SBF
13/06/2023

Crédito: canva.com

A ciência tem demonstrado que a Terra está se aquecendo em razão do uso intensivo de combustíveis fósseis pela humanidade desde o início da Revolução Industrial, cujas emissões cresceram 0,9% para 36,8 bilhões de toneladas em 2022, alcançando níveis recordes segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Os cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) avaliam que é preciso fazer com que as emissões caiam em 50% até em 2030, zerá-las antes de 2050, tudo para evitar que o mundo se aqueça para além do nível crítico de 1,5 Cº acima dos níveis pré-industriais ao longo deste século. Efeitos do aquecimento já são sentidos ao redor do mundo com a ocorrência de eventos climáticos extremos, como já tem ocorrido no Brasil.

De acordo com a AIE, as emissões de CO2 só não foram maiores no ano passado devido ao uso de energias renováveis como a solar e a eólica. Mas, se por um lado essas tecnologias colaboram na redução de emissões, por outro têm efeitos diretos e indiretos sobre a degradação do meio ambiente. Para discutir os desafios da sustentabilidade ambiental na área, a SBF entrevistou especialistas e representantes das energias nuclear, solar, eólica e hidrogênio verde.

Energia Nuclear –A energia nuclear, por exemplo, passa por uma grande controvérsia. Enquanto a Alemanha concluiu a desativação de todas as suas usinas no fim de março, a Finlândia inaugurou a maior usina da Europa pelos mesmos motivos: sustentabilidade. Criticadas há anos por ambientalistas em decorrência dos efeitos ao meio ambiente e à saúde como reflexo de vazamentos tóxicos de reatores ou do descarte do material radioativo, há grupos que defendem essa como uma solução às emissões de CO2.

“É muito importante ter em mente que não existe qualquer forma de produção de energia que não cause um determinado impacto ao meio ambiente. Todas as fontes energéticas, sem exceção, causam algum impacto”, afirma a engenheira nuclear Alice Cunha da Silva, membro do Comitê Executivo da Seção Latino Americana da Sociedade Nuclear Americana (LAS/ANS) e do Grupo Mulheres em Inovação Nuclear.

“É importante dialogar sobre essa tecnologia, investigar informações em fontes confiáveis e debater sem pré-conceitos. Diversas organizações como o IPCC, que emite os relatórios desenvolvidos por cientistas de dezenas de países do mundo, já deixaram claro que não alcançaremos os objetivos climáticos sem utilizar a tecnologia nuclear”, afirma a cientista, que vê o movimento da Alemanha uma exceção, uma vez que há um acordo de 11 países europeus para que a União Europeia amplie o uso dessa energia, que considera limpa.

Alice argumenta que o processo de mineração é extremamente regulado, que já existem tecnologias para dar conta do rejeito de usinas nucleares, que o setor aprendeu com os erros do passado e elevou a segurança das usinas e que a alta densidade energética do combustível produz uma grande quantidade de energia. “Uma pastilha de Urânio de 7g produz aproximadamente a mesma quantidade de energia que uma tonelada de carvão. Essa energia também utiliza um espaço muito pequeno, ou seja, usa pouco espaço de terra/terreno para produzir grandes quantidades de energia. O que significa um impacto ainda menor.”

Energia solar – Já a energia que vem do sol é celebrada como uma das mais limpas e promissoras. Em 2022, o Brasil entrou no ranking dos 10 maiores produtores mundiais de eletricidade solar com um total de 24 GW, o que lhe garantiu a 8ª posição. Mas, com a expansão de parques solares pelo Brasil, áreas têm sido desmatadas para dar lugar às placas fotovoltaicas, especialmente na caatinga da Paraíba. Além de causar impacto no meio ambiente, o modelo de usinas gigantescas não beneficia as comunidades locais.

“Essa é uma questão muito importante, os painéis a princípio tem impacto ambiental reduzido. Veja que a decisão de desmatar a caatinga, não é uma necessidade da tecnologia. Os painéis solares poderiam ser instalados em qualquer local. Seria interessante usar esse caso e possivelmente outros como exemplos a não serem seguidos”, diz o físico Carlos Graeff, professor da Faculdade de Ciências da Unesp em Bauru, no interior de São Paulo.

Para ele, os benefícios das usinas solares são muito claros, especialmente se sua utilização está substituindo usinas à base de gás, diesel ou carvão. “Ela certamente contribui para uma geração de eletricidade sem resíduos tóxicos e que geram efeito estufa. Quando o tema é desigualdade, usinas pequenas em áreas remotas é sem dúvida a melhor opção para levar eletricidade para comunidades carentes em regiões como a Amazônia”, explica.

“Os benefícios são claros, energia renovável, sem geração de resíduos tóxicos (ou geradores do efeito estufa) no seu funcionamento. O local de instalação deveria ser preferencialmente aqueles de áreas onde não haja impacto ambiental, ou cujo impacto seja minimizado, por exemplo, colocar os painéis em lagos. A sociedade, em princípio não precisa renunciar a nada diferente de qualquer empreendimento ambientalmente sustentável.”

Energia Eólica – A energia que vem do vento tem estimulado grandes empreendimentos no Brasil, especialmente no Nordeste. De acordo com a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), a capacidade instalada em operação comercial hoje no Brasil é de 25,4 GW. “O Brasil terá cerca de 44,78 GW de capacidade eólica instalada até 2028. A projeção para os próximos anos é de um crescimento entre 3 GW a 4 GW por ano”, informa a assessoria de imprensa da entidade.

