Jornal da USP
01/03/2024

Estudos são focados em métodos de ciência básica que aprimorem compreensão da interação entre luz e pele e soluções práticas que não causem diferenças significativas nos resultados, seja na terapia ou no diagnóstico – Foto: Wikimedia commons

Em todo o mundo, cientistas têm demonstrado como a pigmentação da pele influencia a ação de diagnósticos e tratamentos de saúde baseados em luz, adotados, por exemplo, em fisioterapia e odontologia. Desse esforço, fazem parte pesquisadores e professores do Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, que pesquisam não só a influência do pigmento melanina, presente na pele humana, na absorção da luz emitida por equipamentos ópticos, como propõem algoritmos para realizar essa medição, visando o uso em aplicativos para avaliar a circulação e oxigenação do sangue e dos tecidos, entre outras funções.

“Não só técnicas de imagem, mas procedimentos diagnósticos e terapêuticos envolvendo radiação óptica ou ultrassom, em pacientes de peles escuras, precisam ser melhor estudados”, afirma ao Jornal da USP o professor George Cardoso, que orientou um trabalho que usa imagens da pele para aprimorar a verificação da microcirculação sanguínea.

Cardoso salienta que o comportamento diferente das técnicas ópticas conforme a cor da pele ocorre devido a uma característica da luz. “Afinal, o papel da melanina é diminuir a penetração da luz na pele, principalmente da luz azul”, esclarece. “Os profissionais da saúde devem estar cientes das limitações ou das adaptações necessárias para pessoas com alta quantidade de melanina.”

“Portanto, o desenvolvimento de tecnologias sensíveis a toda a gama de fototipos é de suma importância, especialmente em um País como o nosso, caracterizado por uma alta diversidade de tonalidades de pele”, reforça o professor da FFCLRP. “É preciso levar em conta a cor da pele como uma variável importante sempre que técnicas ópticas estiverem envolvidas. Por isso, nossos estudos são fundamentais para encontrar maneiras de minimizar a influência da melanina.”

Absorção

O pesquisador Luismar Barbosa da Cruz Junior, responsável por investigar um algoritmo destinado a estimar a absorção de luz pela pele com base em sua tonalidade, destaca que, em 2020, a saturação de oxigênio em pacientes hospitalizados com covid-19 foi amplamente avaliada por meio de oxímetros de pulso. Nesses aparelhos, a avaliação do oxigênio é feita por meio de feixes de luz, cuja ação pode sofrer alterações e comprometer o resultado dos exames em pessoas com a pele mais pigmentada. Cruz Junior observa que esse dispositivo passou a ser adotado por um número crescente de pessoas, inclusive fora do ambiente hospitalar, uma vez que versões do oxímetro estão disponíveis para aquisição em farmácias. “Para os profissionais de saúde, o oxímetro desempenha um papel fundamental no acompanhamento de casos graves de covid-19, possibilitando a identificação da necessidade de oxigenação suplementar ou, em casos mais extremos, de intubação”, afirma ao Jornal da USP.

“Entretanto, em dezembro de 2020, um estudo com mais de 10 mil pacientes, publicado no The New England Journal of Medicine, reportou que os oxímetros de pulso não eram totalmente confiáveis para avaliar a saturação de oxigênio no sangue de pacientes negros, que, em consequência, poderiam ter maior risco de não receber suplementação e, potencialmente, de morte”, enfatiza o pesquisador. “Esse problema foi mencionado por diversos órgãos de saúde dos Estados Unidos, como a Food and Drug Administration (FDA) e a American Medical Association (AMA). Os alertas indicam a importância de estudar a influência da cor e da pigmentação nesse tipo de equipamento.”

O professor Theo Pavan, da USP, que orientou um estudo sobre técnicas de reconstrução de imagem para minimizar a influência do tom de pele em diagnósticos, esclarece que os estudos não indicam que as técnicas biomédicas ópticas, de forma geral, são menos eficazes em peles com maior quantidade de melanina. “É verdade que a luz, na faixa de cores com a qual trabalhamos, interage com a pele”, ressalta. “No entanto, os estudos aqui em discussão estão focados em métodos de ciência básica que visam aprimorar nossa compreensão dessa interação, bem como em soluções práticas para garantir que essas interações não causem um viés significativo nos resultados esperados, seja no contexto de terapia ou de diagnóstico.” [1], [2]

[1] Texto de Júlio Bernardes

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/estudos-sobre-absorcao-da-luz-pela-pele-geram-inovacoes-em-diagnosticos-medicos/

Como citar este texto: Jornal da USP. Estudos sobre absorção da luz pela pele geram inovações em diagnósticos médicos. Texto de Júlio Bernardes. Saense. https://saense.com.br/2024/03/estudos-sobre-absorcao-da-luz-pela-pele-geram-inovacoes-em-diagnosticos-medicos/. Publicado em 01 de março (2024).

Notícias do Jornal da USP Home