Jornal da USP
16/09/2019

O “cemitério do ebola”, na cidade de Waterloo – Foto: Acervo pessoal/Denise Pimenta

Quando foi para Serra Leoa pela primeira vez, em outubro de 2015, a antropóloga Denise Pimenta encontrou o país em estado de alerta. Embora a região do oeste da África já estivesse perto de superar a epidemia do ebola, oficialmente contida em 2016, a situação ainda era de precaução máxima, inclusive militarizada. “A ‘máquina’ médico-militar”, diz ela, “era muito forte. Quem conferia a temperatura das pessoas para medir o risco de contágio, por exemplo, era o exército”.

Apesar deste clima, a pesquisadora não estava preocupada. Antes de ir, preparou-se por muito tempo reunindo documentos, pesquisando sobre o local e tomando uma série de vacinas. Como ela mesma coloca, seu maior medo era de não conseguir entrar no país.

Denise cruzou o Atlântico buscando entender um dado pouco repercutido na época: durante a epidemia, as principais atingidas foram as mulheres. Segundo o último relatório da Organização Mundial da Saúde sobre o tema, em 2016 Serra Leoa tinha 9.941 casos confirmados da doença, sendo 5.118 em mulheres. Qual era a explicação por trás disso?

Os nove meses passados em campo entre 2015 e 2017 resultaram na tese de doutorado O cuidado perigoso: tramas de afeto e risco na Serra Leoa (a epidemia de Ebola contada pelas mulheres, vivas e mortas), defendida pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 

A principal conclusão do estudo foi que o papel de cuidar das pessoas atingidas pelo vírus, quase sempre reservado às mulheres, as colocava em situação de maior vulnerabilidade. A pesquisa ajuda a compreender a influência das relações de gênero em meio a cenários de catástrofe, e traz informações que podem contribuir para a criação de políticas públicas mais efetivas para esses casos.

O cuidado perigoso

“Para entender por que mais mulheres morreram, fui atrás de saber como essas mulheres viviam”, explica Denise, que durante o tempo em Serra Leoa morou nas comunidades de Komende-Luyama, Devil Hole e John Thorpe, no interior do país.

Foi a partir de conversas e entrevistas informais que a pesquisadora acabou cunhando o termo “cuidado perigoso”. Ela conta que ficou surpresa com a resposta de uma estudante quando perguntada sobre qual o motivo de a epidemia ter sido mais impiedosa para as mulheres: “because of love”, disse a menina. Por causa do amor.

“Mas não é um amor romantizado”, salienta Denise. “É um amor-fardo, que passa pelo parentesco, pelas tramas de amizade e afeto.”

O mesmo cuidado que salva, mata. Cuidado, entendido como decorrência do ‘amor’, é um fardo que recai sobre as mulheres. Trata-se de um ônus cultural de uma existência feminina (O cuidado perigoso: tramas de afeto e risco na Serra Leoa)

Nas três comunidades, Denise descobriu que a primeira vítima fatal do ebola havia sido uma mulher. Foi este então o pontapé inicial da pesquisa: investigando as relações familiares e afetivas das primeiras mortas, foi possível traçar o caminho que o vírus percorreu em cada comunidade. “Com essa retrospectiva percebi que mais mulheres tinham morrido, e quem eram essas mulheres. Eram mães, irmãs, amigas, vizinhas”, diz. Todas tinham em comum a responsabilização pelo cuidado dos doentes.

As mulheres também eram responsáveis pela lavagem dos corpos quando outras mulheres morriam. Uma vez que a transmissão do ebola se dá pelo contato com fluidos corporais, isso criava um ciclo vicioso em que elas eram sempre as mais contaminadas.

Como a própria pesquisadora coloca, trocando-se a situação, a pesquisa mostra dinâmicas que ocorrem com mulheres pobres em diferentes lugares do mundo. Como exemplo, cita o livro da também antropóloga Debora Diniz, Zika: Do Sertão nordestino à ameaça global, que mostra, dentre outras questões, como mães e gestantes brasileiras foram afetadas pelo surto do vírus zika que ocorreu anos atrás.

“O cuidado perigoso do qual falo, mesmo tirando a epidemia, está inserido na nossa realidade o tempo todo. Quando uma mulher cuida de alguém com uma doença ou uma deficiência, nós romantizamos, tiramos a vulnerabilidade da coisa para chamar de amor”, diz Denise. “Tiramos toda a carga de violência, desigualdade de gênero, de salários, os riscos que as mulheres correm. E, enquanto fazemos isso, políticas públicas não estão sendo propostas.”

Traumas da guerra e desigualdade social

Além da desigualdade de gênero, para produzir o estudo Denise se deparou com outras questões importantes que permeiam a vida em Serra Leoa. Uma delas era a guerra. “Eles me diziam: primeiro veio a guerra, depois o ebola. Havia uma temporalidade de eventos dramáticos que era preciso compreender”, diz.

