Jornal da USP
30/06/2023

Fotomontagem: Jornal da USP – Fotos: Freepik

Os jovens, não considerados diretamente como grupo de alto risco para a covid-19 no início da pandemia, tiveram suas necessidades amplamente ignoradas nas decisões políticas ao redor do mundo, o que resultou em prejuízos de longo prazo para essa população. É o que constata um relatório que acaba de ser lançado por um consórcio global de universidades liderado pela University College London (Reino Unido), do qual a Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP participa.

O relatório denuncia a lentidão na ação dos governos e as lacunas políticas nos esforços para impedir a propagação da covid-19 como elementos responsáveis por impactos negativos sobre a saúde e o bem-estar das crianças e dos jovens. Composto por múltiplas equipes, o trabalho está dividido em dois volumes: o Relatório Completo detalha os impactos mais amplos da pandemia na vida de crianças e jovens de três países estudados – Brasil, Reino Unido e África do Sul -, enquanto o Relatório Resumido destaca os impactos em todo o mundo.

Como resultado do isolamento social e dos impactos sociais e econômicos decorrentes das medidas restritivas durante a crise sanitária, a educação de crianças e jovens foi prejudicada, o acesso a uma alimentação nutritiva e saudável foi reduzido e a capacidade de se desenvolver socialmente por meio do lazer e do brincar foi significativamente restrita.

Esses impactos foram piores para aqueles que viviam em famílias pobres ou desfavorecidas em todo o globo. No Brasil, essas situações foram experimentadas em circunstâncias semelhantes ou ainda mais extremas, segundo o relatório.

Para a elaboração do documento, as equipes de pesquisa compilaram e revisaram diversos relatórios publicados e a literatura acadêmica sobre os impactos da pandemia de covid em crianças e jovens, com foco nos efeitos sobre o acesso à educação, à alimentação e ao brincar e ao lazer.

Impactos no Brasil e a participação da USP

Para Leandro Giatti, professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e coordenador da equipe brasileira da pesquisa, “além de produzir conhecimento relevante sobre como crianças e jovens foram afetados pela pandemia, a pesquisa também permite compreender a capacidade adaptativa deste grupo social tendo em vista o impacto difuso da crise sanitária global”, afirma.

No Brasil, a adoção de modelos remotos de ensino explicitou a exclusão digital que atinge boa parte da população, especialmente em domicílios e regiões com acesso insuficiente à internet. Considerando que 75% dos jovens brasileiros das classes mais baixas e com mais de 16 anos acessam a internet exclusivamente através do celular, a adoção de modalidades virtuais de ensino contribuiu para ampliar a lacuna de aprendizado, mostra o relatório.

Para Leonardo Musumeci, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da FSP e integrante do grupo de pesquisadores brasileiros, é importante ressaltar a atuação das escolas públicas nos territórios periféricos. “Por ser uma rede capilarizada e considerando sua forte presença no cotidiano das famílias, esses equipamentos foram decisivos, em muitos contextos, para manter o vínculo e o acompanhamento pedagógico de crianças e jovens, inclusive nas ações de promoção da saúde voltadas à orientação, informação e distribuição de recursos”, afirma.

O modelo de ensino remoto influenciou ainda no acesso a alimentos devido à interrupção dos programas de alimentação escolar. “O Auxílio Emergencial, assim como as ações de doação e distribuição de alimentos, foram cruciais para amenizar a extrema pobreza, mas foram amplamente insuficientes para conter o grave avanço da fome, que alcançou 33 milhões de brasileiros”, completa o pesquisador.

A situação de insegurança alimentar grave dobrou nos domicílios brasileiros com crianças de até 10 anos de idade, situação relacionada aos altos níveis de desemprego e consequente redução da renda familiar, somada à ausência de uma política rígida de controle de preços dos alimentos, segundo o documento.

De acordo com o relatório, as possibilidades de socialização e lazer foram extremamente reduzidas, concentrando-se principalmente em ambientes internos e virtuais. Nos territórios periféricos, onde predominam moradias precárias, coabitação e/ou adensamento excessivo, as possibilidades de cumprimento das medidas de distanciamento social. Da mesma forma, as alternativas de lazer praticamente inexistiam devido à falta de espaços abertos e áreas verdes.

O relatório aponta que os impactos gerados pela pandemia provavelmente terão consequências prejudiciais para crianças e jovens no curto, médio e longo prazo.

Para Luciana Bizzotto, pós-doutoranda da Faculdade de Saúde Pública da USP, a investigação “dá um importante passo ao reconhecer que esses sujeitos de direitos também transformam o mundo em que vivem e não estão passivos à realidade que os cerca”.

“É o que pretendemos mostrar nas próximas etapas, quando jogaremos luz em experiências, opiniões e sentimentos de crianças e jovens, especialmente aqueles que vivem em territórios urbanos em situação de vulnerabilidade socioambiental”, afirma ela.

Recomendações

Segundo a professora Lauren Andres (UCL Bartlett School of Planning), coordenadora da equipe internacional, a covid-19 expôs e exacerbou desigualdades que já existiam antes da pandemia. “As vozes e necessidades das crianças e jovens não foram ouvidas e consideradas. Nossa pesquisa mostra que, devido a lacunas políticas e ação lenta do governo durante a pandemia, crianças e jovens desfavorecidos enfrentam agora graves consequências e isso pode permanecer com eles por muito tempo”, diz.

Nesse sentido, a equipe de pesquisadores reuniu cinco recomendações para garantir que o bem-estar de crianças e jovens seja incorporado em qualquer planejamento pandêmico futuro. Essas sugestões incluem:

– A necessidade de manter as crianças e os jovens no centro da prevenção para uma pandemia;

– Maior prioridade e atenção às vozes ocultas e experiências dos jovens, particularmente os de famílias mais pobres;

– Maior reconhecimento de que as escolas desempenham um papel importante e central como centros de vida e cuidado;

– Maior reconhecimento do brincar e do lazer como direitos fundamentais da criança e do desenvolvimento dos jovens;

– Respostas mais estruturadas e sistêmicas às múltiplas dimensões do risco de respostas nacionais, com base em uma avaliação rigorosa do que funcionou e do que falhou durante a pandemia.

O consórcio global de universidades é formado pela USP, em parceria com University College London, University of Birmingham (Reino Unido) e University of Free State (África do Sul). A pesquisa é um resultado da primeira fase do projeto Panex-Youth, dedicado a entender como crianças e jovens se adaptaram à covid-19, com uma avaliação dos impactos da pandemia em três países: Reino Unido, África do Sul e Brasil. Trata-se de um financiamento conjunto do Economic and Social Research Council (ESR), da National Research Foundation (NRF) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Para acesso ao relatório nas versões completa e resumida, acesse o site.

Mais informações: Lauren Andres, e-mail l.andres@ucl.ac.uk; e Leandro Giatti, e-mail lgiatti@usp.br [1]

[1] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/politicas-na-pandemia-ignoraram-necessidades-de-longo-prazo-de-criancas-e-jovens/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Políticas na pandemia ignoraram necessidades de longo prazo de crianças e jovens. Saense. https://saense.com.br/2023/06/politicas-na-pandemia-ignoraram-necessidades-de-longo-prazo-de-criancas-e-jovens/. Publicado em 30 de junho (2023).

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