Embrapa
10/07/2020

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Lineu Neiva Rodrigues
Pesquisador da Embrapa Cerrados

Sob uma ótica restrita, a irrigação é vista simplesmente como uma tecnologia para aplicação de água na planta, mas, com um olhar mais aprofundado, constata-se que ela é a base de uma economia e de um modo de vida. A irrigação viabilizou o povoamento intensivo de várias regiões do mundo. A relevância da agricultura irrigada na economia agrícola global e na oferta de alimentos nem sempre foi tão importante como ela é atualmente. Entretanto, historicamente, ela sempre teve importância significativa para o desenvolvimento local e regional, com importantes contribuições sociais.

A relação água-alimento é complexa. Esses dois elementos estão intrinsecamente e fortemente interconectados. A complexidade inerente a essa interação é um dos motivos dos debates e disputas, muitas vezes desnecessárias, entre os setores usuários. Mantidas as condições atuais, o aumento na produção de alimentos demandará mais água. É nesse sentido que a ciência é fundamental, as inovações modificam a situação atual, possibilitando produzir mais sem aumentar as demandas hídricas.

Água e alimento são elementos essenciais para a sobrevivência do ser humano. O risco de falta de alimento e/ou de falta de água sempre foram motivos de grandes preocupações da humanidade. Se o papel principal da irrigação é produzir alimentos, qual a razão das críticas muitas vezes feitas pela opinião pública? 

O papel principal da comunicação, como ferramenta, é decodificar a informação técnica para a sociedade, contribuindo para diferenciar o fato do mito. Os debates sobre a melhor forma de se utilizar os recursos hídricos sempre existirão, principalmente em regiões com baixa disponibilidade hídrica. Nesses casos, embora não prevista na política de recursos hídricos, a comunicação é um dos principais instrumentos da gestão. Informar com qualidade contribui para redução de conflitos pelo uso de água.

A informação incorreta favorece a polarização entre os usuários de recursos hídricos, que ao invés de cooperarem entre si, entram em disputas. Água é sinônimo de diálogo, de compartilhamento e de integração. Não deve ser geradora de conflitos, mas sim de oportunidade para o desenvolvimento.

MITOS E FATOS
A irrigação utiliza 70% da água outorgada. Isso é um mito. Justificativa: Uma parte da justificativa foi apresentada no artigo “Mitos e Fatos na agricultura irrigada (Parte I)”. Essa afirmação é muito vista e causa uma série de confusões e discussões.

Primeiramente vale a pena esclarecer que o valor correto da quantidade de água que é retirada para irrigação varia de ano para ano e de região para região. Em 2017, por exemplo, esse valor representou 52% do total; já em 2016, foi igual a 46,2%. Esse valor médio também é muito variável entre as regiões hidrográficas. Por exemplo, em 2006, as outorgas para irrigação representaram em média 46,7% do total. Na região hidrográfica do São Francisco, as outorgas para irrigação representaram 68,2%; já no Paraná representaram 21,9%. Isto é, quando se for analisar quanto de água a irrigação utiliza é importante se perguntar onde e em que ano.

Mas, então, de onde vem essa diferença entre o total que é outorgado e o total que é efetivamente contabilizado? O total de água que foi efetivamente contabilizado para fins de irrigação, em 2017, foi de 68,4% e, em 2016, foi de 67,2%. Para entender essa diferença entre o que é outorgado e o que é efetivamente contabilizado, é importante entender o conceito de vazão de retorno. A vazão de retorno é a parte da água que retorna para o manancial hídrico, podendo, em tese, ser reutilizada. O problema é que o valor utilizado para a vazão de retorno é empírico. Quanto maior for esse valor, menor será a quantidade de água efetivamente contabilizada para um determinado uso. Como, no geral, o valor divulgado pela mídia se refere ao valor que é efetivamente contabilizado, o setor com menor vazão de retorno, no caso, a irrigação, acaba sendo mais “penalizado”. A vazão de retorno é uma estimativa. A magnitude desse valor é influenciada por vários fatores, entre eles, o sistema de irrigação que é utilizado e o manejo de irrigação adotado.

Esse valor traz embutido uma subjetividade, pois não existe um critério adequadamente definido para sua estimativa, tornando difícil a sua comunicação com a sociedade. Para complicar ainda mais, o valor utilizado tem variado ao longo do tempo, o que dificulta a comparação entre os anos. Por exemplo, em 2018 o valor adotado foi igual a 28,6%; já em 2014 foi igual a 34,2%. 

