Jornal da USP
13/07/2023

 Informação pode ser usada em futuros programas de medicina de precisão – Foto: Frepik / Fotomontagem Jornal da USP

Pesquisa coordenada pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), feita com 1.274 pacientes em sete países latino-americanos, revela que a maior carga genética de ancestralidade indígena está associada ao aumento no risco de cirrose grave e insuficiência hepática. Os resultados sugerem que a ancestralidade genética pode estar relacionada a uma resposta inflamatória mais intensa no fígado, e novas investigações poderão identificar os genes envolvidos no processo. As conclusões do trabalho estão reunidas em artigo publicado na revista científica Gastroenterology.

A insuficiência hepática é uma das manifestações da cirrose grave, com consequências para praticamente todos os órgãos. “Os pacientes podem apresentar fadiga, icterícia, isto é, cor amarela nos olhos, acúmulo de líquido, sangramentos, alterações neurológicas, infecções, entre outras complicações, e risco aumentado de câncer do fígado”, relata o professor Alberto Farias, que coordenou o estudo com o professor Flair José Carrilho no Departamento de Gastroenterologia da FMUSP. “Na fase inicial, a pessoa pode não ter manifestações clínicas ou ter sintomas inespecíficos e não desconfiar que está doente, a chamada cirrose compensada. Explica-se pelo fato de ser necessário ocorrer intensa lesão ou destruição do órgão para o surgimento das manifestações típicas.”

“A cirrose, por sua vez, tem diferentes causas. Muitas pessoas acreditam que o álcool é a principal, mas isto não é verdade. As hepatites crônicas provocadas por vírus e o fígado gorduroso são condições reconhecidamente importantes como causa de cirrose em nossa população”, destaca Farias. “A cirrose é responsável por uma em cada 25 mortes no mundo, com aproximadamente 2 milhões de casos, e no Brasil, representa a sexta causa mais comum de morte”.

O estudo, que reuniu 150 pesquisadores de 44 hospitais em sete países latino-americanos (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Paraguai e Peru), é denominado Prevalência, Epidemiologia, Caracterização e Mecanismos da Síndrome de Falência Aguda sobre Crônica do Fígado (Aclara). “Diferenças na ancestralidade genética ou raciais são descritas como fatores associados a evoluções distintas, ou seja, maior gravidade, em doenças caracterizadas por intensa inflamação”, explica o professor.

“Investigamos o peso da ancestralidade, avaliada por marcadores genéticos, e da raça na cirrose agudamente descompensada grave, condição caracterizada por inflamação, falência de órgãos e alto risco de mortalidade em curto prazo”. O estudo foi promovido e patrocinado pela Fundação Europeia para Estudo do Fígado (EF-CLIF), em Barcelona (Espanha).

Ao longo de quatro anos, foram recrutados 1.274 pacientes para a pesquisa, que comparou um grande número de genes de pessoas com ascendência nativo-americana (indígena) com grupos de ascendência europeia e africana, todos com cirrose agudamente descompensada. “Nesse sentido, vale enfatizar que não nos limitamos a registrar somente as características raciais”, observa Farias. “Isto porque uma pessoa pode ter traços físicos de uma raça e parte da carga genética de outra, o que é muito comum em países com processos de formação como os latino-americanos, onde ocorreu miscigenação de povos”.

“Concluímos que a cada 10% de ancestralidade nativo-americana, ou seja, DNA de origem indígena, aumenta-se em 8% o risco de forma grave de cirrose. Se for 20%, aumenta para 16%, e assim por diante”, destaca o professor. “Qualquer pessoa que tenha ancestralidade genética indígena se enquadraria neste perfil e muitos sequer desconfiam”.

O estudo também avaliou se este resultado refletiria apenas a desigualdade de acesso a hospitais de ponta. “Não foi o que observamos, o que de fato pesou foi a ancestralidade. Provavelmente a ancestralidade genética está relacionada à deflagração de uma resposta inflamatória mais intensa”, aponta Farias. “Nosso próximo passo será estudar detalhadamente os genes envolvidos e propor terapias mais específicas”.

Segundo o professor da FMUSP, a possibilidade de identificar pessoas com maior risco de desenvolver formas graves de cirrose poderá ser levada em consideração para futuros programas de medicina de precisão. “Essa é a expressão usada para o cuidado e acompanhamento médico personalizado, de acordo com as características de cada pessoa. Isto resulta em diagnósticos mais precoces, tratamentos mais eficazes e, no final das contas, menor risco de morte”, ressalta. “Não somente o paciente se beneficiaria. As políticas públicas podem ser influenciadas pela medicina de precisão, levando à redução dos custos para o sistema de saúde.”

Farias também enfatiza que a quantidade de casos de cirrose poderia ser drasticamente reduzida com acesso à informação de qualidade. “Álcool, vírus e obesidade estão por trás da maior parte dos casos. Campanhas educativas sobre risco de álcool e seu consumo limitado, testagem contra hepatites virais e vacinação, estilo de vida saudável com controle do peso ajudariam a reduzir estas estatísticas”, afirma. “Poucas pessoas sabem que o Sistema Único de Saúde, o SUS, oferece testagem e tratamento gratuito para as hepatites virais”.

Mais informações: e-mail albertoqfarias@gmail.com, com o professor Alberto Farias [1], [2]

[1] Texto de Júlio Bernardes.

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/maior-carga-genetica-de-ancestralidade-indigena-eleva-risco-de-insuficiencia-hepatica/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Maior carga genética de ancestralidade indígena eleva risco de insuficiência hepática.  Texto de Júlio Bernardes. Saense. https://saense.com.br/2023/07/maior-carga-genetica-de-ancestralidade-indigena-eleva-risco-de-insuficiencia-hepatica/. Publicado em 13 de julho (2023).

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