UFRGS
03/05/2023

Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU 12 jul. 2008

Nos últimos anos, casos de depressão têm aumentado em todo o Brasil. De acordo com pesquisa do Ministério da Saúde publicada no ano passado, cerca de 10% dos brasileiros foram diagnosticados com a doença no ano de 2021. Marcando um avanço nos estudos sobre causas, impactos e tratamentos da doença, um grupo de pesquisadores do Brasil e da França chegou à conclusão de que uma proteína rejuvenescedora chamada GDF11 está reduzida durante a depressão, o que se relaciona com a perda de concentração e memória e também com o envelhecimento acelerado observado na doença. A redução dessa proteína afeta tanto a neurogênese (formação de neurônios) quanto a autofagia, um processo catabólico responsável pela limpeza de estruturas e proteínas residuais nas células — neste caso, nos neurônios. 

Nesse estudo, cujos resultados foram publicados na revista Nature Agingo professor Flávio Kapczinski, do departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da UFRGS, trabalhou em conjunto com um grupo de pesquisadores do Instituto Pasteur, na França. Os cientistas observaram que, em quadros de depressão ou na fase depressiva do transtorno bipolar, ocorre uma inflamação pelo corpo, semelhante a uma gripe. Buscando entender os efeitos dessa condição, o grupo verificou que quanto mais vezes uma pessoa tem depressão ou quanto maior é a duração da doença, maior é a inflamação. Considerando que uma pessoa que tem depressão por muito tempo começa a ficar com problemas de concentração e memória, os pesquisadores relacionaram esses problemas à condição inflamatória e a associaram à redução da proteína GDF11. 

“Na depressão, é como se a pessoa envelhecesse mais rápido: chamamos isso de envelhecimento acelerado. Como os pesquisadores do Pasteur tinham essa molécula [GDF11] ligada a um rejuvenescimento, veio a hipótese: será que, na verdade, junto com essa inflamação, não vem também uma redução dessa molécula de rejuvenescimento? Foi daí que veio a pesquisa”

Flávio Kapczinski

Realizada por meio de uma metodologia translacional, em que são feitos experimentos laboratoriais em animais e em humanos, os pesquisadores, através do método ELISA (metodologia que se baseia em reações antígeno-anticorpo detectáveis por meio de reações enzimáticas), injetaram em camundongos a corticosterona, hormônio do estresse, induzindo um comportamento depressivo nos animais. Ao medirem o índice de GDF11 nos camundongos, os pesquisadores verificaram que a proteína fora reduzida. Quando a proteína GDF11 foi reposta, o animal deixou de apresentar comportamento depressivo.

Quando o índice da proteína GDF11 foi medido em pessoas jovens diagnosticadas com depressão, se verificou o mesmo: estava reduzida, indicando que o envelhecimento acelerado em quem tem depressão ocorre mesmo na juventude. 

Um processo duradouro e minucioso

Todo trabalho tem seus desafios. Das dificuldades enfrentadas pelo professor Kapczinski e seus colegas pesquisadores, a lentidão da pesquisa foi a maior delas. Foram 18 experimentos realizados entre 2018 e 2023, com a conclusão da pesquisa em fevereiro deste ano. O professor ainda diz que a formatura e a consequente saída de pós-doutorandos que estavam participando da pesquisa também foi um problema no curso do trabalho. “Demorou tanto que foi desmotivando os pesquisadores. A gente teve que se manter firme, fazendo aos pouquinhos cada um dos experimentos”, ele diz. Quanto à saída dos pós-doutorandos, a manutenção de uma central com todos os dados apurados pelos pesquisadores ao longo da pesquisa foi essencial para que as informações não se perdessem. 

Essa demora na pesquisa decorreu em virtude da necessidade dos pesquisadores de mostrar o mecanismo pelo qual o processo acontece. Ou seja, mostrar que a proteína estava baixa na depressão e que fazendo a reposição da proteína no organismo o paciente saía da depressão através da autofagia. “Inicialmente tínhamos a ideia de que a proteína estaria baixa na depressão, e que dando a proteína melhoraria a depressão. Mas que era por meio da autofagia, isso a gente não sabia. Tivemos que ir testando vários outros mecanismos até isolar esse da autofagia”, relata o professor Kapczinski. Esse detalhamento foi necessário, ainda, para que o estudo fosse publicado na revista Nature Aging.

Estendendo os estudos em GDF11

Os pesquisadores ainda não sabem se o estudo irá proporcionar um novo tratamento da depressão. A lógica é que se poderia estudar um novo tratamento com base no fator GDF11, combatendo os problemas de memória que pacientes relatam não serem resolvidos com os tratamentos atuais. Há, ainda, a dúvida sobre a possibilidade de a proteína poder ser administrada em humanos, uma vez que pode causar alergias.

Dando continuidade à linha de suas pesquisas voltadas aos mecanismos pelos quais ocorrem depressão e bipolaridade e a descoberta de novos tratamentos, o psiquiatra agora trabalha em um estudo em que pretende verificar se a demência também pode ser uma falha na proteína GDF11. “A medição dessa proteína em pacientes com depressão e demência há muitos anos é algo que já está em andamento”, conta. [1], [2]

[1] Texto de Alexandre Briozo Gomes Filho.

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/ciencia/estudo-revela-os-mecanismos-que-causam-o-envelhecimento-acelerado-em-pessoas-com-depressao/.

Como citar esta notícia: UFRGS. Estudo revela os mecanismos que causam o envelhecimento acelerado em pessoas com depressão. Texto de Alexandre Briozo Gomes Filho. Saense. https://saense.com.br/2023/05/estudo-revela-os-mecanismos-que-causam-o-envelhecimento-acelerado-em-pessoas-com-depressao/. Publicado em 03 de maio (2023).

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