Considerando, por exemplo, que o volume total de água retirado pelos setores usuários de uma região seja igual 100 m3 e que a irrigação representa 54% das retiradas e a indústria 17%. Isso equivaleria a 54 m3 de água retirada pela irrigação e 17 m3 retirados pela indústria. Tendo em vista que 34,2% será a vazão de retorno da irrigação e 80,2% a da indústria, o valor que será efetivamente contabilizado para irrigação será igual a 35,5 m3 e igual a 3 m3, para a indústria.

Em termos de vazão retirada, o total retirado pela indústria representa 31,5% da irrigação; já, quando se considera o que é efetivamente utilizado, ou seja, a vazão de retorno, ela passa a representar apenas 8,5%. E se fosse considerada uma vazão de retorno igual a 50% para irrigação? Nesse caso, 27 m3 retornaria para o curso d´água e o efetivamente contabilizado seria também igual a 27 m3, reduzindo significativamente a porcentagem efetivamente contabilizada pela irrigação em relação ao total.

Em 2017, por exemplo, a irrigação representou 52% do que foi outorgado. Após considerada a vazão de retorno, esse valor passou a representar 68,4%, sendo esse o número que é amplamente divulgado. É fundamental que sejam definidos critérios que uniformizem e melhorem as estimativas da percentagem da vazão retirada que é efetivamente contabilizada para cada setor.

É importante também observar que o valor apresentado se refere às outorgas e não ao que é efetivamente utilizado. O valor de vazão que é efetivamente retirado pela irrigação é muito variável de ano para ano, dependendo das chuvas. Isto é, esse valor médio apresentado só é verdadeiro para o período seco do ano.

Para finalizar, ao se avaliar a quantidade de água utilizada pela irrigação, é importante ter em mente que se trata de um número médio e que ele varia regionalmente. Além disso, deve-se sempre perguntar se o número apresentado é em relação ao valor total outorgado, ou se é em função do valor outorgado considerando-se a vazão de retorno (valor efetivamente contabilizado). Com certeza, esse valor não representará o valor de fato utilizado na irrigação.

Haverá conflitos pelo uso de água sempre que em uma bacia hidrográfica houver predominância de irrigação. Isso é um mito. Justificativa: Não é a predominância de um uso que gera conflitos. Todos os usuários de água de uma bacia podem ser irrigantes e não haver conflitos. O importante é que a água seja corretamente alocada entre os usuários. O que não se pode haver é retirada ilegal. Retiradas não contabilizadas comprometem todo o gerenciamento. A gestão de recursos hídricos consiste em administrar os recursos hídricos, compatibilizando a oferta com as demandas. Não é possível fazer a gestão sem que haja um conhecimento correto do que está sendo retirado. Uma retirada ilegal compromete todo sistema hídrico, aumenta o risco de conflitos e de falta de água. Em determinadas condições, é importante definir usos prioritários. A priorização dever ser constantemente acordada pelos usuários nos comitês de bacias, sempre valorizando a aptidão da bacia e sua capacidade de suporte.

A irrigação “desperdiça” muita água, sendo esta a razão das crises hídricas. Isso é um mito. Justificativa: Primeiramente é bom esclarecer que seria mais adequado falar sobre eficiência, que, de maneira bem simples, reflete quanto da água que é retirada dos rios está sendo efetivamente utilizada. O “desperdício” é relativo. Por exemplo, uma água vista como sendo “desperdiçada” pela irrigação pode estar contribuindo para aumentar a eficiência hídrica da bacia hidrográfica. Em segundo lugar, a irrigação não “desperdiça” muita água, os sistemas de irrigação atualmente são altamente eficientes. O irrigante se preocupa muito com a eficiência, seja por motivos ambientais, seja pelo fato que a baixa eficiência implica em baixas produtividades e no aumento de gastos com energia, ou seja, perda de dinheiro.

O que é muito comum também é relacionar a “crise hídrica” que ocorre em cidades com o uso da água no campo. Uma boa gestão de recursos hídricos é o melhor remédio contra “crises hídricas”. É evidente que é importante reduzir as perdas nos sistemas, sejam eles quais forem. Definir valores de referência para as eficiências mínimas esperadas em cada um dos setores, dentro das suas especificidades, é importante e contribuirá para aumentar a eficiência de uso da água. Não é produtivo comparar eficiência entre usos diferentes.

