Jornal da USP
01/04/2025

Quase metade das pessoas com depressão acaba desenvolvendo a forma resistente da doença, que não melhora após pelo menos dois tratamentos diferentes. Pesquisadores têm se engajado em fornecer uma resposta mais satisfatória a esses pacientes e seus familiares, que às vezes passam anos tentando diversas terapias e chegam a desistir, com custos individuais e coletivos. Uma nova gama de recursos vem sendo pesquisada, incluindo as chamadas terapias não farmacológicas.
Uma delas acaba de ganhar novo impulso após um estudo clínico feito na USP – a estimulação magnética transcraniana do tipo theta-burst. Por meio da técnica, grandes redes cerebrais são estimuladas com bobinas, em um protocolo que utiliza rajadas rápidas (theta-burst), mas em sessões de curta duração.
Enquanto pesquisas anteriores com esta terapia mostravam resultados promissores, porém preliminares, o protocolo empregado no estudo do Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP) proporcionou melhora de quase 55% nos pacientes. Mais do que isso, na fase aberta do estudo (quando já se sabia que estavam sendo tratados e não recebendo placebo) os pacientes receberam sessões adicionais, e 85% dos que completaram o tratamento apresentaram melhora.
“A estimulação magnética transcraniana já tem 30 anos de uso, não é uma técnica experimental. Mas as taxas de resposta foram aumentando ao longo do tempo, com mudanças no protocolo de aplicação [intensidade, duração e frequência]”, conta ao Jornal da USP André Brunoni, professor associado do Departamento de Psiquiatria da FMUSP e coordenador do estudo publicado na Jama Psychiatry, tendo Matheus Rassi Ramos como primeiro autor.
“O tratamento em si é muito seguro, tolerável, não requer anestesia nem sedação, e praticamente não tem efeitos colaterais. A principal desvantagem é que o paciente precisa ir em uma clínica fazer a estimulação”, explica Brunoni.
Evolução da técnica
Nos primeiros anos do uso da estimulação magnética transcraniana, as taxas de resposta eram modestas e havia o complicador adicional das sessões demorarem muito, conta o pesquisador, o que deixava o tratamento acessível a poucos. “Eram feitas sessões de 40 minutos por dia e que duravam 30 dias, de segunda a sexta-feira”, lembra.
Um dos grandes avanços veio com um estudo em 2018, que mostrou que era possível fazer estimulação usando protocolos curtos, de três minutos de duração, ao invés dos usuais 40 minutos de sessão. Depois começaram a vir os protocolos acelerados, que envolviam fazer várias sessões rápidas por dia. E nesse meio tempo, também foi aumentando a taxa de resposta.
Em 2021, surgiu um estudo de um grupo da Universidade de Stanford que teve um grande impacto, ficando conhecido como o Stanford Neuromodulation Therapy (SNT). “Eles alcançaram uma grande eficácia usando um protocolo de 10 sessões por dia, por 5 dias, com intervalo de quase uma hora entre as sessões”, relata o pesquisador. O protocolo incluía a necessidade de fazer neuronavegação personalizada guiada por neuroimagem, um procedimento que tem um alto custo.
A neuroimagem era feita só na primeira sessão para achar a região alvo no cérebro. Mas a neuronavegação tinha que ser feita em todo tratamento, para mostrar onde colocar exatamente a bobina. Além dessa dificuldade, tratava-se de um estudo clínico pequeno, com apenas 29 pacientes. “Então ficou algo em aberto, porque era uma amostra pequena de pacientes, mas por outro lado houve uma grande resposta clínica.”
Nesse contexto, a equipe do IPq desenhou e desenvolveu o estudo atual, liderado pelo aluno de doutorado Matheus Ramos, com orientação de Brunoni.
A pesquisa da USP
O tratamento realizado no IPq, que não realizava neuronavegação e sim medidas com fita, consistia em três sessões por dia de estimulação rápida (theta-burst), com seis minutos de estimulação e 30 de intervalo entre elas. “Então, durava 78 minutos cada dia, durante 15 dias, de segunda a sexta-feira. E o desfecho primário [principal resultado investigado na pesquisa] era a melhora clínica avaliada na quinta semana”, detalha André Brunoni ao Jornal da USP.
Houve uma taxa de resposta maior no grupo ativo, que recebeu o tratamento, comparado ao grupo placebo, que recebia uma simulação da estimulação. 52% dos pacientes no grupo ativo apresentaram resposta clínica dos sintomas de transtorno depressivo, contra 22% no grupo em que o tratamento foi simulado.
