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13/04/2026

Ômega-3 DHA tem resultados promissores no combate ao câncer de ovário
Revista multidisciplinar da editora Springer Nature destaca pesquisa da UnB que traz esperança para tratar doença silenciosa. Foto: Revista CDD

Uma das doenças ginecológicas mais letais do mundo pode vir a ser combatida com o uso do ácido graxo ômega-3 do tipo DHA (ácido docosahexaenoico). Resultados iniciais de estudo desenvolvido no Laboratório de Imunologia e Inflamação do Departamento de Biologia Celular (Limi/CEL/IB), ligado ao Instituto de Ciências Biológicas da Universidade de Brasília, apontam para a capacidade da substância de induzir a morte das células de câncer de ovário. A descoberta ocorreu em análise de culturas de células in vitro e ganhou projeção internacional com a divulgação, em janeiro, na revista Cell Death Discovery (CDD), da editora germano-britânica Springer Nature.

estudo revela que o ômega-3 DHA induz a piroptose, uma espécie de morte inflamatória e programada da célula de câncer. Ao contrário de outros processos silenciosos, a piroptose é caracterizada pela ruptura da membrana celular, o que estimula o sistema imunológico a atacar o tumor. Esse processo tem início com a deterioração das mitocôndrias, principal componente de produção de energia das células, e o comprometimento da respiração celular. A ação se mostrou seletiva, não atingindo tecidos saudáveis.

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Os efeitos observados ocorrem porque o ômega-3 DHA promove o aumento de espécies reativas de oxigênio (ROS, na sigla em inglês), moléculas que, em excesso, causam estresse oxidativo nas células. Esse volume aumentado de ROS ativa uma enzima chamada caspase-1, que é determinante para o processo inflamatório e a consequente morte da célula do câncer de ovário.

“Quando incorporado por uma célula de câncer, o DHA, que é facilmente oxidado, exacerba o estresse oxidativo nesta célula, favorecendo diversos efeitos danosos que não ocorrem em células saudáveis”, explica o pesquisador em estágio pós-doutoral e primeiro autor do artigo na CDD, Gabriel Pasquarelli. “Devido à presença de ligações duplas em sua estrutura, o ômega-3 DHA é mais suscetível à oxidação quando comparado a ácidos gordos, que não apresentam essa característica”, afirma ele, ao ressaltar que o Limi também estuda a ação de outras gorduras sobre células de câncer.

De acordo com o Pasquarelli, a morte e o impedimento da proliferação de células danosas “sugerem que o DHA tem potencial para ser explorado como adjuvante na terapia de tumores ovarianos, auxiliando no tratamento da doença”. Os trabalhos seguem com a utilização de camundongos e observam a ação do ômega-3 DHA contra outros males. “Estamos avaliando em detalhes os efeitos do DHA no organismo como um todo”, diz o cientista, que vê a substância como possível “parceira estratégica que ajuda a quimioterapia e a imunoterapia a serem mais eficazes no combate aos tumores”. 

Supervisora do estudo e coordenadora do Limi, a professora Kelly Grace Magalhães diz que a pesquisa inova “ao descrever de forma mecanística a indução de piroptose mediada por DHA, estabelecendo uma conexão direta entre estresse oxidativo, disfunção mitocondrial e ativação de caspase-1”. “Embora o ômega-3 já tenha sido investigado em outros contextos oncológicos, demonstrar essa via específica de morte celular inflamatória nesse tipo tumoral amplia de maneira relevante o entendimento da biologia do câncer de ovário”, completa.

“Mesmo conduzido em modelo celular in vitro, o estudo traz esperança ao revelar uma vulnerabilidade metabólica e inflamatória das células do câncer de ovário que pode futuramente ser explorada como estratégia terapêutica complementar, especialmente em um tumor caracterizado por alta taxa de recorrência e resistência aos tratamentos convencionais”, avalia a pesquisadora, que é autora correspondente do artigo na Springer Nature.

RISCO SILENCIOSO – O artigo reporta o câncer de ovário como a segunda neoplasia ginecológica que mais causa mortes no mundo. A doença é inicialmente assintomática, o que dificulta o diagnóstico precoce. Cerca de 70% das mulheres acometidas tomam conhecimento com o câncer já em graus III ou IV, estágios de difícil tratamento. Além de predisposição genética, os fatores de risco da doença incluem a endometriose, a obesidade e a idade.

Outro fator mencionado é a taxa de recorrência elevada mesmo após cirurgias e quimioterapia, o que contribui para a mortalidade associada à doença. “Compreender a incidência global de câncer de ovário é essencial para reconhecer o desafio substancial que apresenta aos sistemas de saúde pública. Esses fatos destacam a urgência de investigar meios de atenuar o impacto devastador do câncer de ovário”, aponta a publicação.

PROTAGONISMO DA UnB – O potencial do ômega-3 DHA para auxiliar o tratamento dessa e de outras doenças, incluindo o câncer de mama, segue como alvo de pesquisas na Universidade de Brasília. Também em janeiro, pesquisadores do Limi publicaram artigo com resultados promissores sobre a aplicação da substância como protetora em infecções cerebrais causadas pelo vírus Zika.

“Esse destaque amplia a visibilidade da UnB no cenário científico global, fortalece a reputação institucional na área de biomedicina e oncologia e abre novas possibilidades de colaboração e captação de recursos”, avalia Kelly. Este é um exemplo do impacto da ciência produzida na UnB em prol das mulheres, como preconiza a campanha do #8M 2026.

A professora ressalta que os resultados obtidos são fruto de trabalho árduo. A pesquisa sobre câncer de ovário, por exemplo, foi iniciada ainda no mestrado de Gabriel Pasquarelli, há oito anos. “Trata-se de um projeto que envolveu vários anos de experimentação, validação científica e amadurecimento intelectual, até culminar na publicação”, afirma. 

Egresso da primeira turma de graduação em Biotecnologia da UnB, Pasquarelli é mestre em Biologia Molecular e doutor em Patologia Molecular pela Universidade. O último título foi obtido em formação sanduíche com a Universidade de Harvard.

Em toda a carreira, teve orientação de Kelly. “Sou muito grato por poder contribuir com esta importante pesquisa para a ciência brasileira e para a Universidade de Brasília”, diz ele, que afirma ter escolhido o caminho da ciência “para poder ajudar as pessoas, especialmente as que enfrentam câncer”.

A pesquisa que originou a publicação internacional recebe financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP-DF), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O artigo publicado pela Springer Nature também é assinado por outros 13 pesquisadores vinculados à UnB. Na sequência original, são eles: Sarah BezerraJúlia ManchineNathalia LagoHeloísa Braz-de-MeloNathalia CruzPaula BelloziAmanda RochaIgor SantosFernanda LagoSabrina MachadoAndré NicolaAndreza Fabro e Sônia Nair Báo. [1], [2]

[1] Texto de Hugo Costa

[2] Publicação original: https://www.unbciencia.unb.br/biologicas/104-ciencias-biologicas/773-omega-3-dha-tem-resultados-promissores-no-combate-ao-cancer-de-ovario

Como citar este texto: UnB. Ômega-3 DHA tem resultados promissores no combate ao câncer de ovário. Texto de Hugo Costa. Saense. https://saense.com.br/2026/04/omega-3-dha-tem-resultados-promissores-no-combate-ao-cancer-de-ovario/. Publicado em 13 de abril (2026).

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