É importante estabelecer métricas específicas para cada uso, que devem ser pactuadas com os usuários. Em situação de escassez hídrica, em que a disponibilidade de água é limitada e geralmente insuficiente, as demandas (urbano, rural, animal, irrigação, industrial ou elétrico) devem ser muito bem quantificadas e equacionadas. A essas demandas setoriais, é preciso ainda acrescentar a demanda ecológica. Ou seja, é preciso manter no rio uma quantidade de água mínima capaz de manter as funções oferecidas pela água, garantindo as condições mínimas de manutenção de ecossistemas aquáticos. É claro que existem os desperdícios causados pelo uso inadequado da tecnologia, isso pode ser corrigido com capacitação em toda a cadeia.

A agricultura irrigada no Brasil não utiliza adequadamente os recursos hídricos. Isso é um mito. Justificativa: O Brasil é um país onde a agricultura irrigada está na vanguarda do conhecimento e do uso de tecnologias ambientais, como o plantio direto, que favorecem a infiltração da água no solo, contribuindo para a recarga dos aquíferos e aumento das vazões mínimas. A irrigação, de maneira geral, utiliza técnicas avançadas e com sistemas que operam em média com eficiência entre 75% a 90%. Não se pode comparar os sistemas de irrigação de hoje com os de 15 anos atrás. O campo é um verdadeiro laboratório de inovações.

Para melhorar ainda mais neste quesito, devemos fazer chegar ao campo as novas tecnologias e capacitar os nossos produtores no uso de técnicas de manejo da irrigação, de forma que eles possam ser os multiplicadores dessas técnicas. Os recursos hídricos são muito bem cuidados na agricultura, pelo simples fato de que a água é seu principal insumo.

Que caminhos a agricultura deve seguir para não enfrentar maiores problemas no futuro? Esse questionamento é frequentemente feito. Na dinâmica atual, prever o futuro é sempre uma tarefa difícil, mas alguns caminhos são mais certos. Com relação à água, a agricultura deve priorizar o uso de práticas de conservação de solo e água, preservando, principalmente, as áreas de recarga das bacias hidrográficas. O irrigante deve estar atento aos trabalhos de pesquisa, que sempre estão trazendo novidades. Por outro lado, e importante também que a pesquisa vá ao campo aprender com o irrigante e identificar as demandas reais que precisam ser pesquisadas.

Deve-se procurar utilizar equipamentos mais eficientes no uso de água e adotar alguma técnica de manejo. Realizando o manejo, o irrigante começa a entender a dinâmica do seu sistema. É primordial pensar nos usos múltiplos e na reservação de água. As barragens devem ser bem planejadas para beneficiarem o maior número de pessoas e causar o menor impacto ao ambiente.

O irrigante deve pensar na bacia hidrográfica como uma unidade de gestão de água. Isto é, o produtor deve olhar para todo o sistema e não apenas para ele mesmo, pois o sistema hídrico é interligado e não tem “dono”. Dentro do possível, o irrigante deve procurar entender quanto de água há disponível, sua variação temporal e as demandas que existem na bacia. Participar dos comitês de bacia e pactuar junto com os outros usuários para que haja uma boa gestão. 

Os processos de tomada de decisão no campo estão cada vez mais complexos, com necessidade de decisões mais rápidas, além de depender de análises de quantidade de dados cada vez maiores. Torna-se, portanto, importante avançar nas pesquisas relacionadas às tecnologias da informação, da comunicação, de big-data e de modelos de inteligência computacional e simulação que possam viabilizar a emissão de alertas e suporte à decisão. Mas não se pode perder de vista as amarras da “agricultura irrigada 1.0”. É preciso garantir ao irrigante as bases para o seu desenvolvimento, ou seja, é preciso que ele tenha segurança ambiental, hídrica, energética e jurídica para o seu negócio.

Para finalizar, é preciso pensar o desenvolvimento de maneira integrada e estratégica, sendo a água e o alimento elementos centrais desse debate. Nesse sentido, é importante analisar a capacidade de suporte das bacias hidrográficas e as responsabilidades de cada setor usuário, favorecendo sempre os usos múltiplos e apresentando oportunidade de crescimento para todos. A água não pode ser fator limitante do crescimento, sendo, dessa forma, necessário fazer tanto a gestão da demanda como da oferta hídrica.

[1] Imagem de ju Irun por Pixabay.

Como citar este artigo: Embrapa. Mitos e Fatos na agricultura irrigada (Parte II).  Texto de Lineu Neiva Rodrigues. Saense. https://saense.com.br/2020/07/mitos-e-fatos-na-agricultura-irrigada-parte-ii/. Publicado em 10 de julho (2020).

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