UFMG
29/11/2022

Fixação dos suportes de costura: detalhes dos suportes de um livro germânico do século 15 e tipologia de fixação das pastas (Foto: acervo Lagrafi/UFMG | Desenho: Laura Soares)

Especialista na história do livro, da edição e da encadernação no século 19, tema de diversas publicações suas ao longo dos últimos dez anos, a professora Ana Utsch, da Escola de Belas Artes da UFMG, assumiu uma empreitada que a fez recuar muito no tempo. No volume Panorama de la encuadernación, lançado em setembro deste ano por um consórcio de editoras universitárias latino-americanas, a pesquisadora oferece a um público mais amplo que o da “extrema especialização” a oportunidade de conhecer o universo da materialidade do livro desde o século 4.

A obra, disponível nas versões impressa e eletrônica, integra a coleção Breve biblioteca de bibliología, projeto de divulgação científica que inclui mais cinco volumes. De acordo com Ana Utsch, a iniciativa é inédita na América Latina. “A coleção tem forte caráter interdisciplinar, e seu público-alvo abrange estudantes, pesquisadores e profissionais de áreas como o design, a história e a conservação-restauração de documentos gráficos”, explica a professora da EBA, que é vinculada também ao Programa de Pós-graduação em Estudos Literários, da Faculdade de Letras.

Para a abordagem dos assuntos relacionados aos tempos mais antigos, Ana Utsch recorreu a publicações de colegas que os estudaram a fundo. Para o que se refere ao período iniciado no século 15, ela tirou partido de sua experiência no Laboratório de Conservação-Restauração de Documentos Gráficos e Fílmicos, da Escola de Belas Artes, onde coordenou diversos projetos ao longo da última década, dedicados à compreensão dos diferentes modos de produção na era do livro impresso.

A obra dialoga com questões que habitam o campo da bibliologia. Para começar, mostra como a encadernação se situa dentro das disciplinas relacionadas ao estudo do livro. A encadernação é tratada como tecnologia que deu origem ao próprio livro, mais que como objeto. A autora oferece um olhar diversificado e atualizado sobre a historiografia que se interessou pelo tema.

Matrizes e técnicas
O passo seguinte do volume é sintetizar as formas como se constituíram os primeiros textos que, a partir do século 17, ao menos no mundo ocidental, registraram a história dos modos de produção do livro. “Inicialmente, os registros se constituíram de forma muito fragmentada, e o tema só ganhou alcance com os grandes tratados alemães e franceses do século 18. Nos dois séculos seguintes, multiplicaram-se os manuais e os discursos histórico-bibliográficos”, relata Ana Utsch, que está em Paris para estudos de pós-doutorado na École de Hautes Études en Sciences Sociales.

Panorama de la encuadernación distingue as duas principais matrizes históricas da encadernação – a mediterrânea, de origem africana, e a ocidental, de origem europeia – e se detém, então, nos elementos que dão base às técnicas que predominaram na Idade Média, no Ocidente: a encadernação carolíngia, primeira modalidade do mundo ocidental, praticada entre os séculos 7 e 11, a românica, que predominou entre os séculos 11 e 14, e a gótica, que nos séculos 14 e 15 sofreu transformações suscitadas pela expansão do uso do papel como suporte de escrita. Depois vêm as técnicas associadas à era da imprensa. “Tentei todo o tempo, ainda que de forma pontual, fazer referências aos contextos de produção, apropriação e circulação do livro”, salienta a professora da UFMG.

A concepção de sua obra foi guiada, segundo Ana Utsch, por preocupações como a de dar conta das principais questões da produção de encadernação relacionadas à difusão dos objetos da cultura impressa. Nesse contexto, como registra o texto de apresentação do volume, “as relações entre materialidade e textualidade ganham nova forma de visibilidade nas capas das encadernações de editor, que marcam a chegada da modernidade no mundo editorial”. Ela lembra que o livro-objeto, produto acabado, surgiu no século 19; antes, o livro saía da editora em folhas, e o encadernador era contratado pelo livreiro ou pelo próprio comprador – apenas excepcionalmente o editor se encarregava dessa tarefa.

No final do livro, em abordagem de bibliologia prática, a autora propõe diálogo entre encadernação e conservação de acervos bibliográficos. Ela lembra que a preservação de livros esteve por muito tempo associada aos objetos raros ou de luxo, e, nesse contexto de exceção, grande parte da memória desses objetos do passado acabou se perdendo. “A história da encadernação foi, por longo período, pautada exclusivamente nos sistemas decorativos, nobiliários, o que tem muito pouco a ver com a realidade histórica dos livros e da circulação”, diz Ana Utsch. “Ainda hoje há conflito entre os campos da conservação e da encadernação, mas o universo da codicologia [o estudo da estrutura física do livro] tem apresentado as melhores possibilidades e soluções para as questões relativas à conservação e restauração desses objetos.”

LivroPanorama de la encuadernación
Autora: Ana Utsch
Edição: Ediciones Uniandes, Universidad de los Andes (Colômbia); Editorial Universidad de Guadalajara (México); Universidad Nacional de Villa María (Argentina) e Ediciones Universidad Católica de Chile
193 páginas
ColeçãoBreve biblioteca de bibliología
Disponível nas versões impressa e e-book

(Itamar Rigueira Jr.)

Como citar este texto: UFMG. Livro de professora da Belas Artes e da Fale oferece um passeio pela história da encadernação. Texto de Itamar Rigueira Jr.. Saense. https://saense.com.br/2022/11/livro-de-professora-da-belas-artes-e-da-fale-oferece-um-passeio-pela-historia-da-encadernacao/. Publicado em 29 de novembro (2022).

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