Mas, muitas vezes, esses empreendimentos ocupam áreas antes destinadas à sobrevivência de uma população que ainda enfrenta o ruído constante das pás, que gera grande incômodo. E a Universidade Federal do Ceará aponta que, além do desmatamento de áreas, a construção de empreendimentos de energia eólica tem causado impermeabilização do solo, que prejudica o reabastecimento de aquíferos. Nas estradas, caminhões pesados geram vibrações que têm rachado casas e cisternas. Há, ainda, reflexos na movimentação de dunas e morte de aves com o impacto nas pás.

“Do ponto de vista setorial, olhando o cenário geral, a eólica já é uma fonte consolidada e reconhecida como uma fonte de menor impacto ambiental e que protege o meio ambiente e contribui para as metas de descarbonização. Eventuais desafios de implantação são regionais e específicos”, informa a ABEEólica.

Segundo a entidade, a energia eólica faz parte de um mercado extremamente regulado no setor de energia. “Por essa característica e pelo porte de infraestrutura de um parque eólico, as empresas do setor têm que cumprir uma série de estudos, realizar audiências públicas e fazer planejamentos minuciosos através do processo de licenciamento ambiental muito antes de colocar um parque em operação. Nesse sentido, as regras e leis estaduais e municipais são cumpridas à risca, mas é sabido que, ainda que seja uma fonte de energia renovável, há impactos socioambientais. Tanto no período de instalação dos parques, como durante sua operação. Vale ressaltar que a energia eólica é a 2ª fonte de energia renovável com o menor impacto ambiental, registrando apenas 14g de CO2 por kWh, ficando atrás apenas da nuclear com 12g por kWh. E junto com solar, são as fontes mais competitivas financeiramente.”

Hidrogênio Verde – Considerado como o futuro que impulsionará a mobilidade urbana e a agricultura, o hidrogênio verde atualmente é aquele obtido da união entre painéis fotovoltaicos e estações eólicas com eletrolisadores que podem fornecer a energia necessária para promover, em contato direto com a água, a separação do hidrogênio do oxigênio. Hoje, em sua maioria, o hidrogênio é obtido por meio de um processo de reforma do gás metano, que gera CO2. Há uma busca pela redução das emissões, usando energias renováveis na geração de energia, mas ainda assim obtendo o produto final a partir do metano.

A princípio, o maior impacto é o uso da água. Relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado no fim de março alertou para um risco de escassez global de água, que pode se tornar mais freqüente na América do Sul. E cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo sofrem com falta de água potável, cerca de 26% da população mundial.

Flávio Leandro de Souza, pesquisador líder e coordenador do Programa de Hidrogênio Verde do Laboratório Nacional de Nanotecnologia do Centro Nacional de Pesquisa em Energias e Materiais (LNNano/CNPEM), explica que a forma mais limpa de hidrogênio seria obtida a partir da água do mar via fotoeletrólise. A fotoeletrólise, ainda uma tecnologia em desenvolvimento, tem como fundamento o uso de materiais abundantes, não tóxicos em sua maioria, capazes de absorverem a luz do sol e na presença da água do mar, por exemplo, quebrar a molécula da H2O, em H2 e O2, de forma sustentável e limpa, livre de intermediários.  Mas considera que mesmo esse combustível provoca impactos ambientais, especialmente porque o setor depende da mineração para obtenção de minerais usados em reatores e eletrodos, que transformam o hidrogênio em eletricidade.

“Não há uma tecnologia capaz de realizar algo 100% livre de emissão de carbono ou mesmo sem causar danos ao meio ambiente. Portanto, o produto H2 ’verde’, pode vir a se tornar uma realidade considerando a expectativa de minimizar ao máximo a taxa de emissão de CO2, comparado ao método hoje comercial que tem como base a reforma de CH4 (metano). No entanto, se considerarmos a cadeia de produção ou obtenção de qualquer combustível fóssil em comparação com a produção de H2 verde, sem dúvida essa última continuará mais limpa e sustentável”, diz Souza.

Para a engenheira nuclear Alice, é o momento de buscar mitigar as emissões de CO2 usando diversas fontes alternativas. “O que é sempre preciso fazer é escolher um mix de energias limpas, que causem o menor impacto possível, mitigar o impacto que é produzido, mas permitindo segurança no fornecimento e sempre pensando em justiça energética.” Com ela, concorda Souza. “Não acredito em solução única, na minha opinião, os avanços de todas as novas tecnologias sustentáveis, renováveis que proporcionem o menor impacto quando comparado as tecnologias tradicionalmente utilizadas hoje, é que deverão compor essa revolução ou transição energética de baixo carbono.”

E você, já parou para refletir sobre o impacto que suas escolhas têm no mundo ao seu redor? [1], [2]

[1] Texto de Roger Marzochi

[2] Publicação original: https://sbfisica.org.br/v1/sbf/energias-alternativas-e-impactos-ambientais-consciencia-alem-das-aparencias/

Como citar esta notícia: SBF. Energias alternativas e impactos ambientais Consciência Além das Aparências.  Saense. https://saense.com.br/2023/06/energias-alternativas-e-impactos-ambientais-consciencia-alem-das-aparencias/. Publicado em 13 de junho (2023).

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