A guerra civil de Serra Leoa aconteceu entre 1991 e 2002, resultante de conflitos existentes desde quando o país se tornou independente do Reino Unido, em 1961. Foi um período traumático, com grande saldo de mortos e marcado por todo tipo de violência, como estupros e o uso de crianças-soldado.

A guerra não saía das cozinhas e varandas onde se encontravam minhas interlocutoras. Ao contrário, como um saber picante, atravessava todas as minhas conversas, não importando se tristes ou alegres. Compreendi que o saber da guerra era como pimenta para aquele povo, impossível de ser retirada do paladar na medida em que constituinte de quem eram (O cuidado perigoso: tramas de afeto e risco na Serra Leoa)

Esse passado conflituoso ajuda a entender tanto a forma militarizada como o Estado lidou com a epidemia quanto o receio que a população tinha dos soldados. Era o exército que vistoriava as comunidades para levar embora os infectados. Quando isso acontecia, havia pânico e muitas pessoas se escondiam. 

O receio tinha motivos para além da truculência. Os sintomas iniciais do ebola são parecidos com os da gripe e de outras doenças comuns na região. Por isso, os civis tinham medo de serem levados incorretamente e, uma vez em contato com infectados na ambulância ou nos hospitais, aí sim contraírem o vírus.

Também eram comuns os relatos de famílias que perderam contato com os parentes levados por suspeita de ebola ‒ em alguns casos os hospitais ficavam a dias de distância das comunidades, que por sua vez não possuíam telefone ou outros meios para se comunicar. Assim, muitos acabavam morrendo e sendo enterrados como indigentes.

Você precisa ter filhos, pelo menos uns três… Eu tive poucos, cinco filhos, dois morreram na guerra. Imagina se eu tivesse tido só dois, quem ia cuidar de mim? Aqui na África se morre muito, a gente precisa ter muito filho”, ouviu Denise de uma das entrevistadas

Em paralelo, havia também uma diferença geográfica e de classe no modo como a doença se propagava. Com pouca infraestrutura para lidar com o problema, as áreas rurais foram as mais afetadas. Enquanto isso, as famílias abastadas, no campo ou na cidade, tinham condições para se exilar do país quando o perigo se tornou mais ameaçador.

“É comum dizer que epidemias e desastres naturais devastam tudo, levam a todos, mas não é bem assim que acontece”, coloca Denise. “Epidemias e desastres ambientais têm gênero, raça e classe.”

A pesquisadora fala ainda sobre o modo como a epidemia foi tratada pela mídia ocidental. Para ela, a imprensa ajudou a fortalecer uma narrativa que abordava os africanos como ignorantes, sempre privilegiando fontes oficiais e profissionais da saúde, muitos destes, homens brancos europeus ou estadunidenses. As mulheres sobreviventes, sobretudo as mais pobres e que moravam em regiões distantes dos centros comerciais, tinham pouco ou nenhum destaque nas reportagens.

Financiamento

Para realizar a pesquisa, Denise obteve financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Conforme ela explica, a bolsa foi de extrema ajuda, porém insuficiente para cobrir todos os custos necessários desde a preparação até a conclusão do estudo.

Ela precisou complementar a verba com ajuda da família, mas sabe que essa possibilidade é para poucos. E lamenta: “No Brasil, sobretudo na área das ciências humanas, pesquisas como essas acabam sendo bancadas por uma estrutura familiar e de amigos, infelizmente”.

Além das preocupações financeiras, houve a preocupação com segurança. Para ela, também nesse aspecto existem várias dificuldades que os pesquisadores precisam enfrentar, como o excesso de trabalho para baixo número de profissionais. 

“Nossos problemas são tão básicos que ninguém está preparado para pensar, por exemplo, que pessoas que fazem certos tipos de pesquisa [em áreas de risco] precisam passar pelo [Instituto de Infectologia] Emílio Ribas, ou para pedir documentos de quem está realizando essas pesquisas, ter controle de onde estão”, diz Denise. 

Ela complementa dizendo que não culpa os professores e funcionários que participam desse processo. “Pelo contrário, eles gostariam muito que fosse assim. Porém, as demandas burocráticas para não perder verba são tão grandes que isso é impossível.”

Para conferir a tese na íntegra, acesse a Biblioteca de Teses e Dissertações da USP.

Mais informações: e-mail [email protected], com Denise Pimenta. [1]

[1] Esta notícia científica foi escrita por Matheus Souza.

Como citar esta notícia científica: Jornal da USP. Desigualdade de gênero deixou mulheres mais vulneráveis na epidemia de ebola. Texto de Matheus Souza. Saense. https://saense.com.br/2019/09/desigualdade-de-genero-deixou-mulheres-mais-vulneraveis-na-epidemia-de-ebola/. Publicado em 16 de setembro (2019).

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