UFRGS
26/08/2025

As doenças crônicas representam atualmente um dos principais desafios para a saúde global. Elas se desenvolvem lentamente e têm longa duração, não têm cura e podem causar mortes prematuras, incapacidades e uma deterioração significativa na qualidade de vida. Essas condições têm repercussões nos âmbitos social, emocional e econômico, afetando não apenas os indivíduos e suas famílias, mas também a sociedade.
No Brasil, os indicadores de incidência, prevalência e morbimortalidade de doenças crônicas vêm apresentando uma tendência crescente. Esse aumento é, em grande parte, atribuído ao acelerado envelhecimento da população brasileira. Em 2019, cerca de 54,7% dos óbitos registrados no país foram causados por doenças crônicas.
Entre as principais enfermidades crônicas estão o câncer, as doenças cardiovasculares (como o AVC) e o diabetes. Esses problemas de saúde são influenciados tanto por fatores individuais, como o estilo de vida, quanto por condições socioeconômicas. Os principais fatores de risco incluem tabagismo, consumo excessivo de álcool, alimentação não saudável e sedentarismo.
Compreender as fontes da desigualdade é relevante para evitar a chamada “armadilha da desigualdade”. Ou seja, fazendo a distinção entre desigualdades resultantes de circunstâncias exógenas (como sexo, cor, região de origem e escolaridade) e desigualdades derivadas do diferencial de esforço individual (como alimentação, atividade física, consumo de álcool e tabaco).
A desigualdade de oportunidades é definida como barreiras circunstanciais que impedem os indivíduos de alcançar uma vida justa e com condições mínimas na sociedade. Presume-se que algumas fontes de inequidade são mais censuráveis do que outras, sendo divididas em: desigualdades legítimas, decorrentes das ações e do estilo de vida que estão sob controle do indivíduo, e desigualdades ilegítimas, que correspondem a fatores que transcendem a responsabilidade individual.
A análise dos resultados aponta a relevância dos fatores circunstanciais na perpetuação da desigualdade ilegítima, mostrando que esses fatores são significativos para o aumento da probabilidade de existência de doenças crônicas. Pertencer aos grupos étnicos branco ou amarelo e ser do sexo feminino estão relacionados aos níveis mais precários de saúde. Além disso, residir em áreas urbanas e possuir um nível educacional mais baixo constituem fatores que aumentam a probabilidade de incidência dessas enfermidades.
No contexto da desigualdade de oportunidades, a aplicação da decomposição do Valor de Shapley destacou que o nível educacional é o principal contribuinte para a disparidade observada em condições de saúde como hipertensão, AVC e diabetes.
Esses resultados enfatizam a importância da educação na determinação da saúde e ressaltam a necessidade de políticas públicas que melhorem o acesso e a qualidade da educação no Brasil. Ações efetivas nesse sentido podem não apenas reduzir a desigualdade de oportunidades, mas também impactar positivamente a saúde da população.
Reduzir as disparidades socioeconômicas no acesso à educação é necessário para garantir que todos tenham igualdade de oportunidades na aquisição de conhecimentos que promovam uma vida saudável. Complementarmente, é relevante desenvolver programas de conscientização sobre a interconexão entre educação e saúde. Tais iniciativas, focadas em temas como hábitos alimentares saudáveis, prática regular de atividades físicas e prevenção de doenças, podem ser integradas ao currículo escolar e estendidas à comunidade, cultivando uma cultura de cuidado com a saúde desde a infância.
Além disso, a implementação de políticas que fomentem a educação ao longo da vida destaca-se como uma estratégia essencial para promover a saúde em longo prazo. Ao estimular a aprendizagem contínua, essas políticas garantem que os indivíduos estejam sempre atualizados sobre as mais recentes informações de saúde, tecnologias médicas e práticas de bem-estar. Isso não apenas aumenta a capacidade dos indivíduos de tomar decisões informadas sobre sua saúde, mas também os capacita a adaptar seus estilos de vida.
Em suma, ao investir em políticas públicas que visem aprimorar o acesso, a qualidade e a relevância da educação, é possível não apenas reduzir as disparidades de oportunidades, mas também impactar positivamente a saúde da população brasileira. Essa abordagem estabelece uma conexão entre o desenvolvimento educacional e o bem-estar geral.
Outros fatores circunstanciais, como sexo, região de origem e cor, embora desempenhem papéis com pesos consideravelmente menores, não foram desconsiderados na análise. É importante reconhecer que mesmo essas variáveis secundárias podem exercer influência nos resultados e contribuir para a existência de uma desigualdade injusta em relação à saúde. [1], [2], [3]
[1] Texto de Cristiéle de Almeida Vieira e outros
[2] Lista completa de autores do artigo: Cristiéle de Almeida Vieira, Giácomo Balbinotto Neto, Pedro Pita Barros, Sabino da Silva Porto Júnior e Cássia Kely Favoretto
[3] Publicação original: https://www.ufrgs.br/jornal/incidencia-de-doencas-cronicas-no-brasil-o-papel-das-circunstancias-e-do-esforco-individual/
Como citar esta notícia: UFRGS. Incidência de doenças crônicas no Brasil: o papel das circunstâncias e do esforço individual. Texto de Cristiéle de Almeida Vieira e outros. Saense. https://saense.com.br/2025/08/incidencia-de-doencas-cronicas-no-brasil-o-papel-das-circunstancias-e-do-esforco-individual/. Publicado em 26 de agosto (2025).