ESO
05/08/2026

Finalmente, os astrónomos obtiveram provas concretas de que Betelgeuse, uma das estrelas mais famosas do céu noturno, não está sozinha. Com o auxílio do Very Large Telescope (VLT) do Observatório Europeu do Sul (ESO), uma equipa liderada pelo investigador francês Miguel Montargès obteve a imagem mais nítida de sempre do que é provavelmente Betelgeuse B, a estrela companheira de Betelgeuse. “Trata-se da conclusão de uma busca que durou um século,” afirma Montargès.
“Mostrámos que Betelgeuse não está sozinha, mas sim acompanhada por uma companheira estelar pouco brilhante“, afirma Montargès, astrónomo do Observatório de Paris – PSL, França, e autor principal do estudo publicado hoje na revista da especialidade Astronomy & Astrophysics. Betelgeuse, uma estrela avermelhada da constelação de Orion, facilmente visível a olho nu e conhecida pelas suas variações de brilho, é observada há milénios. No entanto, continua a surpreender os astrónomos.
“Dei um salto da cadeira quando vi as imagens processadas“, recorda Montargès. Os astrónomos andam à procura da potencial companheira de Betelgeuse, inicialmente proposta para explicar as variações de brilho de Betelgeuse, há cerca de um século, mas sem sucesso até agora. Dois estudos publicados em 2024 previam de forma robusta que, em Dezembro desse mesmo ano, a companheira estaria o mais afastada possível de Betelgeuse e, por isso, seria mais fácil de detectar. Montargès e a sua equipa puseram mãos à obra, observando a estrela com o VLT do ESO em Dezembro de 2024 e dedicando vários meses ao processamento dos dados.
“Sinceramente, pensei que não íamos ter sensibilidade suficiente para detectar Betelgeuse B tal como tinha sido previsto“, explica Montargès. “No entanto, como esta companheira tem mais massa do que o previsto, conseguimos vê-la!” Inicialmente pensava-se que Betelgeuse B tinha aproximadamente a mesma massa que o Sol, contudo as novas observações revelaram que esta estrela tem, na verdade, cerca de duas a três vezes a massa solar. “O facto de ainda conseguirmos descobrir uma companheira próxima, mais massiva e mais brilhante do que o nosso Sol, em torno de uma estrela tão bem estudada é notável“, afirma Montargès. “Estes são dos melhores momentos da ciência: descobrir algo novo, inesperado.“
A imagem de Betelgeuse B foi capturada diretamente, o que significa que foi detectada a luz da própria estrela, com o instrumento SPHERE montado no VLT do ESO, no deserto chileno do Atacama. Embora já houvesse indícios da existência desta estrela companheira, incluindo uma possível detecção direta com o Telescópio Gemini North, no Havai, EUA, esta é a prova mais forte e a imagem mais nítida que temos de Betelgeuse B até à data. “É notável ver como o SPHERE e as técnicas avançadas de pós-processamento de imagens, originalmente desenvolvidas para encontrar exoplanetas, são igualmente excelentes na detecção de uma companheira em torno duma estrela evoluída e de grande massa, como é o caso de Betelgeuse“, afirma o coautor Anthony Boccaletti, também astrónomo do Observatório de Paris.
“Para termos a certeza absoluta de que esta companheira existe realmente, ainda temos de a observar dentro de um ano, quando se encontrar do outro lado da estrela, contudo já não há praticamente margem para dúvidas“, acrescenta Montargès.
Há alguns anos, Betelgeuse foi alvo da atenção tanto de astrónomos como do público em geral quando começou a escurecer visivelmente. Sendo uma estrela supergigante evoluída, espera-se que Betelgeuse termine a sua vida sob a forma de uma explosão de supernova, e o seu escurecimento levou algumas pessoas a especular que a estrela poderia estar prestes a explodir. Nessa altura, um grupo de astrónomos liderado por Montargès estudou a estrela com o VLT do ESO e descobriu que, na realidade, Betelgeuse se encontrava obscurecida devido a uma nuvem de poeira.
A potencial detecção de Betelgeuse B levará os astrónomos a investigar de que forma a companheira poderá afetar a explosão de supernova esperada de Betelgeuse. “A questão de saber se esta companheira terá ou não um impacto na evolução da supergigante vermelha está verdadeiramente em aberto“, conclui Montargès. [1], [2]
[1] Este trabalho de investigação foi descrito num artigo científico intitulado “VLT/SPHERE images the candidate companion of Betelgeuse” publicado na revista da especialidade Astronomy & Astrophysics.
[2] Este texto foi traduzido por Margarida Serote
[3] Publicação original: https://www.eso.org/public/portugal/news/eso2611/
Como citar este texto: ESO. Descoberta a evidência mais forte até à data que Betelgeuse possui uma companheira. Tradução de Margarida Serote. Saense. https://saense.com.br/2026/08/descoberta-a-evidencia-mais-forte-ate-a-data-que-betelgeuse-possui-uma-companheira/. Publicado em 05 de agosto (2026).