Jornal da USP
11/03/2024

Ceramistas do grupo Itararé-Taquara possivelmente ocuparam o local devido ao grande número de ferramentas de pedra lascada encontradas, característica que os diferencia de outros agrupamentos do mesmo tipo – Fotomontagem: Jornal da USP – Imagens: Cedidas pelos pesquisadores

Pesquisas realizadas em um terreno na região do Morumbi, Zona Sul de São Paulo, revelaram que o local é o sítio arqueológico mais antigo encontrado na cidade até o momento, com vestígios da presença humana que remontam entre 3800 e 820 anos. O estudo, que envolveu datações obtidas na área ainda preservada do sítio, foi realizado pela empresa Zanettini Arqueologia, com participação de pesquisadores do Laboratório Interdisciplinar de Pesquisas em Evolução, Cultura e Meio Ambiente do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.

A análise do material arqueológico indica que a área foi explorada inicialmente por grupos de caçadores e coletores. Porém, há cerca de 800 anos, ela pode ter recebido a ocupação de ceramistas, possivelmente do grupo Itararé-Taquara, devido ao grande número de ferramentas de pedra lascada encontradas, característica que os diferencia de outros agrupamentos do mesmo tipo. Outra hipótese apontada pelos pesquisadores é que o Sítio Morumbi pode ser uma evidência da resistência dos grupos que praticavam caça e faziam coleta ao longo do tempo. O resultado da pesquisa é descrito em artigo a ser submetido à Revista de Arqueologia, publicada pela Sociedade Arqueológica Brasileira (SAB).

O sítio foi descoberto por acaso na década de 1960, quando o engenheiro Caspar Hans Luchsinger, responsável pela abertura de loteamentos na região do Morumbi, encontrou instrumentos de pedra lascada, promovendo o primeiro registro a respeito deste bem arqueológico. “Esse foi o início de uma história conturbada em relação à preservação deste sítio único no território da metrópole”, explicam os arqueólogos Paulo Zanettini, diretor da empresa e doutor pelo MAE, e Letícia Cristina Corrêa, pós-doutoranda da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), integrantes do grupo que realizou o estudo. “Os achados, entretanto, não motivaram de imediato novas pesquisas no sítio.”

“A situação mudou apenas quando o arqueólogo Astolfo Araújo , à época no Departamento do Patrimônio Histórico de São Paulo, de posse dos mapas com as indicações do engenheiro, encontrou novamente a área, efetuando novos registros, trazendo à tona a discussão em torno da preservação do sítio arqueológico”, relatam os pesquisadores. Atualmente, Araújo é professor do MAE.

“Porém, com o avanço da ocupação imobiliária da região, a propriedade foi vendida e o proprietário iniciou a construção de sua residência em um dos lotes do terreno, sendo executada uma extensa escavação no local.”

Datando os registros

Algum tempo depois, com o avanço da ocupação para além do lote pesquisado, o sítio teve novos danos e interferências em áreas menos pesquisadas, o que levou à formalização de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). 

“Isto tornou necessárias, entre outras medidas, novas pesquisas na chamada área nuclear do sítio”, afirma o professor do MAE. “Mais recentemente, o Iphan definiu que devido à mudança de tipologia do empreendimento, de condomínio horizontal para edifício, julgava prudente que fossem esgotadas as possibilidades de pesquisa para liberar as obras.”

Na fase terminal das pesquisas no sítio, ocorrida em 2022, o objetivo principal foi atender à determinação do Iphan, para que fossem avaliados os terrenos em busca de evidências ainda preservadas no local. “Desse modo, o proprietário contratou a empresa Zanettini Arqueologia para executar a pesquisa, apesar dos trabalhos desenvolvidos anteriormente”, ressalta Araújo. “O papel do Iphan em insistir para que todas as possibilidades fossem esgotadas foi fundamental para que o sítio fosse finalmente datado”.

O conjunto de pesquisas realizadas no sítio desde sua descoberta resultou na formação de um acervo de mais de 300 mil peças, hoje depositadas no Centro de Arqueologia de São Paulo, mantido pela Prefeitura no Sítio Morrinhos, no bairro da Casa Verde.

Escavações no Sítio Morumbi começaram nos anos 1960

“Quando adentramos o terreno em 2022, tivemos a felicidade de identificar uma pequena porção do sítio ainda preservada, onde obtivemos amostras de carvão para datação, o que permitiu inserir cronologicamente o sítio no ‘curso da história’”, explicam os pesquisadores. “A par de uma datação anterior dos níveis mais profundos do solo, as novas análises mostraram que a pedreira milenar presente no local foi amplamente explorada possivelmente ao longo de 3 mil anos. Assim, o Sítio Morumbi também pode ser chamado de a mais antiga indústria de pedra lascada de São Paulo.”

De acordo com os arqueólogos, as datações mostram que por milhares de anos a área foi explorada por grupos de caçadores e coletores. “Também surgiu a hipótese de que, há cerca de 800 anos, a área recebeu aldeias de agricultores e ceramistas, grupos mais estáveis na bacia de São Paulo, embora nenhuma cerâmica tenha sido encontrada junto às dezenas de milhares de lascas, algumas trabalhadas ou produto da própria atividade”, concluem.

Vestígios mais antigos da presença humana têm 3.800 anos

Mais informações: e-mail leticiacorrea@usp.br, com Letícia Cristina Corrêa [1], [2]

[1] Texto de Júlio Bernardes

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/sitio-arqueologico-de-3-800-anos-guarda-a-mais-antiga-industria-de-pedra-lascada-de-sao-paulo/

Como citar este texto: Jornal da USP. Sítio arqueológico de 3.800 anos guarda a mais antiga indústria de pedra lascada de São Paulo. Texto de Júlio Bernardes. Saense. Sítio arqueológico de 3.800 anos guarda a “mais antiga indústria de pedra lascada de São Paulo” – Saense. Publicado em 11 de março (2024).

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