UFRGS
19/04/2024

Ilustração: Isabelle Baiocco/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Minha pesquisa em pintura iniciou com o resgate de fotografias de meus antepassados que haviam sido rasgadas para irem para o lixo. Os primeiros trabalhos realizados a partir dessas fotografias surgem da tentativa de salvar essas imagens do esquecimento: com seus quase cem anos, retratavam quase que em totalidade pessoas já falecidas, e agora estavam em pedaços. A partir dessas fotos dos anos 1920 a 1940, criei um paralelo com fotografias mais recentes da minha família próxima (avós, mãe, tia, irmã), fazendo uma relação de composições que se repetiam nos registros dessas gerações separadas por quase cem anos. Esse primeiro trabalho foi em aquarela e teve uma fatura quase hiper-realista, formando um díptico.

A partir da minha pesquisa de Iniciação Científica em 2021, aprofundei esse estudo em pintura usando como referência fotografias de álbuns da minha família. O ponto chave do processo foi investigar, por meio da matéria pictórica, as duas dimensões do signo fotográfico. Ou seja, não apenas prestar atenção no referente, no que a cena significa, mas na qualidade material da própria fotografia.

Tempo e memória são assuntos inerentes à imagem fotográfica: o tempo não passou apenas para quem está representado na imagem, mas para o próprio material que a capturou. Percebi, nessas imagens, o envelhecimento do próprio registro, tanto pela técnica fotográfica datada com as cores e ruídos da fotografia analógica, quanto pelo próprio efeito do tempo. 

Comecei, em 2022, as primeiras pinturas da série Desenquadrinhos, que consiste em pinturas a óleo sobre MDF (10 x 10 cm). O enfoque inicial dessas pinturas foi buscar no meu acervo de fotografias aquelas que representavam cenas recorrentes em álbuns de família, como almoços, aniversários, pessoas reunidas ao redor de mesas com comidas e bebidas. Muitas fotos usadas para essa série apresentam ruídos de flashes rebatidos em pessoas e mãos cortando o primeiro plano da imagem, gerando um branco estourado. Esses gestos espontâneos só são possíveis graças à mecanicidade da fotografia, que se contrapõe ao procedimento lento da pintura a óleo. 

Pesquisar a relação da pintura com cenas de cotidiano me levou a descobrir que foi no final do século XIX que as cenas banais e cotidianas, do mundo comum, do trabalho ou do ambiente doméstico, começam a se tornar tema importante na pintura ocidental. Encontramos em Après dîner à Ornans, de Gustave Coubert (1819–1877), uma instigante cena de gênero na qual o pintor se autorrepresenta tocando violino ao lado de seus melhores amigos e de seu pai. Sua representação de costas me causa a sensação da informalidade que encontramos hoje em fotografias amadoras, como a sensação de vermos essa cena assim que entramos na sala em que ela se desenrola. A minha série, que inicialmente chamei de Enquadrinhos, mudou de nome ao me deparar com a definição que Jacques Aumont dá ao termo desenquadrar no livro A Imagem (1993): o desenquadrar seria enquadrar de outra maneira. Ou seja, enquadrar de outra maneira poderia ser entendido aqui não apenas em sua forma literal e técnica, mas também como possibilidade de mudar a forma de olhar e ressignificar as imagens. Esse desenquadramento trouxe essas imagens para o campo da pintura, permitindo-me identificar o afeto e a memória como disparadores importantes do meu processo de trabalho desde o início da graduação. 

O tamanho pequeno das pinturas reforça a ideia de algo privado ao nos solicitar que cheguemos muito perto para entender do que se tratam essas pequenas imagens. Porém, dentro desse objeto tão pequeno, encontramos uma profusão de informações, cores, movimentos e personagens. A grande quantidade destas pinturas pequenas, 50 até o momento, remete-me à ideia de uma coleção. Assim como as fotografias usadas para esse trabalho foram cuidadosamente guardadas e acumuladas ao longo de muitos anos, o número de pinturas indica também a ideia de um demorado período de ressignificação dessas imagens. As fotografias, que estão reclusas em álbuns e baús, guardando em silêncio memórias muito pessoais, emprestam parte do seus testemunhos para serem transmutados em composições pictóricas para serem vistas publicamente. [1], [2]

[1] Texto de Isabelle Baiocco e Marilice Corona

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/jornal/ressignificacao-de-imagens-pela-pintura/

Como citar esta notícia: UFRGS. Ressignificação de imagens pela pintura. Texto de Isabelle Baiocco e Marilice Corona. Saense. https://saense.com.br/2024/04/ressignificacao-de-imagens-pela-pintura/. Publicado em 19 de abril (2024).

Notícias científicas da UFRGS Home