Jornal da USP
28/08/2025

Entenda fatores por trás do surto de febre oropouche no Brasil
Pesquisadores ressaltam que novas cepas do vírus se expandiram para áreas onde a população não era imune – Foto: Wikimedia Commons

A febre oropouche (ORO) é uma doença emergente, cuja incidência no Brasil aumentou drasticamente nos últimos anos: em 2020 e 2021 foram 108 casos confirmados sorologicamente, a maioria na região amazônica; em 2024, esse número chegou a 10.940  – espalhados por vários Estados do País e incluindo duas mortes. O arbovírus é transmitido principalmente pelo inseto Culicoides paraensis, também conhecido como maruim. 

Um estudo conduzido por pesquisadores da USP e Instituto Butantan investigou os fatores que impulsionaram a expansão desta doença zoonótica (que pode ser transmitida entre animais e humanos). Os resultados revelaram que maiores temperaturas e quantidade de chuvas, juntamente com mudanças na cobertura e uso da terra e alterações no genoma do vírus foram elementos-chave para a sua distribuição. 

Camila Lorenz, primeira autora do artigo, é bióloga e pesquisadora pelo Instituto Butantan. Em parceria com Maria Anice Sallum e Francisco Chiaravalloti, professores no Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, o grupo conduziu técnicas de modelagem e análise espacial para identificar áreas de alto ou baixo risco de infecção. A Região Norte permanece com a maior concentração de clusters (agrupamentos de casos)seguida do Espírito Santo, Bahia e Rio de Janeiro. 

Diferentemente de mosquitos como o Aedes aegypti, que se desenvolve em pontos de acúmulo de água em áreas urbanas, o C. paraensis também é um inseto que se alimenta de sangue, mas se reproduz na matéria orgânica. Devido a essa peculiaridade, ele circula preferencialmente em áreas de plantações de cacau e banana – as larvas se reproduzem em folhas acumuladas, por exemplo. “Quando [os maruins] se proliferam é porque aquele ambiente é muito adequado, então a população aumenta rapidamente e se torna uma praga”, comenta Maria Anice Sallum. 

Pesquisas anteriores já indicavam que o oropouche passou por alterações genéticas nos últimos anos. “A mudança no genoma do vírus pode propiciar que outros insetos, que não eram vetores, passem a ser. Isso, sem dúvida, pode aumentar sua disseminação e capacidade de dispersão”, frisa a professora. A principal hipótese é que mosquitos como o Culex quinquefasciatus (muriçoca) estejam envolvidos na transmissão, especialmente no ciclo urbano, mas faltam investigações mais robustas. 

A explosão de casos em 2024, mesmo entre os amazônicos, também indica que surgiram cepas recombinantes da doença. “Essa população já tem vários anos de contato com o vírus, pois a área é historicamente endêmica. Eles deveriam estar mais protegidos, mas isso não aconteceu”, afirma Francisco Chiaravalloti. A resposta dos anticorpos diminui significativamente contra variantes, e por isso populações imunes se tornam suscetíveis à reinfecção. 

Comparando fatores

A partir de informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do WorldClim – Global Climate Data e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os cientistas elaboraram um cartograma das áreas onde a doença se retraiu, permaneceu estável ou se expandiu. 

Após a coleta de dados foi possível explorar associações entre os locais com maior índice de registro e diversas variáveis, como amplitude térmica, temperatura média anual, estabilidade da temperatura, precipitação e mudanças no uso da terra. “Temperaturas médias e precipitação foram os fatores com relação mais expressiva com os casos”, relata Camila Lorenz, pesquisadora pelo Instituto Butantan.

A incubação do vírus é influenciada pela isotermalidade, ou seja, a estabilidade da temperatura ao longo do tempo. “O período de incubação extrínseca [desenvolvimento do vírus no organismo do vetor] é o tempo que o inseto leva para picar uma pessoa, se infectar, e aquele vírus chegar até sua glândula salivar”, explica. O patógeno tem preferência por temperaturas mais quentes: no verão, ele se desenvolve em menos tempo, e o inseto se torna um transmissor mais rapidamente. As mudanças climáticas e ondas de calor preocupam a pesquisadora, “pois se aumenta a sequência de dias constantemente quentes a replicação do vírus no organismo do vetor é ininterrupta”.

Além disso, entre 2020 e 2023, dados demonstraram a expansão de pastagens e plantações de soja em regiões consideradas de alto risco. “Em uma floresta densa, com uma comunidade diversa de insetos, não ocorreria a mesma explosão populacional que ocorre numa plantação monoespecífica”, realça a cientista. O controle do vetor também é dificultado, pois o uso de inseticidas em larga escala em plantações traz riscos para a saúde dos trabalhadores e consumidores do produto. 

Segundo a pesquisadora, as mudanças climáticas, o desmatamento e as mudanças no uso da terra estão interligados, porque expandem a distribuição do vetor e facilitam o contato do vírus com outros vetores. A chegada do vírus no litoral brasileiro – região muito mais densamente povoada do que a Amazônia – aumentou drasticamente o número de casos.

Vulnerabilidade socioeconômica

A análise revelou que os municípios em clusters de alto risco são frequentemente caracterizados por maiores taxas de pobreza e acesso limitado à assistência médica e saneamento básico. “Áreas de alto risco têm um PIB menor, são mais vulneráveis e têm menos unidades de atenção à saúde”, explica Maria Anice Sallum. Na Região Amazônica, 60% das pessoas só têm acesso a uma UBS a mais de 10 km das suas residências. “Algumas populações ribeirinhas não têm acesso nenhum ou precisam de barcos, então, quando apresentam sintomas, não têm como fazer teste”, acrescenta.

A lacuna na testagem impede o registro dos casos, podendo causar uma subnotificação importante. Além disso, os habitantes têm dificuldade de receber o tratamento e acompanhamento médico necessários, tornando-se mais suscetíveis a quadros graves. 

Segundo Francisco Chiaravalloti, a questão socioeconômica também tem relação com a degradação ambiental. Áreas que sofrem com o desmatamento e a degradação da floresta são mais pobres e mais sujeitas à expansão urbana desordenada, sem a devida infraestrutura, o que pode intensificar a expansão dos hábitats do vetor. 

Frente ao avanço das mudanças climáticas, o estudo serve como base para estabelecer políticas públicas adequadas a diferentes locais do País, a fim de prevenir o surgimento de novos focos do patógeno e retardar a evolução de futuras epidemias. “Conhecer as áreas de maior risco é fundamental para otimizar estratégias de controle do inseto”, afirma Camila Lorenz. “Essa integração da academia com a realidade é interessante porque a gente pode não só direcionar ações na saúde, mas exigir políticas públicas de melhoria nas condições de vida da população”, conclui.

O artigo Oropouche fever outbreak in Brazil: Key factors behind the largest epidemic in history está disponível on-line e pode ser lido aqui.

Mais informações: e-mail franciscochiara@usp.br, com Francisco Chiaravalloti; e-mail masallum@usp.br, com Maria Anice Sallum, e e-mail camilalorenz@usp.br, com Camila Lorenz [1], [2]

[1] Texto de Gabriela Nangino

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/entenda-fatores-por-tras-do-surto-de-febre-de-oropouche-no-brasil/

Como citar este texto: Jornal da USP. Entenda fatores por trás do surto de febre oropouche no Brasil. Texto de Gabriela Nangino. Saense. https://saense.com.br/2025/08/entenda-fatores-por-tras-do-surto-de-febre-oropouche-no-brasil/. Publicado em 28 de agosto (2025).

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