Jornal da USP
15/05/2023

Imagem: OpenClipart-Vectors / Pixabay

Por Henrique Braga, doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Marcelo Módolo, professor da FFLCH-USP

Ser professor de Língua Portuguesa no Brasil pode provocar algumas situações constrangedoras. Ao contrário do que se possa pensar, não tratamos aqui daquela suposta “dor no ouvido” que docentes mais “sensíveis” alegam sofrer quando ouvem variantes linguísticas como “pra mim fazer” ou “vamos à praia se fazer calor”. Não é isso. O constrangimento ocorre quando, ao nos apresentarmos como docentes do idioma, recebemos de volta sinceros pedidos de perdão: “Nossa, eu não sabia! Eu falo tudo errado, vou tomar mais cuidado”, e por aí vai. Nesse momento, é como se fôssemos representantes do império lusitano, imbuídos da missão de completar a implantação da língua de Camões na ignara colônia – “Ah, esta terra ainda vai cumprir seu ideal”, diria o poeta.

O triste dessas situações é verificar empiricamente que certa tradição de ensino da língua materna produziu considerável distanciamento afetivo entre os falantes e seu idioma, falantes a quem sua própria língua parece não pertencer. E não se trata de um acaso: uma série de práticas escolares criou apátridas linguísticos, que chegam a afirmar que “a língua portuguesa é muito difícil”, sem atentar ao paradoxo de essa declaração ser feita em perfeito português.

Esse breve desabafo foi inspirado por alguns vídeos que recentemente tiveram ampla repercussão em redes sociais, “ensinando” diminutivos e aumentativos à plebe incompta. A estratégia adotada é velha conhecida dos estudantes do Brasil: “copázios”, “régulos”, “opúsculos”, “bocarras” e “radículas” desfilam em forma de listas a serem memorizadas. Saber português, nessa perspectiva, seria dominar termos inusuais, que generosos sábios colheram nos inacessíveis jardins da norma-padrão, para aplacar o eterno desconhecimento do populacho – nos mesmos moldes já criticados por outro Braga, mais ilustre, na belíssima crônica “Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim”.

No caso das listas que “viralizaram”, os termos citados realmente são formas aumentativas ou diminutivas da língua portuguesa. No entanto, é bastante redutor dizer que aquelas são as formas “corretas”. Mais do que isso, estudar esse tema apenas com base em listas implica alguns riscos, que decidimos enumerar. Segue então nossa “antilista”:

  1. O primeiro risco é, elegendo uma única forma “certa”, reforçar a ideia de que o usual é equivocado. Tomar “bocarra” como “o aumentativo correto” sugere que formas como “bocão”, “bocona” ou “bocaça” – todas registradas no Volp (o vocabulário da ABL) – estariam erradas.
  2. O segundo risco é, considerando as palavras fora de contexto, não identificar em qual acepção a forma aumentativa ou diminutiva faz sentido. Um exemplo: “nótula” é o diminutivo de “nota” no sentido de “anotação”, uma “nótula” é um “comentário breve”. Se um estudante é malsucedido em um exame e diz que tirou uma “nótula”, o termo é descabido. Outro exemplo: “opúsculo” é uma pequena “obra” no sentido de obra literária, filosófica, um “opúsculo” é um livreto. Se alguém chamar um empreiteiro para fazer uma pequena obra, não se trata de um “opúsculo”.
  3. O terceiro risco é o pedantismo. Usar formas não usuais, sobretudo em conversas cotidianas, tende a causar distanciamento entre os interlocutores. Dizer para uma jovem recém-entrada na adolescência que ela já é uma “mocetona” não parece um meio de gerar simpatia.
  4. O quarto e último risco desta nossa “antilista” é ignorar que o uso de aumentativos e diminutivos tem implicações semânticas importantes, que vão além do tamanho. Os aumentativos, por vezes, assumem valor depreciativo. O termo “medicastro”, formado com sufixo aumentativo, não se refere exatamente a um grande médico, mas a um charlatão. Semelhantemente, um “poetastro” é um mau poeta. Já os diminutivos, mesmo quando indicam tamanho menor, podem ter sentidos especializados. Um “versículo” não é apenas um verso pequeno, sobretudo no contexto religioso. Uma “partícula” nem sempre é vista como uma pequena parte de um todo maior, mas apenas como algo pequeno.

Por fim, reforçamos ainda que a proficiência no idioma não se atinge pela memorização, embora esse método tenha sido bastante usado no passado. Hoje, podemos inclusive recorrer a uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que, refletindo o atual estágio dos estudos linguísticos, confere maior relevância a temas associados à variação linguística, análise do discurso, semântica, sem ignorar as correlações entre esses campos e os conhecimentos gramaticais. Em suma, sobram razões para afirmar que não se domina um idioma decorando listas. [1], [2]

[1] Texto de Henrique Braga e Marcelo Módolo.

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/artigos/nem-so-de-bocarras-e-notulas-se-faz-uma-lingua/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Nem só de bocarras e nótulas se faz uma língua.  Texto de Henrique Braga e Marcelo Módolo. Saense. https://saense.com.br/2023/05/nem-so-de-bocarras-e-notulas-se-faz-uma-lingua/. Publicado em 15 de maio (2023).

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