ESO
26/08/2026

A estrela mais rápida da Via Láctea orbita tão perto do nosso buraco negro supermassivo que sente a sua rotação
Imagens VLT da estrela S301 em órbita de Sagitário A* (Créditos: ESO/GRAVITY collaboration)

Os astrónomos descobriram a estrela mais rápida, conhecida até à data, da Via Láctea em órbita do buraco negro situado no centro galáctico. A estrela, denominada S301, foi detectada com o Interferómetro do Very Large Telescope (VLTI) do Observatório Europeu do Sul (ESO) e chega a atingir velocidades de 25 000 km/s em determinados pontos da sua órbita em torno do buraco negro, que tem cerca de quatro milhões de massas solares. Esta estrela aproxima-se mais deste objeto central do que qualquer outra estrela observada anteriormente, tanto que deverá estar a sentir os efeitos da rotação do buraco negro.

“Décadas de observação cuidadosa das estrelas que orbitam Sagitário A*, o buraco negro central da nossa Galáxia, conduziram à descoberta revolucionária duma estrela muito promissora. Por estar a orbitar tão próximo de Sagitário A*, a S301 abre uma nova janela para as propriedades fundamentais do espaço-tempo no meio extremo de um buraco negro”, afirma Reinhard Genzel, vencedor de um Prémio Nobel, diretor do Instituto Max Planck de Física Extraterrestre (MPE) em Garching, na Alemanha, e membro fundador da colaboração GRAVITY+, responsável pelas novas observações.

O que torna esta estrela especial é o facto da sua órbita em torno de Sagitário A* ser muito apertada. A órbita tem um período de apenas 8,7 anos, o que faz a estrela aproximar-se do buraco negro a uma distância de apenas 12 vezes a distância da Terra ao Sol, algo sem precedentes“, explica Felix Mang, doutorando no MPE e autor do estudo publicado hoje na revista Nature.

Ao passar no ponto da sua órbita mais próximo do buraco negro, a estrela atinge uma velocidade de cerca de 25 000 km/s, o que corresponde a 100 mil vezes mais do que um avião comercial, ou mais de 8% da velocidade da luz, sendo, por isso, a detentora do recorde da estrela mais rápida da Via Láctea conhecida até à data. A S301 é também a estrela que se aproxima mais de Sagitário A*, chegando a uma distância do buraco negro semelhante à que separa Saturno do Sol [1]. Pelo facto de se aproximar tanto de Sagitário A*, a S301 é a primeira estrela conhecida que poderá ser utilizada para medir diretamente a rotação de um buraco negro.

Tal como a maioria dos objetos do nosso Universo, os astrónomos prevêem que Sagitário A* tenha um movimento de rotação. De acordo com a teoria da relatividade geral de Einstein, um buraco negro em rotação arrasta o espaço-tempo consigo distorcendo-o, o que afeta as órbitas das estrelas circundantes. Este efeito é sentido mais intensamente em objetos que orbitam perto de buracos negros que rodam rapidamente.

Com o auxílio desta estrela, esperamos conseguir medir, nos próximos 10 anos, a rotação do nosso buraco negro central“, afirma Mang. Stefan Gillessen, investigador no MPE, que também participou no novo estudo, diz: “Seríamos efetivamente capazes de medir, pela primeira vez e de forma muito direta, a rotação de um buraco negro supermassivo, o que constituiria um teste fundamental à teoria de Einstein.” Juan Osorno, astrónomo do LIRA Observatoire de Paris–PSL, França, que participou igualmente neste estudo, acrescenta: “Sem a descoberta desta estrela, iríamos ter de medir o movimento de outras estrelas durante várias décadas para conseguirmos determinar minimamente a rotação do buraco negro.

Encontrar a S301, que se mostra no céu 2 mil milhões de vezes mais ténue do que Betelgeuse (a famosa estrela laranja da constelação de Orion), não foi tarefa fácil. A equipa utilizou o VLTI, instalado no Observatório do Paranal do ESO, no Chile, e o seu instrumento GRAVITY, agora atualizado para GRAVITY+ na sequência de um melhoramento realizado na infraestrutura [2]. O VLTI é capaz de combinar a luz colectada pelos quatro grandes telescópios de 8 metros do VLT, criando assim um telescópio “virtual” com uma resolução espacial 15 vezes superior à de um único telescópio de 8 metros individual.

A nível mundial, o Paranal é o único local onde é possível realizar este tipo de observações, uma vez que nenhum outro observatório do mundo dispõe de quatro telescópios de 8 metros capazes de funcionar em uníssono como um interferómetro“, afirma o coautor Frank Eisenhauer, investigador principal do GRAVITY+ e diretor do MPE.

Com o GRAVITY e, posteriormente, o GRAVITY+, a equipa conseguiu observar esta estrela pela primeira vez na Primavera de 2023, tendo seguidamente vindo a acompanhá-la para determinar a sua órbita. Os investigadores foram ainda capazes de recuar até 2017 na história orbital da S301, descobrindo que a sua última aproximação máxima ao buraco negro central se deu no início de 2023. As propriedades orbitais da S301 e o facto das estrelas não se conseguirem formar tão perto dum buraco negro supermassivo, indicam que esta estrela fazia provavelmente parte dum sistema binário que foi destruído pelas forças de maré de Sagitário A*. No processo, a S301 terá ficado presa na gravidade do buraco negro, enquanto a sua estrela companheira foi provavelmente ejetada a alta velocidade, certamente com velocidade suficiente para deixar completamente a Galáxia.

Observações de seguimento levadas a cabo com o GRAVITY+, e com o instrumento MICADO que será instalado no futuro Extremely Large Telescope (ELT) do ESO, serão cruciais para traçar a trajetória da S301 ao longo da próxima década, que incluirá a sua próxima aproximação máxima ao buraco negro em 2031. A observação de, pelo menos, duas órbitas completas da S301 permitirá aos astrónomos restringir a sua trajetória com precisão suficiente para que se possa determinar diretamente a rotação de Sagitário A* pela primeira vez, “o que seria um sonho tornado realidade“, conclui Mang. [3], [4], [5]

[1] No seu ponto de maior aproximação ao buraco negro, a estrela passa a apenas 1,78 mil milhões de km deste objeto, o equivalente a cerca de 12 vezes a distância entre o Sol e a Terra, ou cerca de apenas 20% maior que a distância entre o Sol e Saturno.

[2] Após várias décadas a mapear estrelas que orbitam o centro da Via Láctea utilizando diferentes infraestruturas do ESO, a equipa utiliza desde 2017 o instrumento GRAVITY do VLTI. Uma série de melhoramentos, tanto no instrumento como no interferómetro, denominado GRAVITY+, foi implementada gradualmente ao longo dos últimos anos, o que tem permitido detectar objetos cada vez mais ténues.

[3] Este trabalho de investigação foi descrito no artigo científico da colaboração GRAVITY+ intitulado “Discovery of a star sensitive to the spin of Sgr A*” publicado na revista Nature (doi: 10.1038/s41586-026-10894-w).

[4] Este texto foi traduzido por Margarida Serote

[5] Publicação original: https://www.eso.org/public/portugal/news/eso2612/

Como citar este texto: ESO. A estrela mais rápida da Via Láctea orbita tão perto do nosso buraco negro supermassivo que sente a sua rotação. Tradução de Margarida Serote. Saense. https://saense.com.br/2026/08/a-estrela-mais-rapida-da-via-lactea-orbita-tao-perto-do-nosso-buraco-negro-supermassivo-que-sente-a-sua-rotacao/. Publicado em 26 de agosto (2026).

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