Além da maior praticidade para a terapia, o rigor metodológico também é um ponto forte do estudo feito na USP: foram excluídos pacientes que apresentassem outros transtornos psiquiátricos, para evitar uma confusão nos resultados. E além de controlado (com o grupo que recebeu a simulação) o estudo foi randomizado (pacientes que receberam tratamento foram selecionados aleatoriamente) e triplo cego, o que significa que, durante a pesquisa, nem mesmo quem fazia as análises estatísticas sabia a qual grupo se referiam os números obtidos. “Isso é feito para garantir que não haja manipulação de dados, porque se o estatístico sabe os grupos, os pesquisadores podem ir pedindo para fazer uma análise a mais aqui, outra ali, o que pode influenciar nos resultados”, explica o psiquiatra.
Depressão resistente
A definição de depressão resistente ao tratamento varia um pouco na literatura científica, mas normalmente se considera que ocorre quando a pessoa não responde a dois tratamentos e está indo para o terceiro. “Metade dos casos de depressão são refratários de acordo com essa definição – ou seja, o segundo tratamento e o primeiro juntos têm uma eficácia acumulada de 50%”, diz Brunoni.
De acordo com o psiquiatra, muitas pessoas que passam por vários tratamentos acabam desistindo, a depressão tende a se cronificar, comprometendo a qualidade de vida.
“A depressão resistente tem um custo econômico e social bastante relevante. As pessoas começam a faltar mais ao trabalho ou acontece aquilo que é chamado de ‘presenteísmo’, quando a pessoa está oficialmente no local de trabalho, mas na prática não está produzindo.” A condição pode também levar a mais divórcios e, no caso de pais com filhos pequenos, aumentar o risco de depressão nas crianças. “Há uma série de consequências já verificadas.”
Ainda vem sendo estudado o que estaria por trás da resistência ao tratamento, mas uma hipótese com que os pesquisadores que atuam com a eletroestimulação trabalham está relacionada a determinados circuitos cerebrais funcionando mal, e a estimulação ajudaria e recuperar sua função.
“[A hipótese é que] haveria um mau funcionamento de certos neurocircuitos implicados na fisiopatologia da depressão, os principais sendo aqueles que fazem a comunicação do córtex pré-frontal, que é um corpo que fica mais externo, com o córtex cingulado anterior. Parece que há uma disfunção no processamento da informação entre essas duas áreas. E aí até temos a justificativa do uso da neuronavegação com neuroimagem, que é colocar a bobina da estimulação mais próxima dessa área”, detalha o médico ao Jornal da USP.
Apesar de o problema ainda ser desafiador, as perspectivas de novas terapias para a depressão resistente são animadoras. No IPq, a especialidade do grupo coordenado por André Brunoni é a psiquiatria intervencionista, que busca justamente a inovação, com tratamentos que são feitos em apenas poucos centros no mundo todo.
Além da magnética, eles trabalham com outros tipos de estimulação: elétrica por corrente contínua; elétrica por corrente alternada; de luz cintilante; e por laser, chamada de fotobiomodulação. “Temos também outra vertente, que é o uso da cetamina na forma intranasal ou endovenosa”, acrescenta
E os cientistas do grupo têm planos de ampliar a pesquisa com a estimulação magnética. “Estamos esperando aprovação do comitê de ética para iniciar dois novos estudos piloto. E temos outro em fase mais avançada, em que iremos randomizar os pacientes para serem tratados ou com navegação personalizada ou com o método tradicional – mas ambos recebendo o tratamento que já demonstra eficácia nesta pesquisa publicada agora”, prevê.
O artigo pode ser acessado neste link.
Mais informações: e-mail brunoni@usp.br, com André Brunoni [1], [2]
[1] Texto de Luiza Caires
[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/estimulacao-transcraniana-traz-alta-taxa-de-melhora-na-depressao-resistente-ao-tratamento/
Como citar este texto: Jornal da USP. Estimulação transcraniana proporciona alta taxa de melhora na depressão resistente ao tratamento. Texto de Luiza Caires. Saense. https://saense.com.br/2025/04/estimulacao-transcraniana-proporciona-alta-taxa-de-melhora-na-depressao-resistente-ao-tratamento/. Publicado em 01 de abril (2025).