PAMMOTH: o futuro do diagnóstico do câncer de mama?

Ana Maia
17/07/2017

Ilustração da técnica PAMMOTH. [1]
Na semana passada, a triste notícia da morte precoce, devido a um câncer de mama, da primeira mulher a ganhar a Medalha Fields [2] mostrou claramente a gravidade desta patologia. Infelizmente, ela é apenas mais uma. Excetuando-se os casos de câncer de pele não melanoma, o câncer de mama é o mais frequente em mulheres e o responsável pelo maior número de morte [3]. Por isso, há tanto empenho para o diagnóstico precoce, que aumenta significativamente a sobrevida da paciente.

Atualmente, a metodologia adotada para diagnóstico precoce do câncer de mama é o rastreamento populacional com mamografia. Isto significa que os médicos devem recomendar as suas pacientes que façam a mamografia mesmo que estejam assintomáticas.

Contudo, a mamografia tem limitações. Para mamas mais densas, a sua eficiência é baixa [4]. Por isso, ela é normalmente recomendada apenas para mulheres acima dos 40 anos. Além disso, quem já fez mamografia sabe que o exame é incomodo, devido à compressão das mamas. Por causa deste fator, muitas mulheres acabam não cumprindo as recomendações de realização frequente da mamografia, aumentando as chances de diagnóstico tardio do tumor. Por último, a mamografia sozinha não permite o diagnóstico do câncer, sendo necessário submeter a paciente com algum achado na mamografia a uma biópsia.

Com o reconhecimento da relevância do assunto, muitos grupos têm investido no desenvolvimento de alternativas à mamografia, como já foi relatado em duas oportunidades aqui no Saense [5,6]. E nesta direção, destaca-se a iniciativa de um consórcio europeu, liderado pela University of Twente, na Holanda, que tem apostado muito alto no desenvolvimento de uma nova técnica de diagnóstico do câncer de mama [7,8].  A técnica, denominada de PAMMOTH (Photoacoustic Mammoscopy for evaluating screening-detected abnormalities in the breast) está sendo desenvolvida por um conjunto de instituições de, pelo menos, 7 países e promete viabilizar o uso clínico da técnica até 2021.

O novo método de diagnóstico envolve som e luz, numa técnica fotoacústica, como a abordada no artigo “Imagens fotoacústicas durante a cirurgia podem determinar com segurança a extensão do câncer de mama” [5], sobre um novo método de biópsia para o câncer de mama. Na PAMMOTH, a paciente ficará de bruços em uma maca na qual será acoplada uma “tigela” com diversas fibras óticas e sensores de ultrassom, como ilustrado na figura acima. A técnica usa lasers de diferentes comprimentos de onda na região do infravermelho para provocar aquecimento e analisar a emissão de ondas sonoras mais frequentes em regiões de maior presença de hemoglobina, ou seja, de maior oxigenação sanguínea. A técnica promete ainda identificar o grau de malignidade do tumor a partir da quantificação da taxa de oxigenação na região suspeita e nas suas adjacências. E tudo isso, sem dor e de uma vez só!

Com tantas vantagens e com tantos pesquisadores envolvidos, a torcida é que a técnica se concretize na data prevista e que os dias de “apertos” estejam contados.

[1] Crédito da imagem: University of Twente. URL: https://www.utwente.nl/.uc/i81/63d18c01024cd120003af3b701e23b0b00a83367010701c20000800280.jpg.

[2] Wikipedia. Maryam Mirzakhani. https://en.wikipedia.org/wiki/Maryam_Mirzakhani.

[3] INCA. CÂNCER DE MAMA: é preciso falar disso. URL: http://www1.inca.gov.br/inca/Arquivos/Cartilha_cancer_de_mama_vamos_falar_sobre_isso2016_web.pdf. INCA (2016).

[4] The Dartmouth Institute. Women with Dense Breasts Will Have to Look Beyond Ultrasound for Useful Supplemental Breast Cancer. URL: http://tdi.dartmouth.edu/press/press-releases/women-with-dense-breasts-will-have-to-look-beyond-ultrasound-for-useful-sup. Acesso: 16 de julho (2017).

[5] Ana Maia. Imagens fotoacústicas durante a cirurgia podem determinar com segurança a extensão do câncer de mama. Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/06/imagens-fotoacusticas-durante-a-cirurgia-podem-determinar-com-seguranca-a-extensao-do-cancer-de-mama/. Publicado em 19 de junho (2017).

[6] Ana Maia. Será que a mamografia está com os dias contados? Saense. URL: http://www.saense.com.br/2016/11/sera-que-a-mamografia-esta-com-os-dias-contados/. Publicado em 21 de novembro (2016).

[7] University of Twente. 5.1 million euro to develop ‘dream imager’ for breast cancer diagnosis. URL: https://www.utwente.nl/en/news/!/2016/9/233888/5.1-million-euro-to-develop-dream-imager-for-breast-cancer-diagnosis. Publicado em 15 de setembro (2016).

[8] Photonics21. Laser imaging ‘bowl’ to give instant test for breast cancer. URL: http://www.photonics21.org/download/News/17-P04—PAMMOTH-Press-release-final-Photonics21.pdf?m=1497968444. Acesso: 16 de julho (2017).

Como citar este artigo: Ana Maia. PAMMOTH: o futuro do diagnóstico do câncer de mama? Saense. URL: http://www.saense.com.br/2017/07/pammoth-o-futuro-do-diagnostico-do-cancer-de-mama/. Publicado em 17 de julho (2017).

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Ana Maia

Doutora em Tecnologia Nuclear. Professora da Universidade Federal de Sergipe. Escreve sobre Física Médica e Tecnologia Nuclear no Saense.

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