.

“A lei garante reserva de vagas a PCDs em empresas a partir de 100 funcionários, mas na prática isso não ocorre como deveria. As pessoas gostam de ajudar quando aparecem na mídia”

Ademar dos Anjos

As políticas e as pesquisas científicas e tecnológicas são fundamentais para ajudar esse público. Por meio delas, são desenvolvidos produtos, equipamentos, dispositivos, recursos, metodologias, estratégias, práticas e serviços. “É importante dizer que, para atingir a inovação de fato, ou seja, para os resultados efetivamente chegarem à sociedade, são necessários investimentos e parceiros para a difusão comercial. Posso citar alguns exemplos de trabalhos já realizados ou em andamento: assentos para cadeiras de rodas; órteses e próteses diversas; aplicação da tecnologia assistiva em atividades de idosos, em escolas, no ensino e na comunicação alternativa; recursos táteis para pessoas com deficiência visual”, enfatiza Fabio.

Ele ressalta ainda o papel do design como transdisciplinar, envolvendo aspectos materiais, de fabricação, de ergonomia, de sustentabilidade. “Um dos grandes diferenciais do designer é que ele é capaz de converter as necessidades do usuário em requisitos de projeto.” Para isso, o aporte de recursos é essencial. “Em geral, priorizamos processos de baixo custo, o que pode facilitar a difusão dos resultados, mas, sem investimento, é impossível”, conclui. [1]

[1] Imagem: Mariana Pohlmann/Arquivo Pessoal.

[2] Texto de Elstor Hanzen.

Como citar esta notícia: UFRGS. Tecnologias assistivas ganham impulso com a praticidade da impressão 3D. Texto de Elstor Hanzen. Saense. https://saense.com.br/2022/09/tecnologias-assistivas-ganham-impulso-com-a-praticidade-da-impressao-3d/. Publicado em 29 de setembro (2022).

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