UFRGS
14/07/2023

Foto: Flávio Dutra/Arquivo JU 07 jun. 2020

Características intrínsecas à atividade profissional de policiais militares no Rio Grande do Sul – como tradição militar fortemente hierarquizada, dificuldades materiais e de efetivo, perigo inerente à profissão e falta de reconhecimento dentro e fora da corporação – estão ligadas ao adoecimento e ao sofrimento psíquico dessa classe. É o que aponta uma dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-graduação em Sociologia da UFRGS, intitulada “A Organização do Trabalho e o Sofrimento Psíquico de Soldados e Sargentos da Polícia Militar do RS”

No trabalho, a autora da pesquisa, Alexandra Estefânia Regner da Silva, se propôs a analisar de que forma o trabalho na corporação contribui para a produção de sofrimento mental em soldados e sargentos. A partir de um estudo de caso realizado com a 1.ª Companhia do 9.º Batalhão de Polícia Militar, no Centro Histórico de Porto Alegre, Alexandra realizou onze entrevistas semiestruturadas, observação e registro das impressões do processo de trabalho, além de manter um diário de campo.

Todo o processo de coleta de dados foi realizado em dois momentos: em 2016 foram entrevistados três soldados, quatro sargentos, o presidente da Associação Beneficente Antônio Mendes Filho, que representa soldados e sargentos da Brigada Militar, e ainda uma capitã médica psiquiatra. Em 2019, foram entrevistados dois sargentos que atuam no ambiente administrativo.

A autora chegou a três conceitos-chave de análise. O primeiro é o trabalho, compreendido pela formação dos policiais na corporação e pelo risco e perigo a que estão sujeitos. O segundo é a organização do trabalho, que abarca as condições laborais e a relação hierárquica. O último eixo de análise, o sofrimento psíquico, teve como focos a falta de reconhecimento e a insatisfação, fontes de tensão, indícios de adoecimento e estigmas.

Tensão dentro e fora da instituição

As condições de trabalho no período da pesquisa eram marcadas por dificuldades estruturais, de materiais e de efetivo. Segundo relatou o comandante da Companhia à pesquisadora, 61 policiais integravam a equipe à época, sendo que o ideal seriam 191. Ainda há a dificuldade de definir um escopo de trabalho, já que os policiais devem estar preparados para quaisquer situações, aliadas ao risco e ao perigo inerentes da profissão.

Esse perigo, reiterado por grande parte dos entrevistados, gera uma adrenalina que a pesquisadora relaciona à má avaliação de riscos e à tomada de decisões que fogem aos ensinamentos formais. Isso culmina em um processo em que esses riscos são incorporados ao cotidiano da profissão e banalizados. Em contrapartida, a pesquisadora analisa, “ao mesmo tempo é necessário saber lidar com essa adrenalina em muitas situações, senão você também não vai conseguir se posicionar em situações de confronto”.

Além disso, a formação possui tempo insuficiente e é distante da realidade. Alexandra aponta que o Curso Básico de Formação de Policial Militar, que dura em média de seis a oito meses para soldados, aborda mais os preceitos do militarismo do que as técnicas de trabalho. “Isso foi uma coisa que eles [os entrevistados] trouxeram muito, [o fato de] ter disciplinas que trabalhavam mais questões do campo militar.” Os PMs relataram ir para a rua “crus”, dando a entender que a formação acontece na prática. Ademais, os professores não possuem, em geral, uma formação pedagógica. 

A pesquisadora relata que, dentro da Companhia, a falta de equipamento ou a ineficácia dos que são fornecidos leva os policiais a adquiri-los por conta própria. Também há relatos de assédio moral. O estudo salienta que, como a cultura organizacional é baseada em hierarquia e disciplina, não se fala do assunto, e certos comandantes prejudicam subordinados em escalas e horários. 

Assim, a falta de reconhecimento institucional é muito presente e não há um plano de carreira que garanta a ascensão profissional de soldados, o que é possível somente por concursos internos, que são difíceis e geram desmotivação. Além disso, em 2016, na gestão do ex-governador José Ivo Sartori, época das primeiras entrevistas, ocorria um parcelamento de salário de servidores públicos do estado.

No entanto, a pesquisadora aponta que a falta de reconhecimento da população parece ser mais relevante para os policiais do que a falta de reconhecimento institucional. A maioria dos entrevistados demonstrou dificuldade em lidar com as críticas da população e alega que elas dizem respeito a uma minoria de profissionais.

Quando perguntados sobre o que os deixava insatisfeitos, a maioria dos entrevistados citou à falta de compreensão da população. Ao mesmo tempo, o mais satisfatório era conseguir resolver algum problema do cidadão. “[O que eles desejam] Não é só a questão da possibilidade da satisfação intrainstitucional, é a possibilidade de a sociedade os ver de forma positiva”, explica a autora.

Sofrimento psíquico, distanciamento e estigma

Trechos das entrevistas também mostram dificuldades em descansar e desligar-se do trabalho, já que os policiais estão de prontidão mesmo no horário de folga, além de privações de sono e relaxamento. Além disso, há um contato constante com a violência, da qual nem sempre é possível um distanciamento emocional.

Segundo Alexandra, todos contam histórias impactantes que por si só já podem levar ao adoecimento. E, para eles, uma forma de não entrar em contato com o sofrimento é justamente seguir trabalhando – o que, acrescenta, já pode apontar sinais de desgaste mental.

A médica psiquiatra ouvida no estudo relata ser difícil alguém procurá-la no início de algum quadro depressivo. Algo que é cultural, assim como a ideia recorrente de se lidar com dores sozinho e não evidenciar fragilidades. Na busca de esconder o sofrimento, alguns indivíduos procuram alívio em drogas como álcool e cocaína, o que é vinculado à visão institucional machista e à falta de informação e divulgação de serviços de assistência. “É como se a depressão atingisse só o cidadão que tá aqui fora, mas não é isso”, reitera Alexandra.

A consequência da procura por atendimento pode ser a internação ou o estigma. Alexandra aponta que está presente na cultura organizacional a ideia de que é fraqueza procurar acompanhamento e, além do preconceito com o tratamento em si, há o receio de que isso possa impactar na carreira dos profissionais. Dessa forma, resta apenas relegar o problema a si.

A dissertação também aponta que, apesar de ser um tema tabu, o suicídio é, de certa forma, banalizado na corporação. Os entrevistados relatam que, quando acontece o suicídio de algum colega, o ambiente volta ao normal após algum tempo. Para a autora, esse cenário demonstra que, além da falta de acolhimento de colegas, não há espaço para reflexão sobre o ocorrido.

A pesquisadora explica que já existe uma estrutura de atendimento em saúde mental, mas que ela é insuficiente. Ela aponta a necessidade de abordar esses assuntos na formação. Outro caminho possível é ter espaços de conversa e momentos de palestra para desmitificar o estigma do processo de adoecimento, “para que também se mude a visão que esse policial tem da instituição e saber que esse espaço vai apoiá-lo em situações de adoecimento”. [1], [2]

[1] Texto de Thiago Rodrigues Müller.

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/ciencia/estudo-explora-relacao-entre-trabalho-de-policiais-militares-do-rio-grande-do-sul-e-sofrimento-psiquico/.

Como citar esta notícia: UFRGS. Dissertação explora relação entre trabalho de policiais militares e sofrimento psíquico. Texto de Thiago Rodrigues Müller. Saense. https://saense.com.br/2023/07/dissertacao-explora-relacao-entre-trabalho-de-policiais-militares-e-sofrimento-psiquico/. Publicado em 14 de julho (2023).

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